Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

Grandes empresas e funcionalismo dominam créditos de emergência

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

O “power point” apresentado nesta quarta-feira, 14 de maio, pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, a representantes do setor agrícola sobre os efeitos da pandemia do novo coronavírus (Covid-19) na economia mundial e no Brasil, e as medidas tomadas pelo BC para oxigenar o crédito de capital de giro para as empresas manterem os empregados, mostrou que as grandes empresas abocanharam mais da metade dos R$ 378,1 bilhões liberados às pessoas jurídicas e físicas até 8 de maio. E os funcionários públicos foram os maiores beneficiados pelos bancos públicos entre as pessoas físicas.

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Gráfico: Saída de capital de não residentes (Foto: Banco Central)

Segundo os dados do Banco Central, de 16 de março, quando começaram a valer as medidas de redução do compulsório e de reservas técnicas para empréstimos, até 8 de maio, foram liberados R$ 378,1 bilhões. Já na 1ª semana R$ 298,2 milhões (ou 78,86% do total) foram sacados pelas empresas e clientes pessoas físicas nos bancos. A fatia dos bancos oficiais foi de R$ 76,3 bilhões (25,6%). O Banco Central não detalhou a parcela dos bancos oficiais nas três semanas seguintes.

Desvio de finalidade dos bancos oficiais

Mas além da baixa participação dos bancos públicos no crédito (incluindo o BNDES, cujo suporte às empresas anda emperrado), vale destacar que do total dos créditos dos bancos públicos na 1ª semana (R$ 76,5 bilhões) quase metade foi destinado às pessoas físicas, com um total de R$ 36 bilhões, que representaram 47% dos créditos.

Como a clientela pessoa física dos bancos oficiais (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Banco do Nordeste, Banco da Amazônia e BNDES) é composta majoritariamente de funcionários públicos, cujos empregos nem salários foram afetados (por enquanto) na pandemia, nota-se um desvio de finalidade nas operações.

Nas estatísticas do Sebrae e do IBGE, os maiores empregados do país são as pequenas, micro e médias empresas. Mas a fatia do leão no crédito emergencial ficou com as grandes empresas, que podem oferecer garantias reais aos bancos com os quais têm longa tradição de relacionamento. Elas tomaram 57,36% ou R$ 216,9 bilhões dos R$ 328,2 bilhões liberados até 8 de maio. Na primeira semana, levantaram R$ 167,8 bilhões, dos quais R$ 23,2 bilhões junto a bancos públicos.

As médias empresas levantaram R$ 43,3 bilhões (11,45%) do total, sendo R$ 31,1 bilhões na 1ª semana, dos quais R$ 7,5 bilhões foram providos pelos bancos públicos. As micros e pequenas empresas ficaram com R$ 31,4 bilhões (apenas 8,3% dos créditos totais), sendo R$ 28,9 bilhões na 1ª semana, com saque de R$ 9,8 bilhões nos bancos públicos.

A maior distorção é que as pessoas físicas conseguiram levantar mais créditos (R$ 86,5 bilhões) que as os R$ 74,7 bilhões levantados pelas pequenas e microempresas (R$ 31,4 bilhões) e as médias empresas (R$ 43,3 bilhões).

Juro alto o atrativo

Em dois gráficos divulgados na apresentação sobre as taxas de juros das operações com recursos livres para pessoas jurídicas e pessoas físicas, fica claro que os juros mais altos para os clientes individuais são um atrativo. Na média, os juros para pessoas jurídicas estavam em 40,6% ao ano para as pessoas físicas, contra média de 16,1% ao ano, em março, para as pessoas jurídicas.

Na decomposição de algumas operações, como o crédito consignado (funcionários públicos, aposentados do INSS e empregados do setor privado, todos com desconto em folha), as taxas de juros das operações para pessoas físicas estavam na faixa de 23,1% ao ano, segundo o BC. Para as operações de crédito pessoal não consignado, os juros atingiam 109,7% ao ano. E no financiamento de veículos a taxa era de 21% ao ano. Detalhe, contrariando a queda da taxa básica de juros (a Selic tinha caído a 3,75% ao ano em março e baixou a 3% ao ano em 8 de maio), os juros para veículos estavam em alta.

A explicação vem do fato de que este mercado tem forte presença das financeiras das matrizes das montadoras multinacionais de veículos (automóveis, caminhões e tratores e colheitadeiras) e com a crise da Covid-19, as linhas de acesso aos mercados financeiros internacionais se estreitaram. Paralelamente, como tais linhas são em moeda estrangeira, a queda recorde de 31,9% do real frente ao dólar pressionou os juros para cima. Por isso, as montadoras foram bater às portas do BNDES.

Real, a moeda que mais caiu em 2020

Na apresentação de Roberto Campos Neto ficam claros os reflexos da tríplice crise vivida pelo Brasil durante a pandemia mundial da Covid-19: a crise sanitária causada pelo alastramento sem controle e sem a disponibilidade de leitos hospitalares e equipamentos suficientes para enfrentar o vírus; a crise econômica já medida na queda de 4,7% do PIB, segundo a previsão do ministério da Economia; e a crise política deflagrada pelas sucessivas ações do presidente Jair Bolsonaro, que em vez de coordenar e unir a ação do país contra o Covid-19, ataca o Congresso e o Supremo Tribunal Federal e ainda governadores e prefeitos.

Com base na cotação de ontem, quando o dólar fechou a R$ 5,89, uma alta de 46,06% do dólar frente a moeda brasileira, o Banco Central mostra na tabela levantada pela Bloomberg até 13 de maio, que a moeda brasileira foi a que mais desvalorizou este ano: 31,9%, à frente do rand da África do Sul, que caiu 23,9% do peso mexicano, que teve baixa de 21,6%. Além do próprio dólar, que se valorizou 5,8% em relação ao índice da Bloomberg, o iene, foi a única outra moeda a subir este ano, modestos 1,4%.

Essa conjunção de fatores negativos levou o secretário do Tesouro, Mansueto Almeida a admitir, com sinceridade, que mesmo que a taxa Selic caísse a zero (como nos Estados Unidos), o Tesouro não teria comprador para seus títulos.

De olho na Petrobras

O mercado de ações operava em alta de 0,41% por volta das 14:40, com a expectativa em torno do lucro do 1º trimestre a ser divulgado pela Petrobras após o fechamento da B3 e da Bolsa de Nova Iorque. A queda do Brent e a escalada do dólar vão pesar no balanço (mais do que nas petrolíferas americanas e do resto do mundo – a Pemex, sofre como a nossa estatal.

O Bradesco estimou “um prejuízo líquido de R$ 3,4 bilhões devido à variação cambial”. A equipe de análise do Itaú BBA espera um resultado mais fraco na comparação trimestral por conta dos preços mais baixos de petróleo. Assim, no mesmo horário, Petrobras PN caía 2,39%, cotada a R$ 17,17, em dia de alta de 6,37% do contrato do petróleo tipo Brent futuro para entrega em junho (US$ 31,00 por barril). A questão é quanto a Petrobras vai apropriar de baixas nos campos de petróleo (já paralisados) e equipamentos de refino no 1º trimestre.

Câmara Brasil-Itália

O economista e empresário italiano Graziano Messana foi eleito terça-feira como novo presidente da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio, Indústria e Agricultura (Italcam). A Itália é um dos 10 maiores parceiros comerciais do Brasil (a crise do Covid-19 que atingiu primeiro a Itália, provocou queda nas exportações até abril), mas a movimentação deve ser retomada aos poucos.

No tocante a investimentos diretos no país, a Itália é um dos 12 grandes. Na diretoria, por sinal, dois vice-presidentes Mario Batista e Rosario Zaccaria, respectivamente altos executivos das multinacionais Pirelli e Enel refletem a presença italiana no Brasil, ao lado de gigantes como a Fiat e a TIM. Vale lembrar que a colônia de descendentes de italianos no Brasil soma quase 30 milhões de pessoas, metade da população atual da Itália (60,5 milhões).