Ainda dá tempo de salvar o ano de 2021

O ano de 2020 está irremediavelmente perdido. A recusa do presidente Jair Bolsonaro de liderar o combate ao novo coronavírus (que inicialmente taxou como uma ‘gripezinha’) junto a governadores e prefeitos, fazendo, ao contrário, sucessivas manifestações e gestos contra o isolamento social, só fez ampliar o grau de contágio, o número de mortes e a duração da crise.

A recente previsão do Banco Mundial (BIRD) que elevou para 8% o tamanho da queda do PIB brasileiro deste ano (a previsão oficial do governo está em -5,3% e a do mercado, ampliada para queda de 4,48% na pesquisa Focus realizada sexta-feira e divulgada hoje (8.06) pelo Banco Central), mostra o tamanho do estrago. É a maior queda do PIB brasileiro em 120 anos. Algo pior só aconteceu no fim do século 19, quando o fim da Escravidão afetou a colheita de café (que respondia por 70% do PIB de então) e demais atividades agrícolas, comerciais e industriais baseadas na mão de obra escrava.

O dado negativo é que a recuperação que o Banco Mundial estima para o Brasil em 2021 seria só de 2,2%. É menos que os 2,5% previstos pelo mercado na Pesquisa Focus e os mais otimistas (+3,5%) previstos pelo Itaú e pelo Bradesco para o ano que vem. Para 2020, o Bradesco espera queda de 5,9% e o Itaú contração de apenas 4,5%. Portanto, se o país quiser recuperar um pouco do terreno perdido em 2021, é hora de construir, agora, antes da virada do 2º semestre, um caminho mínimo de entendimento e alinhamento entre o combate à pandemia e o retorno responsável e programado às atividades.

Embora não tenha tomado precauções na chegada de turistas durante o Carnaval (incluindo os brasileiros que voltaram de excursões pelo mundo) – que foram o estopim da disseminação do Covid-19 em vários pontos do país, o Brasil talvez tenha se fechado em casa antes da hora (para evitar a falência precoce do sistema de saúde, como ocorreu na Itália, Espanha e Estados Unidos) o Brasil se retraiu de maneira desorganizada. Sobretudo porque o presidente Jair Bolsonaro nunca priorizou o combate à pandemia. Antes preferia manter a economia operando para não sacrificar o crescimento.

A propensão de Bolsonaro ao confronto, a recusa da ciência, como fonte de orientação no combate ao vírus, e a negociação política exponenciaram os efeitos da pandemia no campo sanitário e econômico, terminando por incinerar suas pretensões políticas de iniciar já a campanha pela reeleição em 2022. O presidente já tentou de tudo, sem sucesso, como mostram as crescentes reações das ruas, para tentar se eximir da responsabilidade maior.

Contrariou a orientação de dois médicos, ministros da Saúde; propagandeou a cura mediante a cloroquina (que mandou ser produzida em massa nos laboratórios do Exército), que justificaria sua ideia-fixa contra o isolamento, ‘afinal havia uma cura’; criou decreto eximindo funcionário público por atos errados na pandemia, que tanto pode eximir responsabilidade de técnicos do Banco Central no socorro a banco e empresas (como disse que era o objeto da medida de exclusão de ilicitude), gestores da saúde nos três níveis de governo e até o próprio PR; e por fim, tentou retardar e maquiar os dados de mortes e contaminações. Em vão. A responsabilidade de carregar caixões não pode ser transferida a prefeitos e governadores. Muito menos ao Congresso e STF.

Só China se salva

O tombo da economia brasileira será um dos maiores previstos pelo Bird para a economia mundial, cuja retração foi elevada de 3% para 5,2% (a maior queda desde o fim da 2ª Guerra e quando o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento, da sigla em inglês, foi criado pela ONU para apoiar a reconstrução da Europa e países cujas economias foram assoladas pelo conflito mundial que durou mais de cinco anos). Em 2021, o PIB mundial cresceria 4,2%, sem conseguir recuperar as perdas da pandemia.

Pior que o desempenho do Brasil, só a queda de 9,1% prevista para a área do Euro devido ao forte impacto que a retração do turismo (uma das locomotivas econômicas do bloco europeu). Em 2021, a recuperação seria de 4,5% (menos da metade do tombo deste ano).

Nos Estados Unidos, a queda do PIB foi ampliada para 6,1%, mesmo nível da retração do Japão. A diferença é que os EUA devem voltar a crescer 4% em 2021 e o Japão, apenas 2,5%.

Com a revisão para baixo no desempenho do PIB da Índia (queda de 3,2% este ano, contra alta de 4,2% em 2019, e recuperação de 3,1% em 2021), dos países com economias expressivas no mundo só a China (onde o vírus surgiu em fins de dezembro e em janeiro tomou drásticas medidas de isolamento, aparentemente controlando a expansão do Covid-19) vai registrar expansão. O BIRD espera expansão modesta de 1% em 2020, com recuperação de 6,9% em 2020. Vale lembrar que o país tinha crescido 6,1% em 2019.

Brasil pior que México e Argentina

Na América Latina, o Brasil teria desempenho pior que o do México (queda de 7,5%, mas recuperação de 3% em 2021) e da Argentina (retração de 7,3% este ano e crescimento de 2,1% no ano que vem).

A Rússia, que faz parte da Europa, mas não é vinculada ao Euro, teria retração de 6% este ano e retomada de 2,7% em 2021. Grande produtor de petróleo e gás, o país sofre duplamente a redução de demanda da Europa (da qual é forte fornecedor de gás) e a queda brutal dos preços do petróleo.

O termômetro do petróleo

A reação dos preços futuros do petróleo semana passada, quando foi anunciada nova reunião da OPEP e os demais grandes produtores liderados pela Rússia (incluindo o Brasil), e os preços do Brent subiram pela primeira vez acima de US$ 45 desde março, é um bom termômetro sobre as expectativas futuras da retomada da economia mundial. O lado ruim foi que a Petrobras, para ajustar os preços domésticos aos do mercado internacional (dentro do objetivo de vender 50% de suas refinarias), vai aumentar amanhã em 10% a gasolina nas refinarias. No ano, a queda ainda é de 24%. Mas os donos de postos, que sempre elevam o preço, dão um jeito de segurar a baixa dos preços da gasolina nas bombas.

Todos estão certos que a retomada da economia tão cedo não terá o vigor e a volúpia do passado. Os cuidados nos meios de transporte de massa e no uso dos automóveis levarão à menor demanda de combustíveis e outros insumos, devido ao imenso desemprego que reduziu o poder de consumo nas principais economias, impactando até os preços futuros de commoditties agrícolas.

O maior mercado de destino dos produtos brasileiros é a China, seguido da área do Euro, Estados Unidos, Argentina e Japão. México também tem relevância. Por isso, o que está previsto de melhor ou pior para os mercados importadores do Brasil terão impacto no desempenho da economia brasileira nos próximos anos.

O barril de petróleo do tipo Brent (do Mar do Norte), chegou a ser negociado a US$ 69 em setembro de 2019 e roçou esse valor quando as forças armadas dos Estados Unidos mataram o comandante das brigadas iranianas em Bagdá, no começo de janeiro (antes do Covid-19 se espalhar fora da China). Despencou abaixo de US$ 20 em meados de abril quando o excesso de estoques em todo o mundo fez as cotações do tipo WTI (West Texas Intermediate) para entrega à vista cair para o terreno negativo. Hoje, houve ajuste de -3,30%, com as cotações descendo à faixa de US$ 40,90.

Mais volumes, menores preços

Mas o mais importante são as apostas nos preços futuros. A cotação negociada para dezembro de 2020 é de US$ 41,8. Para dezembro de 2021 sobe para US$ 44,5. Só a partir de fevereiro de 2024, o barril voltaria a ser negociado acima de US$ 50. Mercados são voláteis e as cotações mudam como nuvens ou sob novos ventos. Em maio, as exportações do Brasil para a China bateram recordes em volume (pela antecipação de compras do país), mas a preços menores. Tendência que tende a continuar.

Para os exportadores o estímulo extra da taxa de câmbio próxima a R$ 6 parece ter ficado para trás, após o recente recuo do dólar em todo o mundo e aqui, onde hoje era negociado a R$ 4,88, a menor cotação desde a primeira quinzena de março, antes da decretação da pandemia no Brasil. Vale lembrar que há um mês o real chegou a desvalorizar 29% ante o dólar e a desvalorização se reduziu na sexta-feira, 5 de junho para 19,5%.

No caso do minério de ferro e da soja, que respondem com a exportação de petróleo e derivados por mais de 50% das exportações brasileiras, o cenário não é animador. No caso do minério de ferro, as cotações atuais de US$ 100 por 500 toneladas métricas secas, para negócios à vista, tendem a cair dos US$ 103 previstos para o fim deste mês. Para dezembro a cotação está abaixo de US$ 90. Em dezembro de 2021 devem cair para US$ 76 e deslizar da faixa de US$ 60 para baixo a partir de 2022.

As cotações da soja tendem a ficar estáveis pelos próximos dois a três anos (até meados de 2023). E as carnes, tendo como parâmetro, o boi gordo, estão com ligeira tendência baixista até fins de 2021. No momento, o mercado vive uma fase atípica. A pressão compradora da China (que enfrenta uma segunda onda de gripe suína africana que dizimou em 2019 quase metade de seu rebanho de porcos, até então responsáveis por mais de 40% da proteína animal consumida no país, fez as vendas brasileiras baterem recordes em maio, porque o fechamento de vários frigoríficos nos Estados Unidos (devido a surtos de Covid-19 entre os funcionários) fez a demanda se deslocar para o Brasil. A Argentina também pode ser beneficiada, mas não tem escala para competir com o Brasil em volume exportado de soja, carne bovina e de frango.