Ficar em casa reduz poluição, mas explode consumo de GLP

O Outro Lado da Crise

Em meio à pandemia do novo coronavírus (Covid-19), as mudanças de hábitos de consumo, com o comprimento de medidas de isolamento em quase todos os países, estão provocando mudanças radicais no Planeta Terra.

O principal, não imaginado pelos inflamados discursos de” Greta Thunberg, a jovem ativista ambiental sueca de 16 anos, desdenhada pelo presidente Jair Bolsonaro, e que, dois dias após ter sido chamada de “pirralha”, foi eleita a “Pessoa do Ano de 2019" pela revista Time, é a drástica redução da poluição.

Fotos de satélite publicadas semana passada mostram forte redução da poluição no Planeta pela diminuição de tráfego de aviões (dos grandes poluidores do Hemisfério Norte) e veículos movidos a combustíveis fósseis (gasolina, diesel, GNV), além de desaceleração/parada de atividades industriais. A queda de mais de 60% do preço do barril do petróleo projeta cenário de desaceleração até o 1º trimestre de 2021, pelo menos.

Os registros da história vão indicar quantos anos foram poupados no inevitável desastre que a Humanidade criava para si mesmo com uma economia assentada em combustíveis fósseis. Alguns dizem que o Covid-19 é um aviso.

Espera-se que as atividades de desmatamento desenfreado da Amazônia e de outras florestas pelo mundo afora (na África e na Ásia, sobretudo, Malásia, Tailândia e Indonésia) diminuam. Na Europa e nos Estados Unidos, isso ocorreu sem crítica ou autocrítica nos últimos três séculos...

Quando a pandemia passar, que tal uma conferência global para realinhar ponteiros?

Comer em casa valoriza GLP

Quem mora em residências nas grandes cidades servidas por redes de distribuição de gás não se dá conta de que a mudança de hábitos, com a reclusão voluntária em casa, vai fazer crescer a conta de gás, mas gerar economia compensada pela menor despesa com transportes (próprios ou coletivos) e a alimentação fora de casa.

Mas a verdade é que na maioria dos lares brasileiros (e também em bares e restaurantes) quem aquece os fogões são os bujões de GLP (gás liquefeito do petróleo). Salvo as exceções do interior do país, onde ainda se usa lenha para cozinhar por dois motivos: de um lado, há certa facilidade de colheita de galhos secos (madeira verde custa a pegar fogo e gera muita fumaça); e a disparada dos preços deixa o GLP fora do alcance da renda de muita gente.

O aumento do consumo levou a Petrobras a fazer mais importações de GLP. O primeiro navio, com capacidade, de 20 milhões de quilos de GLP (equivalente a 1,6 milhão de botijões de 13 kgs) atracou ontem no Porto de Santos. Mais dois de igual capacidade chegarão entre os dias 6 e 10 de abril.

Essa carga extra vem reforçar as produções atuais das refinarias da região Sudeste. Nos últimos dias, com o prolongamento do isolamento, houve corrida às distribuidoras para estocar botijões de gás de cozinha. Mas a Petrobras esclarece que não há motivo para a corrida. Gás não faltará, garante.

Especulação corre solta no GLP

A questão é que o mercado de gás (que seria a menina dos olhos do ministro da Economia, Paulo Guedes, caso seus planos não tivessem sido abatidos pela pandemia) é mais desorganizado e perverso que o comércio de combustíveis nos postos.

A Petrobras já reduziu em mais de 40% os preços da gasolina nas refinarias este ano mas os preços baixam a conta gotas nas bombas. Sem consumo (segundo a Ipiranga, dona da 2ª rede de postos do país, depois da BR, que a Petrobras privatizou, perdendo o controle), houve queda de 63% no consumo.

Nos subúrbios e comunidades das grandes regiões metropolitanas as distribuidoras de GLP são controladas pelas milícias e traficantes, que cobram preços abusivos.

A partir de hoje, terça-feira, 31 de março, a Petrobras está reduzindo, mais uma vez, em 10%, o preço dos botijões de 13 quilos de GLP. O preço médio nas refinarias será equivalente a R$ 21,85 por botijão de 13 kg, acumulando no ano uma redução da ordem de 21%.

A estatal diz que espera que as distribuidoras repassem as reduções ao consumidor final.

Pergunta se houve redução?

No último levantamento da Agência Nacional do Petróleo (ANP), antes destas reduções, o bujão de 13 kgs estava custando, em média, R$ 65.

Converse com quem vive em comunidades e pergunte se há alguém cobrando menos de R$ 70 ou R$ 80?

Nisso, os comerciantes e espertalhões brasileiros traduzem o diagrama chinês, de que crise é quase sinônimo de oportunidade, adaptando para oportunismo...

Não fazem mais do que obrigação

Em tempos de crise, minha caixa de e-mails entope de releases manifestando ações meritórias desta ou daquela empresa em meio à Covid-19.

Redes de lojas que usam os canais de internet como a única forma atual de venda, por estarem com as lojas fechadas (e sem consumidores à porta) dizem que não cobrarão pelo frete na entrega em casa (o frete era grátis para quem buscava o produto na loja...).

A gigante da indústria farmacêutica e de higiene&limpeza Johnson&Johnson anuncia a descoberta de suposta vacina que imunizaria contra a Covid-19 a partir de 2021.

Muito bem. Mas que tal abrir a patente de modo universal?

Outras vão converter linhas de montagem, virtualmente paralisadas pela retração total dos consumidores, na fabricação de bens ligadas às necessidades do combate à Covid-19. Perfeita tradução do anagrama chinês.

Grandes empresas se mobilizam para fazer doações. Fazem seu papel social.

Mas o que dizer do sistema S?

Sesi, Sesc, Senar, Sest, Sebrae, etc sempre mamaram na contribuição obrigatória dos empresários e agora - ao mesmo tempo em que anunciam contribuições dos respectivos setores - alertam para o risco de demissões com o corte das contribuições (intenção de Paulo Guedes arquivada há mais de um ano)

Como se todos os seus contribuintes não tivessem cortado a própria carne?

Como diria Leonel Brizola: “Mas que cara de pau, tchê”...