Itaú vê sinais de estabilização da Covid e reação do PIB

O Itaú revisou nesta sexta-feira, 5 de junho, as projeções da economia mundial e do Brasil, com base nos sinais animadores de refluxo da pandemia do novo coronavírus na Europa, Estados Unidos e Sudeste Asiático, onde as atividades estão sendo retomadas (nos EUA, a criação de 2,5 milhões de vagas em maio reduziu o índice de desemprego de 14,7% em abril para 13,3%), e em algumas melhoras no quadro da pandemia no Brasil, especialmente com “sinais um pouco mais claros de recuo do número de óbitos por habitante na região Norte”.

Mas o maior banco privado brasileiro, que criou um nicho para acompanhar a evolução da doença, dado seu impacto na economia, ressalva que “para uma melhora mais duradoura do quadro geral, é necessário (...) um recuo expressivo também nas regiões mais populosas do Brasil (Nordeste e Sudeste)”. O Banco acredita “que o pico de óbitos deve ocorrer no meio de junho, permitindo uma abertura gradual da economia. Para isso, será importante monitorar a evolução das taxas de contágio”, acrescenta.

O banco assinala ainda que “a capacidade hospitalar também é um indicador importante para realizar a flexibilização das medidas de isolamento social com maior margem de segurança. A adição de novos leitos de UTI no município de São Paulo somada a um cronograma de reabertura gradual reduz as chances de colapso no sistema de saúde que, por sua vez, impediria um retorno das atividades”. Entretanto, no município do Rio de Janeiro, a prefeitura autoriza a reabertura gradual, apesar de a Secretaria de Saúde informar que, no dia 4 de junho, o índice de ocupação das UTIs na rede municipal do SUS era de 87%.

Rumo ao recorde mundial

Já o ex-presidente do Banco Central, Francisco Lopes, líder da Economática, é um pouco mais pessimista e prevê que a curva vai se estender até agosto, devendo o pico da doença “de aproximadamente 45 mil novos casos por dia” ser atingido “por volta de 4 de julho (…). Neste cálculo, o total de mortes diárias atingiria na metade do mês que vem a 2.500 pessoas. E ao final da epidemia, o Brasil poderia chegar a 155 mil óbitos.

Sinto dizer que os cálculos de Chico Lopes estão mais próximos da realidade. O quadro brasileiro pode se agravar com uma reabertura precoce, e feita sem bases para medir a real contaminação da população de menor renda, como é o caso no Grande Rio, a 2ª região metropolitana mais populosa do país.

Os Estados Unidos, que tem uma população de 329 milhões de habitantes, segundo dados da Universidade John Hopskin, acumulavam até hoje 108 mil mortes. O Brasil, com 34 mil óbitos, estava atrás dos quase 40 mil do Reino Unido e já superara os 33,7 mil da Itália. Entretanto, levando em conta a população de 211 milhões do Brasil e os 66,6 milhões de habitantes do Reino Unido, as estatísticas britânicas são piores até aqui.

A Universidade fez um ranking de óbitos por 100 mil habitantes. O pior índice é da Bélgica, que teve 9,6 mil mortes, ou 84 por 100 mil/habitantes. O índice britânico é de 60, o da Espanha é de 58, o da Itália é de 56, o da França é de 43. A Suécia, que resolveu não fazer isolamento, tem 45. Já o dos EUA é de 33 e o do Brasil, por ora, é de 16. Pelo tamanho de suas populações, a Índia, com 1.380 milhões (e índice até aqui de pouco mais de 1 por 100 mil), o Paquistão, com 210 milhões de habitantes e índice de 1%, são os únicos países que poderiam superar o Brasil em número de mortes, mas não em termos relativos, como no caso da Índia.

A UJH informa, segundo o NYT, que o ritmo de novas contaminações vem crescendo à média diária de 100 mil casos. Em parte, pela evolução das testagens no Brasil, na América Latina (México, Colômbia, Chile e Peru) e na Ásia, pelo avanço na Índia, Paquistão, Bangladesh, Tailândia e Indonésia e recidiva na Coreia do Sul, China e Vietnã, e pela expansão na África.

Por isso, o Itaú vê, no Brasil, “sinais incipientes de estabilização da propagação do vírus, embora incertezas permaneçam. A queda do número de novos casos/óbitos deve ser lenta e a reabertura da economia gradual. O início da flexibilização das medidas de distanciamento social em certos estados favorece, em tese, a retomada da atividade econômica, mas também aumenta o risco de agravamento da pandemia.

PIB cai mais no Mundo

Embora aprofunde a queda do PIB americano para 5% (contra -3,3% na previsão de maio), o Itaú viu sinais promissores de recuperação em V na economia chinesa que “reforça nossa expectativa de crescimento de 2,0% do PIB para 2020 e 7,5% em 2021, além de sustentar os preços das commodities nos mercados globais”.

Como a reabertura da economia na Europa “levou a uma melhora significativa da mobilidade, ainda maior nos últimos dias, à medida que os riscos de uma segunda onda parecem cada vez menores”, o banco manteve a projeção de queda de 8,0% do PIB em 2020 e aumento de 5,0% em 2021, mas ressalta que “uma perspectiva de melhor coordenação fiscal, após a proposta da Alemanha e França para um fundo de recuperação, tende a reduzir os riscos negativos”. Isso pode ajudar na recuperação dos países emergentes.

Piso no Brasil foi atingido em abril

O banco manteve a previsão de queda do PIB em -4,5% este ano, alta de 3,5% em 2021, frisando que “dados preliminares indicam que a atividade econômica pode ter atingido seu piso em abril”

O Itaú espera déficits primários de 10,2% do PIB em 2020 e de 2,2% do PIB em 2021. O banco calcula que impacto fiscal das medidas de combate aos efeitos do coronavírus deve alcançar 7,2% do PIB (R$ 525 bilhões). O principal gasto do pacote, com custo de 2,8% do PIB (R$ 205 bilhões), é o auxílio emergencial de R$ 600 por mês para trabalhadores informais, que o Itaú espera que seja “estendido por três meses adicionais, mas com valores decrescentes (R$ 600 em julho, R$ 400 em agosto e R$ 200 em setembro)”.

Aumento do Bolsa Família

O déficit de 2021 contemplaria a elevação de gastos sociais em 0,9% do PIB, como o teto do Bolsa Família dos atuais R$ 200 para R$ 600 (valor do Auxílio Emergencial), parcialmente compensada por aumentos de tributos, focado na “tributação de lucros”, que geraria aumento da carga tributária de 0,2% do PIB (R$ 20 bilhões).

O Itaú projeta a taxa de câmbio em R$ 5,75 por dólar em 2020 e R$ 4,50 por dólar em 2021. “Esperamos a continuidade do ajuste na conta corrente”, diz.

Queda da inflação pode derrubar mais a Selic

O banco reduziu sua projeção de IPCA de 2,0% para 1,8% neste ano e de 3,0% para 2,8% em 2021. O cenário para a inflação segue benigno, e a inflação baixa deste ano deve se propagar adiante.

“Esperamos que o Conselho Monetário Nacional (CMN) estabeleça a meta de inflação de 2023 em 3,25% ou 3,00%, reafirmando seu compromisso com a convergência da inflação para níveis mais compatíveis com aqueles observados em outros países emergentes.

Apesar deste quadro mais benigno da inflação, o Itaú manteve a projeção para a taxa Selic em 2,25% este ano, com queda de 0,75 ponto percentual na reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central de 17 de julho.

O Departamento Econômico do Itaú, chefiado por Mário Mesquita, que integrou o Copom no governo Dilma, acredita que, “por se tratar de um território inexplorado, o Banco Central deve atuar com cautela para evitar o risco de flexibilização monetária excessiva, o que poderia afetar preços de ativos de forma que restrinja as condições financeiras, tornando-se contraproducente”.

Já o JP. Morgan revisou para 1,75% a meta da Selic este ano, com queda de 0,75 p.p. em julho e uma baixa adicional de 0,50 p.p. na reunião do Copom em agosto.