Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

Mercado reduz a 1,45% PIB de 2019, mas não vê Selic, a 5,75%, como Itaú e Bradesco

Peste suína na China pode elevar preço da carne no Brasil

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

O mercado fez novos ajustes baixistas em suas projeções para o PIB deste ano, segundo o Relatório Focus, divulgado nesta segunda-feira, 13 de maio, pelo Banco Central. A mediana das projeções do mercado passou de 1,49% para 1,45% em 2019, seguindo em 2,50% em 2020.

 

As medianas das projeções dos demais indicadores foram mantidas na última semana: para o IPCA, a mediana sugere altas de 4,04% e de 4,00% para os dois períodos, respectivamente. Em relação à taxa de câmbio, as medianas para o final deste ano e do próximo seguiram em R$/US$ 3,75 e R$/US$ 3,80.

Já a mediana das expectativas para a Selic ainda indica manutenção da taxa em 6,50% até o final deste ano, encerrando 2020 em 7,50%. Ao fazer o resumo da pesquisa Focus, o Departamento Econômico do Bradesco frisou ter revisado “o cenário para 2019: PIB em 1,1% e Selic encerrando o ano em 5,75%”.

Para o Bradesco, a divulgação amanhã da ata do Comitê de Política Monetária, “deverá corroborar a visão de que há espaço para algum corte de juros à frente, apesar do tom de cautela que tem sido repetido nos últimos meses”.

Bradesco espera queda de 0,8% em Serviços, a 3ª do ano

E um dos motivos para a baixa dos juros é o fraco desempenho da economia. Nesta terça-feira (14), o IBGE vai divulgar o resultado da pesquisa sobre o mercado de serviços em março. O Bradesco espera queda de 0,8% do volume de serviços (setor, que incluindo o comércio e atividades financeiras, representa 73% do PIB),

Seria a terceira queda seguida do ano: 0,4% em janeiro, 0,4% em fevereiro e agora tombo de 0,8% (em parte causado pela parada do Carnaval). Na quarta-feira, o Banco Central divulga o índice IBC-Br de atividade econômica, que funciona como antecipação do PIB (calculado pelo IBGE). O Bradesco espera alta de 0,2%, na margem.

Inflação sob pressão da peste suína africana, nas carnes

Apo comentar a inflação de 0,57% em abril, contra 0,75% em março, o Bradesco explicou que a desaceleração “ocorreu principalmente pela variação menor nos preços de Alimentação no Domicílio e Combustíveis. Os núcleos de inflação, que excluem itens considerados mais voláteis e são mais associados à dinâmica da atividade econômica, continuaram apresentando evolução benigna (nos últimos 12 meses subiram 3,24%)”

Mas, como diz o título desta coluna, em economia há sempre O Outro Lado da Moeda. Já comentamos aqui há uma semana que a peste suína africana, que atingiu a China pode reduzir em 12,5% o plantel de porcos da China. Isso poderia reduzir as importações de soja e milho do Brasil para a China, mas poderia trazer maior demanda para as exportações de frangos brasileiros ao maior mercado consumidor do mundo. Na prática, o Brasil poderia trocar produtos primários básicos por manufaturados de maior valor agregado. Afinal, como sempre frisava o ex-ministro brasileiro da Agricultura, Roberto Rodrigues, “um frango é a colheita de milho e soja 40-45 dias depois, com valor agregado”.

Analisando a inflação para os próximos meses, o Departamento Econômico do Bradesco espera “que a pressão sobre o grupo de alimentação continue se dissipando e núcleos continuem próximos de 3,5%, refletindo o cenário de atividade econômica e as expectativas de inflação ancoradas” O banco revisou de 3,8% para 4,0% a previsão do IPCA de 2019, “incorporando o possível impacto da peste suína africana na nossa inflação”.

Em longo estudo sobre o impacto da chamada “orelha azul”, como a peste suína africana está sendo batizada, na China, o Bradesco estima “impacto equivalente de frangos e suínos para o consumidor final: variação de 19,1% para essas proteínas neste ano no IPCA. Dessa forma, esse grupo deverá contribuir com 0,20 p.p. na variação do IPCA do ano. Se não fosse a febre suína africana, a contribuição seria de apenas 0,05 p.p”, frisa o estudo.

O Bradesco adverte ainda que, apesar de o efeito não ser propriamente direto, há expectativa de que o preço da carne bovina também seja afetado. Nos choques anteriores, a participação da China nas importações mundiais dessa proteína era baixa. Só a partir de 2015 ela superou 1%, sendo que parte relevante do aumento do volume importado teve como principal contrapartida os EUA”.

Nos anos de 2007 e 2010, quando também houve pestes suínas na China, os preços da carne vermelha bovina subiram ao redor de 40% no Brasil. O banco explica que novos acordos comerciais, demanda interna aquecida e principalmente um ciclo mais restritivo na oferta – o setor havia elevado o abate de vacas matrizes desde 2004 – explicam essa diferença de preços. Atualmente, a oferta de carne vermelha está equilibrada e a dinâmica da atividade econômica se mostra menos intensa, diante do enorme desemprego.

Carnes traseiras podem subir mais

O Depec observa ainda que hoje as exportações brasileiras estão focadas em cortes dianteiros (por questões religiosas). Logo, um eventual crescimento nas exportações seria acompanhado de elevação na oferta de cortes traseiros, que é o mais relevante para o mercado nacional.

O banco estima aumento de 8,0% para carne bovina no IPCA deste ano. Isso se “apenas 47% da variação no atacado chegar ao consumidor final. Essa expectativa é compatível com a cotação de R$ 165/arroba no final deste ano, que adiciona 0,20 p.p. ao IPCA. Somando os demais alimentos da cadeia: industrializado, ovos e lácteos, projetamos variação 10,5% neste ano, em função do impacto primário das demais proteínas”

“Assim, a contribuição do complexo carnes no IPCA será acentuado pelo efeito da febre suína africana. Estimamos que o choque trará incremento de 0,38 p.p. para a variação dos preços ao consumidor neste ano”, conclui o estudo do Depec, feito pelos economistas Ellen Regina Steter e Leandro Câmara Negrão.