Jornal do Brasil

Visto de Fora

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Miguel Paiva

Projeto de vida

Jornal do Brasil

A cada dia que passa nos chocamos com atitudes humanas violentas que destoam da nossa ideia original de civilização. Tudo o que gostaríamos é que a vida fosse um mar de rosas. Uma espécie de novela das seis sem fim.

Mas a vida não é assim. Séculos de mandamentos tentam explicar o sentido bíblico do nascer e morrer das pessoas. Mas é estranho mesmo admitir que nada faz sentido. Claro que faz. Afinal, vivemos aqui há milênios e isso acaba nos ensinando alguma coisa. Gostar da vida e querer viver mais sempre inspirou o ser humano. Não necessariamente do modo mais inteligente. Pensando no tempo que já passou, o ser humano ainda é muito tosco. Matar o outro, por exemplo, é uma manifestação de intolerância que não deveria mais caber no chamado mundo civilizado. Quantos já morreram para que chegássemos até aqui? Mas essa visão prática da vida não combina com o medo de morrer. Se levássemos isso de modo mais leve ou não nos preocupássemos tanto com a morte talvez a vida fosse melhor.

Macaque in the trees
Projeto de vida (Foto: Reprodução)

Cientificamente, somos só uma contingência no Universo. Existimos por aqui porque a Terra, segundo o biólogo e escritor inglês Richard Dawkins, está numa posição em relação ao Sol que favorecesse a vida. Somos banhados pelo calor do sol na medida suficiente para que a Natureza se reproduza. Não sei se somos os únicos no universo, mas no nosso sistema solar parece que sim. Seres vivos que falam, cantam, amam e matam, acho que somos os únicos. Vai conviver com essa ideia?

É difícil, mas por outro lado, se encararmos essa realidade fica mais fácil entender o comportamento humano. Entender, eu disse, não aceitar. Se somos só uma contingência e não um projeto, não há um script e sim um manual de instruções que foi sendo elaborado com o passar dos tempos.

Muita gente acredita em Deus ou na Energia, com E maiúscula, como responsável por isso tudo que está aí. Ok, essa energia pode até existir, mas não funciona de modo lógico. Sobrevivemos porque somos teimosos e gostamos de tomar um chope e namorar.

A violência que surge do nada e que, na realidade, calibra esse mundo louco é apenas mais um gesto impensado de sobrevivência. Tentamos nos equilibrar entre os extremos. Parece que foi Stanley Kubrick quem disse que “o ser humano passou da barbárie à decadência sem um estágio intermediário de civilização”. Há um certo exagero, se formos listar tudo aquilo de bom que o homem já inventou em benefício próprio. Mas talvez não seja tão exagerado assim, se pensarmos nos genocídios patrocinados por estes mesmos homens. Dirão que é o equilíbrio que a vida necessita. Dirão que é para dar espaço na Terra. Acho pouco. Quando ouço que o ser humano não deu certo, reajo.

Acho que deu certo, sim, apesar da loucura, invenção mais nociva deste mesmo ser humano. Se até hoje ainda tentamos viver por aqui e respeitamos, mal ou bem, o sinal vermelho é porque demos certo. Se até hoje ainda tentamos a igualdade social, gostamos de um bom vinho, do pôr do sol ou de um beijo apaixonado é porque demos certo. É muito melhor viver com esse não saber do que receber a história pronta, sem direito a perguntas. Só existe um caminho para vingar o destino cruel que nos aguarda. Tentar ser feliz.

 



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