Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Gilberto Menezes Côrtes

No Dia Nacional do Café: safra deve ser bastante expressiva, face à bienalidade de baixa esperada

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES, gilberto.cortes@jb.com.br

No Dia Nacional do Café, que se comemora nesta sexta-feira, 24 de maio, vale lembrar que a safra brasileira de café 2019/20 (período julho-junho) deve alcançar 59,3 milhões de sacas (60kg), segundo estimativa divulgada ontem pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Isto representa um recuo de 8,5% em relação à safra 2018/2019, que atingiu o recorde de 64,8 milhões de sacas, segundo o órgão. O Brasil lidera a produção mundial (33%) e as exportações de café (25%). Os EUA são os maiores consumidores (16,5%) contra 13% do Brasil.

Para o Departamento Econômico do Bradesco, que fez uma análise sobre a produção de café, que representa hoje 2% das exportações brasileiras, contra 17% do complexo soja, que lidera a pauta exportadora, dado ao caráter bienal da safra brasileira de cafés arábicas (mais de 76% da produção brasileira) com a baixa no ano seguinte a uma grande safra, a redução deve ser relativizada.

Na comparação com a safra 2017/2018, quando também houve o fenômeno, devemos ter elevação bastante expressiva, de quase 17% (total de 50,9 milhões). Nada menos de 65% da produção são exportados e 35% consumidos internamente. Carro chefe da economia por mais de um século, o café ainda emprega muita gente no campo e no setor de torrefação, mas representou apenas 2% das exportações em 2018, contra 70% nos anos 50 e 60.

Segundo o Bradesco, a percepção de produção bastante volumosa (dada a bienalidade) foi corroborada pela Conab, que há poucos dias divulgou o seu segundo levantamento para a safra 2019. De acordo com o órgão brasileiro, teremos neste ano uma produção total de 50,9 milhões de sacas, ante os volumes de 61,7 milhões e de 45 milhões obtidos um e dois anos atrás.

Ainda segundo a estatal, Minas Gerais (72%) e São Paulo (11%), que representam juntos cerca de 87% da produção de arábica no país, deverão registrar quedas de 21% e de 26% ante o volume obtido no ano passado.

O café conilon (ou robusta), variedade que é usada na mistura das torrefações, por ser rascante e de menor preço, por sua vez, apesar de sofrer menos o efeito da bienalidade, também deverá apresentar recuo de 1,7% frente ao registrado na safra passada.

Neste caso, o incremento da produção do Espírito Santo (70% do total nacional) não tende a compensar as reduções esperadas na Bahia e em Minas Gerais. Considerando apenas períodos sazonalmente comparáveis, os indicadores de produção permitem projetar um cenário positivo para a oferta doméstica de café, o deverá contribuir positivamente para o PIB agropecuário neste ano, que também será favorecido por outras safras elevadas.

Algumas curiosidades sobre o café

Originário das terras altas da Etiópia (nos territórios que hoje pertencem ao Sudão e Quênia [país que foi cenário do filme “Entre dois Amores”, com Robert Redford e Merryl Streep, que interpreta a personagem da escritora dinamarquesa Karen Blixen, que desenvolve uma plantação de café em parceria com os nativos quicuios], o café foi difundido inicialmente no mundo árabe, através do Egito.

Um pastor de ovelhas percebeu que seus animais ficavam mais espertos e ativos quando comiam os frutos e as folhas dos arbustos. Com o tempo passou-se a fazer infusões dos grãos, secos, torrados e moídos (a primeira experiência foi feita na Pérsia). Nos séculos XIV e XV a bebida se difundiu pelo mundo árabe. A Igreja Católica a bania, por ser associada aos muçulmanos, alvos das Cruzadas. A bebida só foi liberada aos católicos no papado de Clemente VIII (1692 a 1605).

Por se desenvolver bem nos países tropicais, foi disseminada pelos colonizadores portugueses no Brasil e na África (Angola e Cabo Verde), pelos espanhóis nas Américas (Colômbia, Equador, Peru, Honduras, México, Costa Rica, El Salvador e Guatemala) e pelos holandeses na Ásia (Indonésia e Filipinas) e nas Américas (Suriname, de onde Francisco Palheta trouxe grãos que foram transformados em mudas no Brasil).

Produtores e consumidores

Nas Américas, depois do Brasil, a Colômbia se transformou no maior produtor de café arábicas com os grãos maduros colhidos manualmente (o que valoriza o sabor, ante a tradição brasileira da derriça que vem sendo abandonada nos cultivos gourmets). Mas a surpresa é que o segundo produtor de café do mundo está na Ásia. Sim, no surpreendente Vietnã.

Após a Guerra com os Estados Unidos, que espalhavam o desfolhante laranja nas florestas do país, onde se escondiam os vietcongues, o Banco Mundial procurou desenvolver atividades que se adaptassem às florestas e aproveitassem a mão de obra feminina que sobreviveu ao massacre mais intenso dos homens. E a variedade introduzida o conilon, tornou o Vietnã o 2º produtor mundial de café.

Estudo do Bradesco mostra que há possibilidades do aumento do consumo de café (razoável nos mercados do Japão, Indonésia, Índia e Filipinas) na Rússia e na China. Hoje, os maiores mercados consumidores estão na Europa e nos Estados Unidos, além do Brasil, 5º país mais populoso do mundo. Se Índia e China trocarem uma xícara mensal de chá por uma de café, já seria um salto na demanda mundial. Isso depende da menor influência religiosa da ioga e do budismo, por exemplo.

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Importação de Café (Foto: Divulgação)

O café no Brasil

O café foi a segunda lavoura implantada no Brasil com mão de obra escrava. A primeira foi o cultivo da cana-de-açúcar (originária da Índia) com índios brasileiros. Extrativistas, os nativos brasileiros se recusaram ao árduo trabalho e escravos foram trazidos da África negra. O café foi, juntamente com a mineração do ouro, o principal destino da mão de obra negra escravizada. O Estado do Rio de Janeiro e a Zona da Mata de Minas Gerais, regiões montanhosas, foram o berço das lavouras de café.

O modo de cultivo, com desmate para implantação das lavouras em sistema de monocultura, levou à precoce exaustão do solo e à queda da produtividade deixando regiões desmatadas e sem qualquer aproveitamento agrícola após a Abolição da Escravidão, em 13 de maio de 1888. Mas pelos menos três a quatro décadas antes, as terras mais férteis e planas do planalto paulista passaram a ser cultivadas com o auxílio de mão de obra de famílias de colonos importadas da Europa (italianos e espanhóis principalmente).

Com conhecimento milenar de agricultura e suas famílias tiveram, ao contrário dos negros cativos, apartados de suas famílias, italianos e espanhóis tiveram acesso aos meios de produção e condições de cuidar de vários eitos, onde plantavam milho, mandioca e feijão nas ruas do café (em regime de terça ou meia com os proprietários das terras) e ainda criavam porcos e galinhas. [Isso explica porque raramente há italianos na base da pirâmide social brasileira, enquanto em razão inversa, é raro ver negros, que formam a base da pirâmide atingir o topo da pirâmide. Por que as elites brasileiras nunca deram importância à Educação como base para a ascensão social].

Com a decadência do café em Minas e no RJ, São Paulo assumiu a liderança na produção nacional e formou com os mineiros a “política do café com leite” na primeira fase da República, até a Revolução de 30, com Getúlio Vargas.

O colonato e a Previdência Social

O modelo do colonato se espalhou no século passado para as ricas terras roxas do Norte e Oeste do Paraná. Após a 2ª Guerra, a produção do Paraná superou a de São Paulo. O cultivo de lavouras como milho, feijão e mandioca tornou o Paraná o mais importante estado agrícola brasileiro entre os anos 50 e 70. Mas a produção de café brasileira, que chegou a representar mais de 70% da receita cambial do país no período, sofria sempre com as geadas no Paraná e em São Paulo de maio a agosto.

Os fazendeiros chegavam a queimar pneus nas “ruas” do café para espantar as geadas. O orvalho congelado queimava as plantações quando o sol aparecia de manhã. A ameaça se concretizou em 1975, quando os cafezais dos dois estados foram dizimados. A produção cafeeira se concentrou em Minas Gerais (no sul do estado e no Triângulo mineiro). As terras do Paraná cederam espaço às lavouras intensivas de soja; as de São Paulo, à monocultura da cana ou da laranja (que se beneficia das geadas na Flórida –EUA).

O impacto das geadas de 1975 são sentidos até os dias de hoje. A redução drástica do cultivo de café no PR e em SP desestabilizou por mais de uma década o abastecimento de feijão e mandioca no Brasil, antes plantados nas “ruas” do café [o abastecimento do feijão dependia da safra de Irecê (BA). Só no final do século passado, com a crescente mecanização das lavouras houve reequilíbrio no abastecimento e a progressão vertiginosa da produção de grãos com a introdução de espécies adaptadas ao Centro-Oeste.

Outra lavoura que trocou SP e PR pelo CO foi a de algodão. Espécies desenvolvidas pela Embrapa criaram variedades de soja, milho, feijão e algodão adaptados ao clima mais seco do Planalto central. No caso do algodão, foi a salvação da lavoura, pois as chuvas no PR e SP impediam o desenvolvimento de fibras longas, como no Egito e Índia, e a praga do bicudo dizimou boa parte das plantações tradicionais do Nordeste. O algodão, passeou a ser a lavoura sequencial após a colheita da soja, no sistema de plantio direto. O Oeste da Bahia é hoje a 2ª região produtora de algodão do país, que voltou a exportar o produto (facilitando as confecções da Ásia que invadem o mercado brasileiro).

Mas o 2º grande impacto das geadas de 1975 foi no processo de urbanização brasileira que se acelerou violentamente entre o Censo de 1970 e o de 1980. A geada acabou virtualmente com o colonato. E o Brasil se tornou descontroladamente urbano em menos de uma década. Mas os efeitos vieram a repercutir até hoje na Previdência, que tem mais 7 milhões de dependentes do Funrural, recebendo um salário mínimo sem nunca terem contribuído.

Os fazendeiros não sabiam o que fazer com a mão de obra que antes operava no café em parceria. O então presidente do INSS no governo Geisel, Reinhold Stephanes, por sugestão do deputado Marco Maciel, sugeriu a inclusão dos colonos que seriam dispensados no Funrural. O sistema tinha sido criado na grande seca do Nordeste nos anos 70, no governo Médici. Garantia meio salário mínimo aos pequenos agricultores nos períodos de seca. A ideia era estender o Funrural ao Sul e Sudeste. O então ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, era contra, pois “iria quebrar a Previdência”. Mas argumentava-se que a medida atingiria pouco mais de 400 mil pessoas.

Em pouco mais de um ano a Previdência ganhou mais de 4 milhões de beneficiários, porque os fazendeiros de todos os estados do país (e não apenas os de SP e PR) transferiram o ônus do colonato para a “viúva”. A Constituinte de 1988 dobrou o problema a determinar que ninguém poderia ganhar menos de um salário mínimo na aposentadoria. Essa faixa, que deveria ser amparada por recursos do Tesouro (na LOAS) é hoje importante fonte de déficit e motivo dos planos de restrição às aposentadorias rurais (concedidas a muita gente que vive nas cidades) e ao Benefício de Prestação Continuada.