Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

O X da questão é baixar os juros bancários

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) baixou quarta-feira, pela 2ª vez no governo Bolsonaro as taxas básicas de juros (a taxa Selic), que serve de piso às operações financeiras e remunera os títulos da dívida interna. A taxa estava estacionada em 6,50% ao ano desde março de 2018 e agora está em 5,50%, o menor piso da história. E tende a cair ainda mais.

A baixa dos juros básicos está ligada ao cenário causado pela estagnação da economia: a inflação segue sob relativo controle, mesmo com as recentes altas do dólar devido à crise política e econômica da Argentina e a própria valorização da moeda americana, diante da incerteza quanto à trajetória de baixa dos juros pelo Fed, o BC dos Estados Unidos, e com a escalada do preço petróleo, após os atentados na Arábia Saudita, que levaram a Petrobras a reajustar os combustíveis duas vezes em seis dias.

A necessidade de reduzir os juros (possível com o bom andamento da reforma da Previdência, apesar de algumas concessões no Senado) visa tentar reanimar a economia, cujo ritmo encolheu este ano e frustra as projeções para 2020. Mas aí é que está o X da questão. Os juros não caem na mesma proporção que a queda da Selic na ponta das modalidades de financiamento às empresas e às pessoas físicas.

Selic desce de elevador; bancos param na escada

A imagem é antiga mas segue atual porque o Banco Central, mesmo trocando o comando do governo Temer (a partir de maio de 2016) para o governo Bolsonaro (saiu o dócil Ilan Goldfajn, que sucedeu ao acomodatício Alexandre Tombini, que presidiu o BC e o Copom nos dois mandatos de Dilma), tem se curvado ao lobby do cartel bancário e às falácias da Federação Brasileira de Bancos, a Febraban.

Os juros da Selic desceram de elevador, despois de estarem estacionados em 14,25% ao ano desde outubro de 2015 e começaram a cair em setembro de 2016 até os 6,50%. Com as suas quedas recentes para 5,50% encolheram 8,75 pontos percentuais. Uma redução efetiva de 61,4%.

E como ficaram os juros bancários nas operações com recursos livres no mesmo período (vale dizer que os últimos dados do Banco Central são de julho, mas houve uma descontinuidade estatística que dificulta a comparação com as taxas anteriores. É preciso uma árdua pesquisa). Na verdade, desceram pela escada: a taxa média de juros dos recursos livres para os tomadores de crédito (excluem as taxas mais baixas do BNDES, de programas habitacionais subsidiados e o crédito rural, entre outras operações), caiu no mesmo período de 66,9% para 45,0% ao ano.

Aparentemente - como procura iludir a Febraban que já produziu dois livros (um em 2018 e outro agora em julho, repisando os mesmos argumentos falaciosos) com o cínico título “Como fazer os juros serem mais baixos no Brasil” - houve uma queda de 21,9 pontos percentuais de outubro de 2016 a julho de 2019.

A matemática da Febraban...

Para a matemática da Febraban essa queda é bem maior que a da Selic. Falácia. Os 8,25 pontos percentuais de redução efetiva da Selic até julho (a taxa em vigor desde esta quinta-feira, 19, vai demorar a fazer efeito, salvo para os aplicadores que verão seus rendimentos em fundos DIs minguarem imediatamente) representam uma queda de 57,9%.

Já a baixa de 21,6 pontos percentuais na taxa média de juros bancários (de 66,9% em outubro de 2016) para 45,3% ao ano em julho de 2019) equivale a uma redução efetiva de 32,28%. Ou seja tal como a famosa “Escada” de Escher, os juros bancários desceram pela escada, com momentos de subida.

A diferença é que Escher trabalhou com a ilusão da perspectiva. Na vida real os juros bancários subiram mesmo, no crédito pessoal, no cartão de crédito e no cheque especial.

A planilha do Banco Central para os spreads bancários (a diferença entre a taxa média de captação de recursos junto a empresas e clientes pessoas físicas e as taxas médias de empréstimos a empresas e cidadãos) mostra bem como os bancos aproveitaram a queda dos juros na ponta da captação para aumentar suas margens.

Em dezembro de 2017, os custos de captação dos bancos junto a empresas eram de 9,3% ao ano. Em julho de 2019 tinha caído para 7,8% ao ano. Menos 1,7 ponto percentual.

Já para as pessoas físicas o custo médio do dinheiro captado caiu de 8,8% para 7,3% ao ano, ou seja, uma baixa de 1,5 ponto percentual.

Mas a taxa do spread (mais popularmente a “boca do jacaré”) aumentou. As empresas pagavam spread de 12,7% em dezembro de 2017. Em julho, mesmo com toda a queda dos juros básicos, a redução do spread veio para apenas 11%.

Para as pessoas físicas o tomento foi maior: o spread médio era de 36,8% em dezembro de 2017 e em julho último, como se nada tivesse mudado, o spread era de 36,8%. Isso depois de ter subido a 37,1% em junho.

Depois a Febraban vem justificar que o aumento dos spreads é decorrência do aumento da inadimplência. Como se os juros altos não fossem a maior causa da inadimplência, forçando a economia trabalhar em marcha lenta e o desemprego se manter elevadíssimo.

Bradesco: Copom indicou Selic a 4,75% este ano

O comunicado do Copom, após a redução, na quarta-feira, de mais meio ponto percentual na taxa básica de juros (Selic) para 5,50% ao ano, confirmou, para o Bradesco, que o Copom já está trabalhando com um cenário em que o piso dos juros do país “chegará a 4,75% no final deste ano, reconhecendo a possibilidade de que a taxa possa chegar abaixo desse nível ao final do ciclo”. Na revisão do cenário econômico apresentado em 16 de setembro, o Departamento Econômico do Bradesco já admite que a Selic possa descer até 4,50% ainda este ano ou na reunião de janeiro de 2020.

Em função do comunicado, o Itaú, que foi o primeiro dos grandes bancos brasileiros a prever queda da Selic até 5% neste ano, nível que seria mantido até dezembro de 2020, interpretou o comunicado do Copom como sinal de que “a Selic chegará a 4,75% no final deste ano, reconhecendo a possibilidade de que a taxa possa chegar abaixo desse nível ao final do ciclo”. O Itaú aposta em queda de 0,50 pp na reunião de 30 de outubro e vai esperar até lá para ver se os cenários doméstico e internacional têm espaço para queda além de 4,75%.

Fed pode ditar quedas futuras da Selic

O que pode impedir uma queda maior da Selic, abaixo de 4,75%, é que os membros do Fed, que votaram por 7 a 3 pela redução da taxa mínima bancárias, para a faixa de 1,75% a 2¨ao ano, mostraram uma divisão que deixou dúvidas sobre próximos passos.

Por isso o Bradesco observa que a “expectativa de mais três cortes ao longo deste e do próximo ano depende da continuidade da desaceleração interna e externa e dos conflitos comerciais”, admitindo que o Fed pode encerrar o ciclo de cortes mais cedo do que o esperado.