Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

A economia ao ritmo dos tambores de guerra

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

O ataque mortal dos drones americanos contra o comboio que levava o general iraniano Qassem Soleimani e o líder iraquiano de uma milícia Abu Mahdi al-Muhandis ainda não foi devidamente avaliado pelo mercado brasileiro. Pelo menos é o que mostra a Pesquisa Focus, do Banco Central divulgada nesta segunda-feira, 6 de janeiro, e colhida na sexta-feira, 3, mesmo dia dos ataques. Sem ainda avaliar a tensão bélica que se formou desde então (os preços do barril de petróleo tiveram leve recuo hoje, após forte alta sexta-feira), o mercado manteve suas projeções para 2020 praticamente inalteradas e fez uma ligeira revisão para a Selic de 2021.

A mediana das expectativas para o IPCA de 2019 passou de 4,04% para 4,13%. Para 2020, a mediana foi ajustada de 3,61% para 3,60%, permanecendo em 3,75% para 2021. Em relação ao crescimento do PIB, as expectativas permaneceram inalteradas em 1,17%, 2,30% e 2,50% para 2019, 2020 e 2021, nessa ordem. A mediana das projeções para a taxa de câmbio passou de R$/US$ 4,08 para R$/US$ 4,09 para 2020 e permaneceu em R$/US$ 4,00 para 2021. Por fim, o mercado continua esperando que a Selic encerre 2020 em 4,50% e alterou sua projeção para 2021, de 6,38% para 6,50%. O Bradesco apostava em 4,25% para este ano e o Itaú, antes dos ataques, cravava 4%. Agora, tudo pode mudar.

O pior tinha passado

Em seu Boletim Diário, o Departamento Econômico do Bradesco considerava que os indicadores de atividade global sugeriam “que o pior momento para a atividade mundial pode ter ficado para trás. O índice PMI global da indústria ficou estável em dezembro, em 49,3 pontos, patamar que ainda sugere uma retração da atividade industrial, mas menos intensa do que a reportada pelos resultados anteriores. Esse é um indicador calculado pelo Depec-Bradesco e considera uma amostra de 35 países mais a Área do Euro.

Essa estabilidade na margem foi resultado do crescimento de 0,4 ponto do indicador dos países emergentes e da queda de 0,5 ponto do indicador dos desenvolvidos, influenciado, principalmente, pelo recuo de 0,9 ponto do ISM da indústria norte-americana.

Em relação aos serviços, o índice PMI europeu avançou 0,9 ponto em dezembro, levando o índice composto a 50,9 pontos, 0,3 ponto acima do registrado em novembro.

Na abertura por país, destaque para a melhora do indicador da Alemanha. Dessa forma, o descompasso entre a indústria, mais fraca, e o setor de serviços, mais resiliente, segue presente na grande maioria dos países.

Mas tudo isso foi antes de o Irã ser cutucado com vara curta, ou melhor, com drones eficientes.

A visão do Fed antes do ataque

Análises econômicas estão sempre sujeitas a chuvas ou trovoadas (no caso de bombas). Vejam a análise da Ata que o Fed, o banco central dos EUA, tinha divulgado sexta-feira, antes dos ataques, considerando que “o nível atual de juros” estava “apropriado”.

A ata trouxe mais detalhes sobre a decisão de manutenção dos juros da última reunião (dia 11 de dezembro). Na ata, a autoridade monetária reforçou que é preciso uma mudança importante para que haja algum movimento de juros, em ambas as direções. O bom desempenho do mercado de trabalho e o crescimento do PIB ao longo do segundo semestre de 2019 mostram que a atividade econômica norte-americana segue aquecida.

Ao mesmo tempo, o Fed reconhece (antes dos ataques) que os riscos para o cenário se abrandaram e que a inflação permanece abaixo da meta de 2,0%.

Com base na análise do Depec Bradesco esperava que “o Fed mantenha a taxa de juros estável ao longo deste ano”. Mas o banco já faz a ressalva de que “as recentes tensões no Oriente Médio podem alterar as perspectivas para o ambiente global e para os preços do petróleo, com impactos para a inflação”.

Alta de mais de 1% em dezembro leva IPCA a 4,23%

O Departamento Econômico do Itaú está pessimista com relação ao resultado do IPCA de dezembro, que o IBGE vai divulgar nesta sexta-feira, 10 de janeiro. Enquanto o mercado financeiro projeta uma alta média de 0,98%, que elevaria a inflação do ano passado a 4,13%, as Top 5 (as cinco instituições que mais acertam as previsões, espera alta de 1,05% em dezembro, elevando a taxa anual para 4,20%.

Mas o Depec Itaú pensa pior. Prevê “um aumento mensal de 1,07%, levando a leitura de 12 meses para 4,23% (acima dos 3,75% registrados no final de 2018). O componente de alimentos em casa provavelmente irá postar a maior pressão ascendente, mais uma vez, principalmente devido ao aumento dos preços da carne.

Mas a visão do maior banco privado brasileiro é de que os preços da carne podem até apresentar deflação este ano.

Não é porque deverão diminuir os churrascos de fim de semana da torcida do Flamengo (invicto no Brasileirão desde agosto, até sofrer 4 x 0 do Santos na última rodada, quando já estava se poupando para o embate com o Liverpool, que venceu por 1 x 0). É porque a pressão altista da China tende a arrefecer em 2020.

A questão é que o mercado sempre traz surpresas.

A última má notícia no caso é que a grupe suína africana, que dizimou boa parte do rebanho suíno chinês, se alastrou para o Vietnam, mercado próximo que podia suprir a demanda chinesa por proteína animal.

De olho no PIB

Na quinta-feira, o IBGE deve divulgar o resultado da produção industrial de novembro. O Itaú prevê queda de 0,7% na comparação com novembro de 2018.

Amanhã, a Anfavea divulga a produção automobilística de dezembro. Junto com as estatísticas de tráfego de veículos pesados nas rodovias e dados sobre (ABCR) e despachos de papelão (ABPO) referentes a dezembro também e sair durante a semana, será possível fazer uma avaliação da produção industrial de dezembro. Uma boa base para estimar o PIB de 2019 (estimado entre 1,17% e 1,2%) e reforçar as apostas para 2020 (entre 2,2% e 2,5%).

BNDES apressa venda de ações da Petrobras

Em comunicado enviado hoje à Petrobras, que o repassou aos investidores em Fato Relevante, o BNDES informa que já selecionou o grupo de oito instituições financeiras que vai cuidar da oferta global de pouco mais de 10% das ações ordinárias que possui da estatal, em conjunto com a BNDES Participações.

São eles Credit Suisse (Brasil), o Bank of America Merrill Lynch, o Bradesco BBI, o BB-Banco de Investimento, o Citigroup Global Markets Brasil, Corretora, o Goldman Sachs do Brasil, o Morgan Stanley S.A. e a XP Investimentos Corretora de Câmbio. A Securities Exchange Comission (SEC), xerife do mercado americano, e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também foram comunicadas.

Não será surpresa se a venda ocorrer antes de 19 de fevereiro, quando a estatal divulgar os bons resultados esperados para 2019. As últimas estimativas eram de que a venda poderia arrecadar cerca de R$ 50 bilhões.