Susto, bala ou vício

Macaque in the trees
. (Foto: Miguel Paiva)
Além do calor insuportável, esse marasmo que estamos sentindo vem também do inevitável hábito de se acostumar com o pior. Usar de todos os meios possíveis para protestar, fazer oposição, conscientizar as pessoas é obrigação de todos que não concordam com o que está aí. Mas chega uma hora que dá um cansaço. Não sou político profissional, sou um jornalista e cartunista político e isso estabelece um limite. Continuo aqui batendo nesta tecla até que alguém escute o som que ela produz. Não é nem como missão, mas como desabafo, indignação, profissão de fé. Enquanto houver espaço, estaremos ocupando com coisas a serem ditas.

Olhando o sol lá fora que parece nunca mais se pôr, vem aquele desejo de fugir pra algum lugar, ainda Brasil, talvez Bahia onde estive agora, e deixar o tempo e o vento passarem por você. Olhando para o mar e para o verde não dá para acreditar que o Brasil esteja tão mal das pernas. Não dá para perceber que esse governo parece não tomar iniciativa alguma real pela população. Flexibilizar a posse de armas, por exemplo, pode ter sim um efeito nocivo, mas de fato é fogo de palha para atrair a simpatia nem sei de quem. Como se armas precisassem de decreto para circularem. As armas nocivas que matam a população continuam entrando no país que faz vista grossa. A indústria do armamento não quer paz e harmonia, quer motivos para que armas continuem sendo compradas. Com isso, ou nos divertimos neste faroeste caboclo onde cada um se acha xerife ou fechemos bem nossas portas e janelas. Não tenho a menor vontade de sair por ai dando tiro.

Agora em Santo André, na Bahia, passamos por uma situação inusitada para o local, que foi um arrastão na fila da balsa. Os meliantes fugiram e entraram numa casa na aldeia paradisíaca onde uma grande população local divide o mar e a praia com os turistas. Um vizinho de onde eu estava começou a dar tiros porque os cachorros avistaram dois elementos correndo no escuro. Pretos, é claro. Um foi atingido e o outro escondeu-se. Dia seguinte, foram presos. O mais grave é que me vi obrigado a me esconder no chão da casa e esperar que os tiros parassem. É estranho. Não parece que está acontecendo com você. Não me dei conta. Fiquei ali ouvindo os estampidos e pensando na loucura que é essa lei, o que ela prevê e pressupõe. Imaginar que a violência vá acabar com o tiroteio liberado, com o chamado direito de defesa para todos, é uma ilusão. Cabe ao Estado essa defesa. Se o Estado não cumpre sua parte, que cumpra, ora bolas! Cabe aos três poderes organizarem essa “casa da mãe joana”. Não cabe à população.

Ver o Moro defendendo esse decreto é triste. Além de tudo, ele pula um pedaço da verdade quando diz que a lei do desarmamento não resolveu o problema. Ela não existe para resolver, mas para ajudar a resolver junto com todo o resto que se faz necessário. E tem mais, os números de mortes diminuíram, sim.

De qualquer forma, não quero isso pra mim. Quero que haja um controle maior de armas, uma distribuição maior de renda, conhecimento e cultura, mais escolas, saúde e trabalho. Não me parece ser esse o programa do governo. Para alguns, isso tudo é palavrão mas prefiro escutar isso do que o som seco de um tiro, mesmo que seja um tiro previsto por lei ou decreto.