Ipea prevê queda de 10,5% do PIB no 2º trimestre

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), subordinado ao Ministério da Economia, reviu nesta terça-feira, 9 de junho, as projeções de março, que apontavam queda de apenas 1,8% para o PIB deste ano e aumentou o tamanho da recessão para 6% (menos que os 8% de queda previstos ontem pelo Banco Mundial). Para 2021, o crescimento deve aumentar de 3,1% para 3,6%. O Ipea aponta que o 2º trimestre concentrará a maior queda do PIB trimestral (-10,5% em relação ao 1º trimestre, que já caiu 1,5%) e sustenta que o mês de abril foi o fundo do poço da produção de bens e serviços no país.

A questão é que o estudo do Ipea pode estar furado na largada, pois pressupõe que a economia vai iniciar uma recuperação com “o início de uma gradual flexibilização das restrições à mobilidade e ao funcionamento das atividades econômicas a partir de junho”. A confusão nas estatísticas sobre as tendências da pandemia, a partir da intervenção no Ministério da Saúde, pode causar um retardo na definição da real tendência de regressão da pandemia nas principais regiões do país e retardar mais a reabertura.

O cenário do Instituto de queda de 10,5% no PIB deste 2º trimestre projeta retração de 13,8% na indústria, 10,1% nos serviços e 11,2% no consumo das famílias. Para o 3º e o 4º trimestres, o instituto prevê recuperação da atividade econômica, porque a flexibilização das medidas de isolamento, “em combinação com as políticas de preservação de emprego, renda e produção adotadas, deve permitir a gradual recuperação da economia ao longo dos próximos meses”.

Na previsão do Ipea, o setor de serviços, que responde por 73% do PIB, deve recuar 5,8% este ano mas crescer 3,7% em 2021. Já a indústria teria queda de 7,3% este ano e alta de 4% no ano que vem. A agropecuária segue como destaque positivo, com crescimento de 2% este ano, em função da alta de 3% no PIB da lavoura (hoje o IBGE previu aumento de 1,8% na safra de grãos). O bom desempenho agrícola pode “contribuir para atenuar a queda da indústria por meio de seu impacto sobre a produção de alimentos, segmento com maior peso na indústria de transformação brasileira”, assinala o Ipea.

Pelo lado da demanda, os investimentos devem ser o componente mais afetado, com queda de 9,7% em 2020, mas também com crescimento mais elevado no ano que vem (6,8%). As importações, influenciadas pela desvalorização cambial e pela redução do nível de atividade, devem recuar 6,5% este ano e as exportações 6,4%.

O auxílio emergencial não será capaz de impedir a forte perda na capacidade de consumo das famílias, afetado pelo aumento do desemprego e da incerteza, que cairia 6,9% em 2020. Para 2021, O Ipea espera aumento de 3,8%.

Desemprego ainda aumenta no Brasil

Por sinal, enquanto nos Estados Unidos a criação de 2,5 milhões de vagas em maio (após o país perder 40 milhões de vagas com o Covid-19) deu mostras do ensaio de recuperação da maior economia do mundo, no Brasil, onde a pandemia chegou mais tarde, os números de maio ainda foram bastante negativos, com um total de 960.258 solicitações de seguro-desemprego, segundo informou hoje o Ministério da Economia.

O aumento foi de 28,3% frente aos pedidos feitos em abril (748.540), disse a pasta. De janeiro a maio deste ano foram contabilizados 3.297.396 pedidos de seguro-desemprego, um aumento de 12,4% sobre igual período de 2019.

Itaú vê reação da economia

Além de acompanhar a marcha dos dados de novas contaminações e óbitos gerados pela pandemia do Covid-19, o Departamento Econômico do Banco Itaú criou, em março, um índice próprio para acompanhar a tendência diária do PIB. Ele tem ponderações semelhantes às dos diversos segmentos pesquisados pelo IBGE (que é o responsável pela análise das Contas Nacionais Trimestrais, a base de cálculo do Produto Interno Bruto, a soma de bens, serviços e renda gerados a cada trimestre e a cada ano).

A boa notícia é que o Itaú Index aumentou 5,7 p.p., para 82,1 (na terça-feira, 2 de junho, os últimos dados disponíveis). É o maior nível desde 20 de março (87,8), quando a economia brasileira virou de ponta cabeça, sob o impacto do isolamento face ao Covid-19.

A média móvel de 7 dias também subiu, em 1,3 p.p., para 75,5. O índice subiu 48% em relação ao último dado de 28 de março, e agora está 18% abaixo do nível de meados de março, quando a série começou a ser pesquisada pelo Depec Itaú.

Bradesco acompanha eleição nos Estados Unidos

A pandemia da Covid-19 pode (e deve impor) reflexões e revisões no processo de globalização e na interligação das cadeias produtivas. Não é aceitável, por exemplo, que as cadeias produtivas de insumos médico-farmacêuticos tenham o epicentro da produção concentrados na China e na Índia. Por serem os dois países com a maior população do mundo (respectivamente, 1,4 bilhão e 1,38 bilhão), é natural que ambos tenham vantagens de economia de escala.

Mas é estratégico para qualquer país de porte não ficar dependente de fontes externas na produção de medicamentos e insumos químico-farmacêuticos. O general Geisel pensava assim no seu governo (1974-79), quando estimulou indústrias de produção de medicamentos e a indústria de química fina, da qual a Norquisa, que dirigiu após deixar o governo, era a maior expressão. Privatizada nos anos 90, a Norquisa foi incorporada no governo Lula à Braskem, na concentração da petroquímica brasileira no grupo Odebrecht. E não se falou mais em química fina.

Mas, em meio à marcha à ré na globalização, segue inegável a importância dos Estados Unidos na direção da economia e dos destinos mundiais. Por isso, o Departamento Econômico do Bradesco está acompanhando atentamente a evolução das chances de reeleição do presidente Donald Trump, no pleito marcado para novembro. Estudo do economista, Constantin Jancsó, publicado há uma semana (3 de junho), dizia que a “Eleição americana deve entrar no radar dos mercados nos próximos meses”. Ele citava que “as pesquisas de intenção de voto nacionais mais recentes mostram Biden na frente do presidente Trump por cinco pontos, em média”. Jancsó assinalava que “as pesquisas estaduais sugerem que o Presidente Trump perdeu intenções de voto em quase todos os estados em relação aos resultados obtidos em 2016 – mesmo nos redutos tradicionalmente republicanos”. Dados revelados hoje pelo “The New York Times” indicam que a vantagem de Joe Biden aumentou para 14 pontos.

O fator George Floyd

No sistema eleitoral americano há a votação popular e a votação dos colégios eleitorais (os 50 estados dos EUA). Este ano, o colégio eleitoral terá 538 delegados e o candidato que assegurar 270 votos vence a eleição. Se um candidato ganha em determinado estado, leva os votos dos delegados do colégio eleitoral para a eleição final, com exceção dos Estados do Maine e de Nebrasca, que alocam um delegado para cada distrito eleitoral. Na Eleição de 2016, Trump perdeu para Hillary Clinton, que recebeu 65,8 milhões de votos contra 63 milhões, mas ganhou no colégio eleitoral por 306 votos a 232. Na eleição de George W. Bush, o Democrata Al Gore, que foi vice de Bill Clinton, venceu nas urnas, mas perdeu no Colégio Eleitoral e na desistência de pedir a recontagem de votos na Flórida.

Há estados tradicionalmente Democratas. Alguns têm Colégio Eleitoral de grande peso, como Nova Iorque e a Califórnia. Estados menores são, tradicionalmente, Republicanos. Para o estudo do Bradesco, a margem de garantia para cada um dos candidatos deve ser superior a cinco pontos. Antes do caso Floyd o placar era apertado e a decisão ficaria para os chamados “swing states” onde o eleitorado podia mudar de lado.

Nesta eleição, o Bradesco considera que a vitória de Binden em quatro “swing states” - Pensilvânia, Michigan, Minnesota e Arizona- seria suficiente para lhe dar maioria no colégio eleitoral. O Arizona foi incluído como um “swing state” com margem mais folgada para Biden, apesar de a última vez em que um candidato democrata venceu no estado ter sido em 1948. Trump venceu por pequena margem no Arizona em 2016 e o peso crescente do eleitorado latino no estado tem sido desfavorável ao presidente – em especial devido às controvérsias de sua política migratória.

As chances de Trump caíram muito com o seu comportamento vacilante no combate inicial à pandemia e pioraram com as suas declarações e atitudes equivocadas após a morte de George Floyd, por asfixia de um policial que, com a mão no bolso, comprimia seu pescoço em Minneapolis, insensível aos apelos de que não podia respirar. As manifestações em dezenas de cidades americanas em defesa de uma nova atitude da polícia em relação aos não brancos americanos podem ter sido o início da campanha, coincidindo com o fim do isolamento social em vários estados.

Anúncios que podem afetar economia

Jancsó chama a atenção para medidas que podem ser anunciadas por Binden e Trump para sensibilizar os delegados dos colégios eleitorais e ter influência na economia. O endurecimento no discurso contra a China pode ter tido eco em estados industriais como Michigan ou Pensilvânia, bem como adoção de políticas comerciais mais protecionistas.

No começo do ano, o acordo comercial com a China, que teria de aumentar as compras de produtos agrícolas americanos – teria ajudado a consolidar apoio político de Trump nas regiões agrícolas de estados eleitoralmente importantes (ou onde Trump venceu em 2016 com margem apertada) como Iowa, Wisconsin, Minnesota, Michigan, Ohio e Pensilvânia. Mas antes de Floyd veio a pandemia e as compras chinesas não vieram como previsto.

O estudo chama a atenção para o risco de imposição de tarifas à União Europeia. No momento em que o mundo busca formas de fomentar a recuperação econômica após a pandemia, as consequências de eventuais mudanças na política externa americana e os riscos associados são imprevisíveis.

Do lado democrata, Biden poderia adotar propostas mais alinhadas com Bernie Sanders e Elizabeth Warren em temas como reforma do sistema de saúde, desigualdade de renda e mudança climática. Recentemente, Biden se mostrou inclinado a reverter os cortes de impostos implementados por Trump.

Jancsó adverte que a influência da eleição americana sobre o balanço de riscos dos investidores deve ser crescente ao longo dos próximos meses, tanto associado ao peso do cálculo eleitoral sobre as decisões do governo atual quanto às chances de mudanças tributárias e regulatórias no caso de vitória democrata em novembro.