Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

Apud Bolsonaro: Boeing 'escrotiza' Embraer

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Quem deu curso ao verbo foi o presidente Jair Bolsonaro em seu desconexo pronunciamento para se defender das acusações de Sérgio Moro contra suas interferências nas investigações da Polícia Federal que motivaram a saída do ministro da Justiça e Segurança Pública do governo. A alegação da Boeing, após 21 meses de ‘noivado’, para desistir na mesma sexta-feira, 24 de abril, data dos proclamas, do casamento de US$ 4,2 bilhões, no qual ficaria com 80% dos negócios de jatos comerciais da nossa Embraer, foi uma baita escrotidão. As ações chegaram a cair mais de 14% na abertura, quando foram a leilão, na B3. Depois, por volta das 14 hs, a queda era de quase 12%.

A Boeing está enfrentando as consequências econômicas dos acidentes fatais de seus jatos 737 Max, que levaram a companhia a perder em 2019 (sem qualquer impacto da pandemia do Covid-19) a liderança mundial das vendas de jatos para a europeia Airbus (consórcio, franco, alemão, britânico, na sua origem, em 1967, que ganhou a adesão de Holanda e Espanha). A Airbus entregou 863 jatos no ano passado, contra apenas 345 da Boeing, que no ano de 2018 liderara com 806 aeronaves, a maior parte os modelos 737 Max.

Mas usou o mesmo argumento escapista da Sycamura Partners, que apresentou em fevereiro - quando Trump dizia que o novo coranavírus teria “impacto zero” nos Estados Unidos – uma proposta para comprar 55% da holding que controla a loja de lingerie Victoria Secret’s. Cinquenta dias depois, os casos chegam hoje a quase 3 milhões no mundo, dos quais praticamente 1 milhão nos EUA; as mortes somam 210 mil, sendo 57 mil no país, liderados pelas 18 mil mortes no Estado de Nova Iorque). Quando a extensão econômica da pandemia mudou em 180 graus o cenário de 2020 e 2021, quem antes estava pagando alto, está tentando sair de fininho, à francesa.

Tem razão a direção da Embraer de entrar com processo de arbitragem na corte de Nova Iorque. Depois de tirar as ‘calcinhas’ da Embraer e conhecer todos os segredos da 3ª companhia de aviões comerciais do mundo, incluindo os planos do super-cargueiro de uso militar KC-390, que seria objeto de outra joint-venture no qual a Embraer teria 51% e a Boeing 49%, a americana desistiu alegando que a brasileira não cumpriu partes do acordo. É muito descaramento. Os problemas estão na Boeing, devido à desistência de pedidos das companhias aéreas, cujas frotas estão no chão há 50 dias, após a expansão do Covid-19 por mais de 180 países.

Joint-venture é isso...

Por sinal, quando começava no jornalismo econômico, nos idos de 1973, era muito comum a formação de joint-ventures de bancos estrangeiros com bancos de investimento no Brasil. Não havia a concentração bancária atual e o capital estrangeiro podia ter até 33% das ações com direito a voto. E aí surgiu a clássica piada da joint-venture.

Um dia, a galinha acordou cedo na fazenda e foi conversar com o porco para fazerem um grande negócio, uma joint-venture 50%-50% para explorar um grande filão, os breakfasts. “São muitas opções, dizia empolgada: ovos com presunto, com bacon, com linguiça... Vamos ficar ricos!”.

O porco pensou e disse: “Mas você entra com os ovos e eu com a carne?”.

Aí a galinha disse cínica: “Pois é, isso é joint-venture”.

O presidente Jair Bolsonaro não pode se conformar com essa escrotidão e simplesmente dizer que a Embraer vai tentar negociar com novos parceiros.

Força maior no gás da Bolívia

Muito diferente foi a aplicação da cláusula de “força-maior”, que já tinha sido usada na redução das compras de gás natural de produtores nacionais, pela Petrobras em relação ao gás da Bolívia. O compromisso era de compra de 14 a 20 milhões de m3 diários, mas com a forte retração da demanda doméstica, a estatal brasileira só estava retirando 10 milhões de m3.

A crise é uma oportunidade para renegociação do contrato. O Brasil já produz quase 100 milhões de m3, principalmente na Bacia de Santos. A Bolívia é estratégica, mas há muito deixou de ser a maior fonte de fornecimento do país.

Morte prematura

O mundo das micro e pequenas de microempresas é cheio de estórias de sucesso, mas a história registra também uma alta taxa de mortalidade. Este ano começou animador. Em janeiro, segundo dados da Serasa Experian, houve a abertura recorde de 320.512 novos empreendimentos.

Aí veio a pandemia... Dá para entender a aflição dos pequenos e médios empresários que estavam apostando no futuro como empreendedores.

Templo é dinheiro...

Em meio às ‘fake news’ sobre o “comunavírus”, parece que tem gente que acreditou e resolver apostar a sério, recorrendo à Justiça para responsabilizar o governo chinês pelos prejuízos com retração do turismo, devido ao isolamento social. A Associação Comercial de Cabo Frio (RJ) tinha iniciado ação contra o governo chinês, mas desistiu depois de ver o ridículo do caso.

Mas o advogado Anselmo Ferreira Melo Costa encontrou outro patrono para a causa: a obscura Organização Religiosa Templo Planeta do Senhor está pedindo indenização de R$ 420 bilhões.