Corte da OPEP+ tenta salvar petróleo e etanol dos EUA

A intervenção do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que levou a OPEP+, em reunião extraordinária no fim de semana, a um acordo para reduzir a produção de petróleo em 9,7 milhões de barris/dia (mbd), partir de 1º de maio, mira salvar duplamente a indústria de petróleo americana, que tem alto custo na extração do ‘shale gas’ (petróleo e gás extraídos do xisto) e a produção local de etanol de milho, ambas afetadas pela queda de até 35% na demanda devido à retração do consumo causado pelo novo coronavírus (Covid-19).

A decisão, anunciada ontem, fez a cotação do contrato de 1.000 barris de do tipo Brent para entrega em junho subir pouco mais de 2%, para a faixa de US$ 32,20 por barril. Há duas semanas, a cotação estava abaixo de US$ 25 o que inviabilizava os custos de produção do shale e do etanol americano. No Brasil, a ministra da Agricultura, Teresa Cristina, anunciou hoje que para evitar nova crise na agroindústria brasileira de açúcar e álcool, o governo estuda usar a Cide para elevar os preços da gasolina (que já caíram 30% este ano nas refinarias da Petrobras) e manter o etanol competitivo.

Segundo “The New York Times”, diante dos baixos preços, empresas petrolíferas americanas já estão eliminando milhares de empregos, conectando poços antigos e descomissionando plataformas e equipamentos de fraturamento em preparação para a pior crise em mais de uma geração. Enquanto os consumidores americanos estão economizando na bomba de gasolina, estados produtores de petróleo como Texas, Oklahoma e Dakota do Norte esperam profundas perdas de empregos e receita tributária. Os executivos do setor, ainda segundo o NYT preveem uma onda de consolidação, na qual empresas pequenas e endividadas seriam compradas por empresas maiores ou se fundem.

O efeito do cenário de crise, que tende a se prolongar, diante da incerteza da duração do impacto do Covid-19, pode afetar os redutos eleitorais republicanos, motivando a forte intervenção direta do presidente Donald Trump para regular o mercado mundial, com a mediação de um acordo entre Rússia e Arábia Saudita, com a participação de outros grandes produtores como Canadá, Brasil, México e Noruega.

O mercado mundial de petróleo negocia cerca de 100 milhões de barris diários. Mas a demanda caiu 35%, provocando excesso de estocagem de petróleo e derivados. A proposta original era de um corte de 20%, mas só houve acordo para cerca de 10%, ou de 9,7 milhões de barris/dia. O México deveria cortar 400 mil barris, mas o presidente Lopes Obrador não aceitou, pois a queda dos preços já afetou fortemente as receitas de exportação do país, e se comprometeu a cortar apenas 100 mil barris/dia.

No Brasil, a Petrobras enfrenta a queda de preços do petróleo e a retração do consumo doméstico e das exportações, em meio a uma alta de mais de 25% do dólar, que comprimiu seus índices de endividamento. A estatal já tinha reduzido em 200 mil barris dia a produção de petróleo (que estava na casa de US$ 2,45 milhões de barris/dia) e se comprometeu, no dia 7 de abril (véspera da reunião), a limitar a produção em 2,07 milhões deste mês em diante. Essa redução mínima de 400 mil barris/dia equivale a corte de 13% da produção (mais até do que o conjunto da OPEP+).

A questão é que os postos estão vendendo menos de 50% de combustíveis (gasolina, diesel, etanol GNV) e já não há como estocar a produção de petróleo, derivados (gasolina, nafta, diesel, óleo combustível) e gás natural. No caso do gás natural, a Petrobras alegou motivo de força maior (a queda do consumo gerada pelo Covid-19) para descumprir compromisso de adquirir a produção de gás natural do campo de Manati (na Bacia de Camamu-Almada, no litoral Sul da Bahia) que tinha participação majoritária (45%) da Enauta (em Queiroz Galvão Óleo & Gás), 35% da própria Petrobras e duas cotas de 10% divididas ente a Brasoil e a Geopark Brasil Exploração e Produção de Petróleo e Gás.

A queda mais brutal é a do consumo do querosene de aviação, devido à suspensão dos voos internacionais e a queda de mais de 70% no tráfego doméstico. O único produto em que houve aumento de consumo foi o de gás de bujão (GLP), devido ao isolamento que aumentou o número de refeições em casa, levando a Petrobras a importar três navios gaseiros da Argentina.

Graças a um intenso trabalho de levantamento de custos no ano passado, a Petrobras pode definir custos de produção em quatro áreas: em terra, em águas rasas, em águas ultra profundas e no pré-sal, sobretudo na Bacia de Santos, onde há imensos reservatórios em colunas contínuas. Só no pré-sal (onde os custos de produção, incluindo afretamentos estão na faixa de US$ 8-10) a empresa tem como suportar uma prolongada compressão de preços.

Por isso, campos em terra e em águas rasas já estavam sendo vendidos (agora caiu o apetite de compradores, o que se estende para a venda de 50% do parque de refino). Resta a companhia concentrar a revisão de custos nos campos de águas ultra profundas da Bacia de Campos e no Espírito Santo, litoral Sul da Bahia e costa do Nordeste.

O próprio pré-sal vai sofrer um atraso na entrega de cinco navios FPSO encomendados pela Petrobras em estaleiros da China, Coreia do Sul e Cingapura, devido ao impacto do Covid-19 – o que, a se prolongar a atual situação, não chega a ser ruim. Até a divulgação dos resultados de produção do 1º trimestre (dia 27 de abril) e dos resultados financeiros (14 de maio) a Petrobras já deverá ter definido onde e o que cortar (depois que o plano de vendas de refinarias foi para o espaço em 2020) e sua diretoria poderá oferecer uma visão mais precisa do que espera deste e dos próximos anos.

E seguem as apostas de queda do PIB

O Banco Mundial fez ontem uma primeira previsão sobre o impacto do Covid-19 na economia mundial. Poucas economias vão escapar da recessão, entre elas a China (cujo PIB deve cair dos 6,2% projetados para algo em torno de 2,5%, segundo as projeções do Instituto Internacional de Finanças -IIF) , a Índia, que deve descer dos 5/6% para 1,5-2%. A economia global deve cair 2,2%, na visão do IIF. Todas as economias europeias e os Estados Unidos vão passar por recessão severa no 2º trimestre deixando rastro negativo no ano.

No Brasil, a previsão do Banco Mundial é de queda de 5% no PIB, com inflação de 2,5%. O Itaú já previu na semana passada queda de 2,5% no PIB. Isto se as atividades econômicas começarem a ser retomadas até meados de maio. Se o fim do confinamento voluntário esticar até 27 de maio, a queda seria de 2,6%.

A média do mercado financeiro, segundo o Boletim Focus, divulgado nesta segunda-feira, 13 de abril, pelo Banco Central, com previsões de 100 instituições financeiras, consultorias e institutos de pesquisas feitas até quinta-feira, 8 de abril, apontou queda de 1,96%, com inflação de 2,52%. Diante do quadro recessivo, a taxa básica de juros (Selic), cairia em maio dos atuais 3,75% ao ano para 3,25%, permanecendo neste patamar até dezembro. Bradesco e Itaú esperam que a Selic caia até 3% este ano.

Nesta segunda-feira, em entrevista a Josias de Souza, o ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, Delfim Netto, 92 anos, previu retração de 6%.

Covid=Dilma 1 e 2+Caminhoneiros+Brumadinho

Se alguém tem dúvidas do impacto da pandemia do coronavírus na demanda doméstica e nas atividades voltadas à exportação, um bem situado economista, que acompanha as finanças de um dos mais importantes estados brasileiros disse que o baque da freada pode ser comparável aos dois anos de recessão de Dilma (-3,5% em 2015 e -3,3% em 2016 – quando saiu em 16 de maio a economia já estava bem pior e reagiu no 2º semestre), com mais a capotagem nas duas semanas e meia da greve dos caminhoneiros em maio-junho de 2018, e o impacto do rompimento da barragem da Vale, em janeiro de 2019, em Brumadinho (MG), que reduziu em 20% o volume das exportações de minério do país em 2019.

Nos casos anteriores, os estragos demoraram a passar.

Uma prova da desaceleração pode ser dada pela queda de 18,4% em março frente a fevereiro (já descontando os efeitos sazonais, do Carnaval, que caiu em fevereiro) no fluxo total de veículos pelas estradas com pedágio, segundo a ABCR. A queda chegou a 22,7% no caso dos veículos leves, enquanto no de pesados foi de 4,1%. Na comparação frente a 2019, o fluxo pedagiado total de veículos caiu 19,3%.

Trump tem a senha da sanha

Donald Trump está louco para anunciar uma data para relaxar os controles, assim como dirigentes europeus. Isso, apesar das preocupantes notícias de recidiva do Covid-19 em pacientes coreanos que já tinham sido infectados, do avanço recorde nas grandes cidades americanas, que deixaram os Estados Unidos com quase 23 mil mortos, à frente dos 20,5 mil da Itália e dos 17,7 mil da Espanha, e da multiplicação de casos na China e no Japão.

No Brasil, as mortes vão se acelerar, após as baixas notificações do prolongado feriado da Semana Santa (que paralisou a área burocrática das secretarias de saúde municipais e estaduais) – os dados de amanhã devem assustar, por isso.

Mas o presidente Bolsonaro segue indócil para, escolado na possibilidade de cura da aplicação combinada de cloroquina a outros remédios em pacientes internados, lhe tirar parte da responsabilidade política de uma escalada da pandemia, replicar os sinais de seu ídolo Trump no Brasil.