Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

Mercado revisou PIB para baixo de olho no Copom

Juro não cai já, mas BC pode dar indicações

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

Após a surpresa baixista com o resultado da produção industrial na última semana, o mercado revisou para baixo suas projeções para o PIB deste ano, mas todos estão esperando que o Comitê de Política Monetária sinalize, após os dois dias de reunião que começam amanhã, qual a direção da política monetária para os próximos meses. No momento, a unanimidade do mercado é de que a Selic segue em 6,50% ao ano em maio e junho. Quanto ao final de 2019, o mercado se divide. Segundo o Relatório Focus, divulgado há pouco pelo Banco Central, a mediana das projeções do mercado indica a Selic estável em 6,50% este ano e em 2020.

Mas o Itaú, maior banco privado brasileiro, que aponta grande fraqueza do PIB, acredita que as taxas comecem a cair na base de 0,25 pontos percentuais por reunião se a reforma da Previdência for aprovada até setembro. A taxa fecharia em 5,57% ao ano em dezembro e baixaria para 5,50% em 2020.

Por antever a fraqueza do PIB, o Itaú foi o primeiro a rever sua projeção de 2% este ano para 1,3% no começo de abril, baixando de 2,8% para 2,5% a taxa de 2020 (na mediana do mercado a previsão semanal para o PIB caiu de 1,70% para 1,49% em 2019, seguindo em 2,50% em 2020 - o Bradesco prevê, 1,90 e 2,20%, respectivamente).

A mediana das projeções para a inflação do IPCA deste ano passou de 4,01% para 4,04%, seguindo em 4,00% para 2020. O Itaú segue apostando em 3,7% para 2019 e 3,60% para 2020 e 2021. Na visão do Bradesco, a inflação fica em 3,80% este ano e 3m 3,90% em 2020, razão pela qual aposta na manutenção da Selic em 6,50% até 2020. À parte a manutenção da Selic em 6,50% na quarta-feira, o Bradesco chama a atenção para “a avaliação do BC acerca da pressão de curto prazo na inflação e da atividade corrente mais fraca”, deixando no ar a expectativa de mudança de rumos na política monetária.

Inflação vai encostar em 5% em abril, furando teto da meta de 4,25% 

O Itaú fez na semana passada uma importante decomposição da inflação em três anos (de 2018 a 2020). Entre os motivos para esperar uma inflação baixa estão o fato de o PIB estar deprimido, os investimentos em banho maria e o desemprego ter recrudescido – o Itaú piorou a expectativa da taxa de desemprego [a taxa trimestral que fechou janeiro em 12% subiu para 12,4% em fevereiro e alcançou os 12,7% em março] de 11,8% para 11,9% em dezembro. Ou seja, voltaria a situação igual ou pior que em dezembro de 2018: 11,7%.

Um dos motivos que também devem levar o Copom a se manifestar sobre horizontes mais longos da política monetária é que no dia seguinte à reunião, na quinta-feira, será divulgado o resultado da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) relativo a março. O BC deve ter os dados preliminares. O Bradesco espera “alta de 1,2% nas vendas do varejo, revertendo apenas parcialmente a queda verificada em fevereiro”.

No painel de controle do Copom pesa mais a meta de inflação (4,25% este ano). Embora a taxa de abril, que o IBGE divulga na sexta-feira, seja esperada em 0,61% pelo mercado, em 0,60% pelo Bradesco e em 0,56% pelas Top 5 (as cinco instituições que mais acertam as projeções entre as 100 pesquisadas pela Focus). Isso vai pressionar a taxa anual, hoje em 4,58% para a faixa de4,9%, porque em abril de 2018 a taxa foi de 0,22%. A queda só viria em junho, pois o mercado espera 0,59% para maio, contra 0,40% em 2018. É que em junho de 2018 a taxa explodiu em 1,26%, devido à greve dos caminhoneiros e o mercado espera 0,25% para maio deste ano.

Na decomposição da inflação do Itaú, não há motivos para alarme. O Banco espera 3,6% para este ano e 2020, contra 3,7% no ano passado. Os preços dos serviços (livres, e um dos alvos da política monetária) estão estimados em 3,6% em 2019 e 3,7% em 2020, contra 3,3% em 2018, bem abaixo da meta. Os preços da alimentação a domicílio subiram 4,5% em 2018, mas devem ficar em 4,1% este ano e cair para 3,5% em 2020, devido à boa safra agrícola em fase de colheita.

A questão fica restrita aos preços administrados (combustíveis, energia elétrica, planos de saúde, mensalidades escolares, pedágios, tarifas áreas). No ano passado houve a alta de 6,2%. Este ano, apesar do reajuste de 3,4% no gás de cozinha desde ontem, o Itaú espera 4,9% e 4,7% em 2020. Está acima da meta, mas a taxa de juros é inócua para combater choques externos (alta do petróleo ou quebra de safras) e sua atuação pelo lado da demanda é limitado em artigos de consumo inelástico como alimentos e energia. Assim, o Copom tem de oferecer sinais de esperança futuros.

A Secretaria da Fazenda do RJ explica

A propósito de nota na coluna na semana passada, recebemos a seguinte mensagem da Secretaria de Fazenda do RJ: “os dados apontados no artigo “Déficit do RJ cresce R$ 2,2 bilhões no governo Witzel”, publicado no dia 1º de maio, não correspondem à atual situação financeira do Estado. A metodologia de apuração usada na série “Estatísticas Fiscais Regionais” do Banco Central do Brasil leva em consideração os dados estaduais e municipais e não só estaduais”.

“Desta forma, isso não significa que a situação nas contas do governo piorou nos três primeiros meses do ano. A tabela base utilizada considera as informações do Estado, mas também leva em conta a situação fiscal de 33 municípios fluminenses de grande relevância econômica. Nesse sentido, não se pode atribuir exclusivamente à gestão do Estado do Rio de Janeiro nenhuma variação encontrada na tabela. Para uma análise mais correta, recomenda-se a análise dos relatórios oficiais publicados por cada ente, até para poder comparar com os dados calculados pelo Banco Central do Brasil a partir de outro critério, separando estados e municípios nas análises”.

Nas entrelinhas, a Sefaz quer dizer que, embora o universo comparado seja o mesmo na metodologia do BC, a piora não é 100% do governo do estado e deve ser compartilhada com as 33 maiores secretarias municiais de Fazenda. Ou seja, o município do Rio de Janeiro, mais as cidades da Baixada Fluminense, Niterói, São Gonçalo, Norte e Sul Fluminense, região Serrana e Costa Verde. Ou seja, tem muita gente ruim.

Prefeitura do Rio vai cobrar de grandes devedores

No site da prefeitura do Rio, os dados de balanço doo primeiro bimestre são tão em letra miúda, que nem com lupa se consegue ler. O município tinha dívidas de R$ 13,3 bilhões, com juros médios de 6,48% ao ano e prazo médio de seis anos para vencer. Por sinal, a Secretaria Municipal de Fazenda do Rio de Janeiro, informou hoje, em nota, “que a Procuradoria Geral do Município criou força tarefa para cobrar o pagamento de dívidas acumuladas dos 200 maiores devedores do município”. Isso mostra que está todo mundo na pindaíba. O total da dívida desse grupo de contribuintes chega a R$ 10 bilhões.

A Secretaria Municipal de Fazenda estuda ainda como trazer para os cofres da Prefeitura créditos considerados irrecuperáveis – aqueles que não se tem mais expectativa de recebimento, mesmo após inúmeras cobranças, administrativas e judiciais. Muitos já tiveram até sentença judiciária declarando a insolvência do devedor.