Jornal do Brasil

Visto de Fora

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Miguel Paiva

Do que tem medo a classe média?

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O problema não é só do Brasil, é do Estado do Rio, da Cidade do Rio de Janeiro, do seu bairro, do quarteirão onde você mora, da sua rua, da sua casa e até mesmo seu... Começa em você que deve ter tido medo de eleger o Freixo e acabou deixando, por omissão e falta de informação, o Crivella vencer. E não foi só o Crivella, o Witzel também e, logicamente, o Bolsonaro. Se isso não tivesse acontecido a cidade mais bem cuidada, o estado muito melhor e o país nem se fala. Esse processo, democrático apesar de capenga, nos faz pagar um preço enorme com consequências inimagináveis.

Macaque in the trees
Charge (Foto: miguel paiva/JB)

Mas vamos ficar aqui pelo Rio de Janeiro, a cidade, já que o estado e o país estão entregues ao que há de pior na nossa história e como moro por aqui, aqui fico, nos comentários. O Ancelmo Gois está fazendo uma campanha na sua coluna que a primeira vista ( e a segunda também) pode parecer simpática ao Rio, e é. Mas, é perigoso achar que basta alguns personagens famosos da cidade declararem seu amor a ela e dizerem que ficam para que as coisas comecem a melhorar.

A cidade não está como está porque nós a abandonamos. A cidade está como está porque nós tivemos medo de mudar, de transformar e de evoluir. Confundimos um jovem corajoso como o Freixo, só porque é de esquerda e a favor de questões que emancipam mulheres e marginalizados e luta contra a milícia com uma ameaça comunista a não sei o quê ou a um pervertido sem deus. Não sei o quê mete tanto medo na classe média? Do quê eles têm tanto temor? De perder seus privilégios? Que ideal é esse de liberdade que não dá liberdade para que essa mesma classe ameaçada possa comprar um carro, mudar de casa ou viajar. Do que tem medo a classe média empobrecida do Rio de Janeiro? Talvez tenha medo do diabo, da liberdade de gênero, das transformações sociais. Isso só mete medo em quem não quer o progresso, em quem prefere o atraso, a falta de escola e de assistência médica, quem escolhe ver o povo sempre acuado não opondo nenhuma resistência ao saque descontrolado que os bancos, a classe dominante, os donos do dinheiro vêm perpetuando no país.

Mas o Rio é uma cidade dominada por uma lado pela milícia e pelo outro pelas igrejas que impõem um regime autoritário de escolhas limitadas, de crenças atrasadas e de temores infundados. Com isso, além de enriquecer os desonestos desta banda, criam uma prefeitura absolutamente inócua, incompetente, incapaz de trabalhar o mínimo pela cidade. Estamos abandonados e isso envolve, segurança, ruas, trânsito, parque olímpico, transporte, saúde e cultura. Sobrevivemos por inércia e não vamos conseguir deixar nada como legado. O que deveria ter acontecido com as Olimpíadas e não aconteceu também vai acontecer com nossa herança, como nossa passagem teimosa por estas bandas.

Sempre adorei o Rio mesmo tendo vivido em outros lugares. Nasci aqui, minha infância e adolescência foi no Rio. estudei num dos melhores colégios da cidade e depois sai pelo mundo mas, grato pelo que o Rio tinha me dado e o que carregava na minha memória afetiva. Isso foi ficando pelo caminho sobretudo um caminho que envolvia outras cidades e outras situações sociais mais justas. Antigamente, quando eu era bem jovem se contrapunha ao confronto entre o Rio e qualquer cidade nórdica da Europa a ideia de que lá as pessoas costumavam se suicidar de tédio e de frio e aqui as pessoas eram felizes mesmo que pobres. Não sei se isso ainda se aplica hoje. Os padrões de felicidade hoje mudaram e nem sei se os nórdicos continuam se suicidando. Só sei é que aqui está ficando impossível de se viver.