Jornal do Brasil

Olhar para dentro

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Flávio Cordeiro

2020: que o céu não caia sobre nós

Jornal do Brasil FLÁVIO CORDEIRO, flavio@flaviocordeiro.com.br

Nas proximidades do ano novo, é quase inevitável uma reavaliação de nosso modus vivendi, por onde caminhamos e nos desencaminhamos como indivíduos e como humanidade. Cultivo o péssimo hábito de não terminar um livro antes de começar outro e, às vezes, me pego lendo três ou quatro coisas simultaneamente. Mas o que poderia se tornar uma salada indigesta, às vezes provoca encontros iluminados, como, por exemplo, o de um pensador da cyber-cultura, um Xamã Yanomami e defensores da economia budista.

Macaque in the trees
. (Foto: Pixabay)

Nesses tempos em que o “outro" andou se tornando sinônimo de inimigo e obstáculo, me vi atracado com um desconcertante “outro", o livro “A queda do Céu: palavras de um Xamã Yanomami” (Companhia das Letras). A obra é o resultado de dez anos de entrevistas feitas pelo antropólogo Bruce Albert com o Xamã Yanomami Davi Kopenawa. Kopenawa é uma das vozes mais potentes do movimento indígena no Brasil e suas palavras, de fato, têm peso.

A queda do céu é uma profecia: a profecia do fim do mundo. O fim do mundo para os Yanomamis coincide com a destruição da floresta e dos rios. O trabalho dos Xamãs, como Kopenawa, consiste em trabalhar para que os espíritos da floresta, os Xapiris, sustentem o céu e não o deixe desabar. A queda do céu significaria o fim, o caos que atingirá não apenas os Yanomamis, mas também os brancos e seus descendentes, aos quais os Yanomamis chamam de o “povo da mercadoria”.

O curioso nessas minhas leituras cruzadas é que não são apenas os Xamãs Yanomami que estão preocupados com a queda do céu. Segundo o teórico da cyber-cultura Douglas Rushkoff, autor de "Team Human" (W.W Norton Editora - ainda sem tradução brasileira), os bilionários da tecnologia no Vale do Silício, aqueles que sabem das coisas, também estão preocupados com um futuro apocalíptico. Enquanto os Xamãs sabem disso pelos seus ancestrais e consultando os espíritos, os bilionários do vale do silício o sabem porque contratam os mais caros especialistas em cenários futuros e, a partir daí, traçam suas estratégias de sobrevivência pessoal e empresarial.

Ruskoff, um veterano nos assuntos de tecnologia, afirma que, apavorados, eles estão construindo abrigos nucleares em suas casas, além de sistemas de segurança sofisticadíssimos que os protegeriam no caso de um caos global, além de estarem adquirindo terras na Austrália e Nova Zelândia, que segundo consultores na área de meteorologia, seriam lugares menos afetados na transição climática que se anuncia. A possibilidade de colonização de Marte ou outro planeta também está na lista de possíveis rotas de fuga para um futuro apocalíptico. Parece fantasia: não é.

Diferentemente dos Xamãs Yanomami, que utilizam sua crença na força dos espíritos para evitar que o caos abata a humanidade, os bilionários no Vale do Silício parecem não acreditar que seu arsenal tecnológico seja capaz de evitar a queda do céu. No Vale do Silício as respostas são saídas individuais, jamais coletivas. Isso, segundo Rushkoff, tem a ver com uma determinada visão de mundo e de ser humano: “No futuro visto pela perspectiva de Wall Street e do Vale do Silício, os seres humanos são apenas uma dentre outras externalidades, para eles, há muitos de nós humanos demandando salários, assistência médica e um trabalho significativo”, trata-se de uma visão anti-humanista, cujas consequências sombrias, muito bem mapeadas por esses líderes, não são capazes de refrear o ímpeto auto-destrutivo e irracional do crescimento “exponencial".

Essa auto-destrutividade irracional é notada por Kopenawa. Para os Yanomamis, todo o valor de vida está na floresta e em sua preservação. Não está na mineração, que destrói a floresta, polui os rios com mercúrio e mata os peixes (hoje, há cerca de 20.000 garimpeiros no território Yanomami), nem tampouco no fascínio que os brancos têm por suas mercadorias: “Seu pensamento está concentrado em objetos o tempo todo, não param de fabricar e querem sempre coisas nova… temo que sua excitação pela mercadoria não tenha fim e acabem enredados nela até o caos.”.

Nas bordas de 2020, como passar de uma cultura da morte e da destruição para uma cultura que celebra a vida? Essa é a pergunta da ativista indiana Vandana Shiva (Economia de Gaia, Roça Nova Editora). Para ela, a insegurança gerada pela perspectiva da queda do céu não será construída nem pela paranóia escapista do bilionários do Vale do Silício nem com orçamentos militares gigantescos e igualmente paranóicos, mas sim com a trabalhosa e frutífera construção da segurança ecológica, da segurança econômica (atacando os aspectos da distribuição de renda) e da segurança política (mecanismos multilaterais de governança e respeito à diversidade).

Como psicólogo, e, sobretudo, como psicólogo junguiano, considero dificílimo pensar o ser individual, suas questões e seus conflitos, dissociados do plano mais amplo da sociedade. A angústia, por exemplo, um dos sofrimentos mais presentes nos divãs do mundo contemporâneo, é uma das mais diretas consequências da visão de mundo, do modo de vida e do ritmo acelerado e anti-humano do “povo da mercadoria”. A angústia é o sintoma individual, do presságio coletivo de uma queda do céu - que gera insegurança, falta de previsibilidade mínima na condução da vida e um nível muitas vezes insuportável de desamparo. A queda do céu, como fato psíquico, afeta a todos, como bem sabem os Xamãs Yanomamis. Desamparo é uma das variantes do sentimento de absoluta solidão.

Nunca é demais lembrar que ser humano é um esporte coletivo (Team Human, título do livro de Rushkoff) e que portanto não podemos ser plenamente humanos sozinhos, isolados. Vedanta Shiva, por sua vez, advoga que fazer as pazes com o planeta pressupõe fazer as pazes com pessoas e culturas distintas. O que difere de uma visão baseada na monocultura - que é o resultado da exclusão da diversidade e da dominação de uma única espécie, uma única religião, uma única visão de mundo, um bom exemplo de monocultura existencial é a crença de que a tecnologia resolverá todos os nossos problemas e não a nossa mudança em relação a eles (pelo visto nem os big bosses do Vale do Silício acreditam nisso). Ou seja, que empobrece um ecossistema, e nos empobrece também como seres humanos.

O que esperar então de 2020? Espero que os Xamãs Yanomamis não desistam de nós e não deixem o céu desabar sobre nossas cabeças. Enquanto isso, espero, um tanto utopicamente, que possamos nos transformar de o “povo da mercadoria” no “povo da sabedoria”; povo da sabedoria e não do conhecimento: pode-se utilizar muito conhecimento de forma pouco sábia. Reconhecer que a sabedoria ancestral dos indígenas brasileiros pode nos abrir novos caminhos seria um primeiro passo.

Feliz 2020!

Psicólogo e Psicoterapeuta