O futuro a longo prazo e o imediato

Em tempos de covid-19, enquanto as 135 vacinas em desenvolvimento no mundo podem ter aquecido as cotações dos fabricantes nas bolsas, embora ainda longe de produzir os antídotos ao novo coronavírus antes de 2021, analistas, gestores de carteiras e investidores seguem de olho nas curvas da doença, que ressurge em lugares onde já tinha ocorrido, nos novos focos e nos principais indicadores de preços de ativos que são influenciados pelo impacto econômico devastador da pandemia.

Com 211,6 milhões de habitantes, segundo projeção do IBGE, o Brasil começa a apontar sinais de redução na velocidade de contágio, mas segue acompanhado com lupa no mundo todo, assim como os populosos Paquistão (que teria passado o Brasil no 5º lugar, com 212 milhões de habitantes), Índia (1.380 milhões) e Indonésia (270 milhões), os únicos onde o aumento da velocidade da propagação do vírus pode superar a tragédia brasileira.

Atual 2º país em vítimas fatais (43.332 até dia 14), o Brasil viu diminuir o indicador dos novos contágios (17.110). Mesmo descontando a redução das notificações de novos casos e mortes nos fins de semana (quando muitas secretarias municipais, pelo país afora, entram burocraticamente em recesso), as indicações são de que as taxas de reprodução (R) do contágio estão caminhando para a faixa de 1 para 1 ou até menos. A capacidade de contágio diminui, provavelmente porque muita gente já se contaminou.

O “New York Times” produz, com a Universidade John Hopkins, um quadro diário da evolução do vírus em mais de 177 países. Ao lado dos casos acumulados, óbitos e da relação de contágio e mortes por 100 mil habitantes, há um gráfico com a gradação de cores que mostra a intensificação ou desaceleração do vírus. São cinco cores (azul - redução/baixa incidência; areia – estabilidade; e três cores crescentes –laranja, vermelho claro e vermelho intenso). Infelizmente, o Brasil é dos poucos que não tem as cores areia e azul. Em sua companhia, nas tonalidades crescentes de perigo estão Índia (com 10.830 mortes até ontem) e Paquistão (6.505 mortes até dia 14). O México, que tem mais de 17 mil mortes, ganhou uma animadora tarja azul.

O Departamento Econômico do Itaú criou um grupo só para acompanhar os casos de covid-19 pelo país e no mundo e assinala nesta 2ª feira, 15 de junho: “O Brasil tem 867.624 casos confirmados (aumento de 17.110 contra 21.704 do dia anterior), com 43.332 óbitos confirmados (aumento de 612 em relação ao aumento de 892 no dia anterior), o que implica uma taxa de mortalidade de 5,0%. A taxa de reprodução (R) está agora em 0,99 (de 1,01). Atualmente, há 388.492 casos recuperados (aumento de 9.247 contra 14.182). Outro indicador importante é p da ocupação de UTIs: em São Paulo, a taxa de utilização de leitos para pacientes covid-19 é de 58% na capital (de 60%) e 69% no estado (estável).

O balanço é menos favorável para o Estado do Rio de Janeiro. Com uma população bem menor que a de SP (17,3 milhões contra 46,2 milhões), tem menor testagem (79.572 frente às 178.202 de SP) e registra 7.672 mortes, contra 10.694 de São Paulo. Lá se pode dizer que os dados estão declinantes (apesar de surtos crescentes no vasto interior), enquanto no RJ, há focos no Grande Rio e especialmente nas comunidades carentes da capital. O fato importante é que o sistema de saúde não entrou com colapso.

No Norte e Nordeste, a curva começa a se achatar. Os países que abriram precoce o desorganizadamente as atividades de comércio e serviços, registraram recidiva e voltaram a reapertar os controles. Todo cuidado é pouco.

Vale lembrar que as virtudes da cloroquina e da hidroxicloroquina como tratamento do covid-19, tão decantadas pelo presidente Bolsonaro, que ordenou aos laboratórios do Exército a produção de milhões de comprimidos, foram condenadas nesta 2ª feira nos Estados Unidos pela FDA (modelo da Anvisa), que, revogou a autorização emergencial para seu uso, com base em novas evidências de que não é mais razoável acreditar na sua eficácia no tratamento da doença.

O Brasil está associado à Inglaterra na corrida de uma das vacinas, com a Fundação Butantã (SP) participando, na fase II e III (de testes em humanos, de crianças a idosos), como correspondente da empresa britânico-sueca AstraZeneca e da Universidade de Oxford dos testes de eficácia de um adenovírus de chimpanzé chamado ChAdOx1. Apoiado pela Operação Warp Speed (dos EUA), o projeto pode entregar vacinas de emergência até outubro. O laboratório prevê a produção de dois bilhões de doses.

O termômetro do petróleo

Mais uma vez, o mercado futuro de petróleo forneceu tendências pessimistas para o mercado que levaram a novas baixas em ativos, com a precaução dos investidores depois que que nos últimos dias, o número de casos voltou a crescer na China e também em alguns estados norte-americanos que relaxaram as medidas de distanciamento social.

Os contratos futuros de petróleo do tipo Brent agora retardaram para setembro de 2025 a superação do patamar de US$ 50 por barril. Há uma semana, o mercado era bem mais otimista e negociava neste patamar nos contratos de vencimento em fevereiro de 2024. Um dos abalos do mercado veio com a decisão da BP, gigante inglês do petróleo, de baixar US$ 17 bilhões em ativos devido à queda das cotações.

Isso impactou os mercados de ações de commodities agrícolas. Nos Estados Unidos, os ADRs da Petrobras caem mais de 6%, em dólar, que sobe mais de 2% no Brasil, negociado a R$ 5,15. Numa prova de que os cuidados com o meio ambiente serão um dos legados da pandemia, as cotações futuras do etanol resistem. Apesar da previsão de menor consumo do petróleo, a demanda do etanol, cuja adição à gasolina reduz a poluição, segue firme.

De olho no Copom

Uma semana depois do Federal Reserve dos Estados Unidos renovar a política de juros baixos e mais oferta de linhas de crédito à economia, os mercados financeiros estão de olho nas decisões de vários bancos centrais esta semana. Bancos da Inglaterra e do Japão anunciarão decisão de política monetária. E provavelmente manterão o tom preconizado pelo Fed.

Já o Copom se reúne amanhã e anuncia na quarta a esperada redução da taxa Selic em 0,75 p.p. para 2,25%. Há muita expectativa se o comunicado vi adiantar a possibilidade de um novo corte (menor) em agosto. A inflação corrente está bem comportada com os núcleos em desaceleração.

Esta semana o IBGE revelará três indicadores que deverão mostrar ao Comitê de Política Monetária do Banco Central (desfalcado do diretor de Política Econômica Fábio Kanzuck) os impactos negativos da pandemia no período. Amanhã serão anunciados os resultados das vendas do comércio (amanhã) e os primeiros resultados da coleta de impactos do covid-19. No dia 17 saem dos dados da pesquisa de serviços referentes a abril.

Top 5 prevê Selic a 1,75% este ano

No Relatório Focus, divulgado esta manhã pelo BC, o mercado espera recuo do PIB de 6,51% neste ano (uma pequena retração frente aos 6,48% da semana anterior), enquanto a expectativa para 2021 segue apontando alta de 3,5%. A mediana das projeções para o IPCA de 2020 subiu de 1,53% para 1,60%, enquanto a de 2021 caiu de 3,10% para 3,00%.

Para a taxa de câmbio, a mediana das expectativas para o final de 2020 foi alterada para R$/US$ 5,20 (R$/US$ 5,40 na semana anterior), e para 2021 baixou de R$/US$ 5,08 a R$/US$ 5,00. Por fim, a projeção para a taxa Selic ao final deste ano ficou estável em 2,25%, e para 2021 caiu de 3,50% para 3,00%.

Mas o grupo de cinco instituições (entre as 100 pesquisadas pelo BC) que mais acertam as previsões no Relatório Focus, está apontando em nova baixa de 0,25 p.p. na Selic em agosto, quando cairia a 2% ao ano e nova baixa em setembro para 1,75%, nível em que fecharia o ano de 2020. Para 2021, a mediana das expectativas do Top 5 também aponta nova queda para 2,38%