Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

Ibovespa tem forte reação após atos pró governo Bolsonaro

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

O mercado financeiro respirou com alívio e o índice Bovespa abriu esta-segunda feira, 27 com forte alta de quase 1%, acima dos 94.500 pontos, em positiva reação às manifestações pacíficas de domingo em todo o país que reafirmaram a força política do governo de Jair Bolsonaro.

Depois da queda de confiança na quinta-feira passada, quando o ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a admitir a renúncia se o Congresso não aprovasse uma reforma da Previdência robusta, do ponto de vista do efeito fiscal (a meta mínima de Guedes é de R$ 1 trilhão economizados em 10 anos – 2020 a 29) o mercado recobrou a confiança.

Resta saber se o recado das ruas será absorvido e processado pelos 513 deputados na Câmara e pelos 81 senadores. E, principalmente, se o governo Bolsonaro vai consolidar uma base política capaz de moldar as maiorias necessárias à aprovação de cada tema crucial. Os ataques dirigidos ao Congresso e particularmente ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que era um aliado à reforma da Previdência, podem causar ressentimentos.

Na Focus, mercado mantém projeções; Bradesco e Itaú reduzem IPCA

O mercado manteve suas projeções macroeconômicas estáveis na última semana, segundo o Relatório Focus, divulgado na manhã desta segunda-feira, 27 de maio, pelo Banco Central. A mediana das projeções para o PIB deste ano passou de 1,24% para 1,23%, seguindo em 2,50% em 2020. O Itaú reviu de 1,3% para 1%, e o Bradesco, de 1,9% para 1,1%, a previsão do Produto Interno Bruto deste ano, devido à queda esperada de 0,2% no 1º trimestre, que o IBGE confirmará dia 30, quinta-feira.

Em relação à inflação, a mediana das expectativas continuou em 4,07% e 4,00% para este e o próximo ano, nessa ordem. O mercado parece não ter processado o resultado do IPCA-15 de 0,35% em maio (contra 0,75% em abril) e principalmente a deflação de 0,3% nos preços dos alimentos, após alta de 1,4% na leitura do IPCA-15 de abril. Tanto Bradesco como Itaú revisaram as projeções de inflação para baixo.

Os departamentos econômicos dos dois bancos acreditam que a inflação tende a declinar já este mês pelo IPCA cheio (resultado na próxima semana). O Itaú espera que a inflação em 12 meses caia para 4,7% em maio (4,94% em abril) e que desça a 3,7% em julho, fechando o ano em 3,6%, nível mantido para dezembro de 2020.

O Bradesco lembra que além da queda dos alimentos, “os núcleos do indicador, que excluem os itens mais voláteis, mantiveram comportamento benigno e subiram 3,3% considerando o acumulado dos últimos 12 meses. Assim, a tendência para a inflação mantém-se bastante benigna, favorecida pela ociosidade na economia”. Para o IPCA fechado do mês, o banco revisou a projeção para 0,25% (de 0,30%). O Depec Bradesco considera que a queda da inflação a curto prazo coloca um viés baixista para a projeção de 4% para o IPCA do ano, corroborando o cenário de redução da taxa a Selic para 5,75% no final do ano, comungado pelo Itaú, o primeiro a apontar isso, ainda em abril. O Itaú espera que a Selic siga caindo a 5% em 2020..

Mas o mercado (incluindo as Top 5, as cinco instituições que mais acertam as previsões) parece não ter se dado conta das mudanças no horizonte e manteve as expectativas para a taxa Selic em 6,50% para o final de 2019 e em 7,25% para o final de 2020. Por fim, as medianas das projeções para a taxa de câmbio no final deste ano e do próximo seguiram em R$/US$ 3,80.

Expectativa com o PIB do 1º trimestre

As atenções da semana na economia estarão voltadas ao PIB, desemprego e indicadores do BC e da FGV; no exterior, os destaques serão a transição política no Reino Unido, inflação nos EUA e indústria na China

No foco da agenda doméstica desta semana teremos, na quinta-feira, o resultado do PIB do 1º trimestre, que deve ter recuado 0,2% em relação ao período imediatamente anterior. Com a confirmação do dado, as estimativas de crescimento em 2019 tendem a ser revisadas pelo mercado, mantendo a tendência baixista das últimas semanas. Há instituições prevendo queda de até 0,3% no PIB do 1º trimestre. O governo já reviu a taxa do ano de 2,2% para 1,4%. Isso implica menor arrecadação e mais aperto na área fiscal.

PNAD pode confirmar desemprego alto

Na sexta-feira, será divulgada a PNAD Contínua referente ao mês de abril. Na previsão do Bradesco, a pesquisa do IBGE deverá mostrar uma taxa de desemprego de 12,6%. Para o Depec Bradesco, apesar dos dados do Caged, divulgados sexta-feira, apontarem a criação líquida de 129.596 vagas formais em abril (acima das expectativas do banco, de 90 mil e do mercado - 80 mil), descontados os efeitos sazonais (a maior parte das contratações foi para a colheita de café, laranja e cana-de-açúcar), a geração efetiva de vagas com carteira assinada caiu a cerca de 43 mil postos no período, o equivalente a uma média mensal de 30 mil empregos fixos criados no trimestre encerrado em abril.

O Depec Bradesco sublinha que “tal patamar ainda se mantém abaixo dos 50 mil postos necessários para estabilizar a taxa de desemprego. Assim, apesar da surpresa positiva com o resultado de abril, o Caged perdeu dinamismo no início deste ano se o compararmos com o observado no 2º semestre de 2018, sinalizando que o emprego formal tem se recuperado gradualmente, com diferenças regionais e com alguma volatilidade nos dados mensais” .

Ao examinar a questão dos salários e a evolução da massa salarial, o Bradesco identificou que “o salário médio dos admitidos desacelerou de um crescimento interanual de 3,8% em março para outro de 3,4% em abril, ainda em um patamar que não gera preocupação inflacionária”. Ou seja, no front da inflação nada impede o Banco Central de baixar os juros este ano.

Faltam JBS e Odebrecht

A condenação da Comissão de Valores Mobiliários para Eike Batista pagar R$ 536 milhões por uso de informação privilegiada no caso da petroleira OGX, que naufragou quando os campos de Tubarão Martelo &cia revelaram não ter níveis comercializáveis, deixou muita gente que exerce postos de comando em empresas e instituições financeiras com as barbas de molho.

A reafirmação da autoridade do xerife do mercado de capitais é importante para a evolução do mercado de capitais brasileiro, que precisa ser operado em bases confiáveis para investidores nacionais e internacionais. Certamente profissionais envolvidos com os grupos JBS e Odebrecht devem estar preocupados.

Por sinal, esta é uma semana crucial para o grupo Odebrecht. Precisa rolar até sexta-feira, 31 de maio, R$ 800 milhões de juros devidos aos bancos, do endividamento total na casa dos R$ 70 bilhões. O presidente do Conselho de Administração da holding Construtora Norberto Odebrecht (CNO) Emilio Odebrecht não descarta o recurso extremo da recuperação judicial.

Sua grande esperança era fechar a venda do controle da Braskem para a gigante holandesa Lyondell Basell. O valor estava estimado em R$ 20 bilhões pelos 53% da companhia (a Petrobras tem os outros 47%). Mas os problemas causados pela exploração de Sal Gema nos subúrbios de Maceió (AL), como o afundamento de casas e ruas pelos túneis subterrâneos de extração do mineral, que resultaram numa cobrança de R$ 6,7 bilhões pelo Ministério Público local, geraram redobrada cautela dos holandeses.

A venda da Braskem, uma das joias da coroa do grupo, e cujas ações foram dadas em garantias de empréstimos da holding CNO aos bancos credores (Itaú, Bradesco, Santander e BNDES), seria a salvação da lavoura. Enquanto o tempo corre, o grupo Odebrecht vai entregando anéis para salvar os dedos. Semana passada vendeu por R$ 500 milhões a sede paulista na Marginal Pinheiros ao grupo SDI. É pouco para quitar os R$ 800 milhões que vencem dia 31. E os cronogramas de multas devidas à Lava Jato e ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos também não podem atrasar.