A CEF começa a abrir sua caixa preta

Costumeira na reapresentação de balanços, devido a sucessivos erros de contabilidade nas complexas contas que administra para o governo; em nome do governo (PIS e FGTS) e para o seu público (cadernetas de poupança, depósitos à vista, depósitos a prazo, fundos de investimento e cartões de crédito e débito), a Caixa Econômica Federal inovou na gestão de Pedro Duarte Guimarães, que apresentou sexta-feira, 29, o balanço do 4º trimestre e do ano de 2018, com sensível mudança de enfoque em relação à presidência anterior de Nelson de Souza, que a geria como uma autarquia.

Para começar, o desenho do site da nova Caixa caminha na direção de uma empresa que pretende enxugar, via privatização, boa parte de suas múltiplas atividades, como a administração de loterias e o ramo de seguros e previdência. Para isso, o site da CEF apresenta logo no alto um ícone que é comum nas empresas de capital aberto: um tópico para relação com investidores. E essa preocupação com a abertura da CEF para o mercado de capitais se traduziu na maior transparência possível no balanço do último trimestre de 2018.

Ao apresentar o balanço do 3º trimestre de 2018 no mês de novembro, Nelson de Souza, que era um quadro ligado ao governo Temer, nutria esperança de ser aproveitado na gestão Bolsonaro. E tratou de enfeitar o pavão, vale dizer, o balanço trimestral da CEF. No 3º trimestre a Caixa teve lucro líquido de R$ 4,813 bilhões, o que gerou um lucro acumulado de R$ 11,468 bilhões em nove meses. Mas já em fevereiro, Pedro Guimarães anunciou que ia aplicar realismo no balanço da Caixa promovendo mais baixas contábeis, em títulos e, sobretudo, em imóveis do Minha Casa, Minha Vida.

Na sexta-feira, a CEF deu baixa de R$ 1,2 bilhão no valor de imóveis em carteira no último trimestre de 2018, elevando para R$ 2,8 bilhões o montante de baixas contábeis (impairment) em imóveis. Detalhe, a Caixa tinha a 62.972 imóveis em estoque de (bens não disponíveis para uso (BNDU), que totalizavam R$ 11,5 bilhões. Ao fazer um estudo de avalização com uma amostra de 720 imóveis, decidiu fazer a baixa contábil.

Em outra decisão, a atual diretoria revisou as avaliações de risco das maiores operações da Caixa, que resultaram em ajustes de rating, particularmente de três grandes exposições de clientes do segmento de infraestrutura. Isso resultou em aumento na despesa de provisão, especificamente para essas operações no mês de dezembro de 2018, na ordem de R$ 1,1 bilhão.

Excesso de maquiagem

Na gestão anterior, faltou realismo e sobrou maquiagem de balanço. Ao apresentar o lucro líquido acumulado de R$ 11,468 bilhões, a diretoria que geriu a Caixa até 31 de dezembro alardeou que havia sido “o maior lucro da história” e louvava a baixa inadimplência da CEF frente a média do sistema bancário, sem discriminar o que era dívida em aberto no setor habitacional (que tem baixo índice de inadimplência) e nas demais modalidades de crédito.

Pois a gestão Pedro Guimarães abriu a inadimplência em cada segmento. Para começar, ao apontar o índice de inadimplência geral de 2,18% (contra 2,84% da média do mercado), disse que o índice da CEF era compatível com a concentração das operações em crédito habitacional (64%) e consignado (cerca de 15%). No crédito habitacional a inadimplência era de apenas 1,31% (queda de 27 ponto percentual frente ao mesmo trimestre de 2017 e de 6 p.p. frente ao 3º trimestre).

Mas no crédito comercial para pessoas físicas, a inadimplência subia para 5,15% (redução de 09 p.p. no trimestre) e para as pessoas jurídicas era ainda maior: 5,6%, com aumento atribuído ao enxugamento da carteira de crédito imobiliário. Na média, no segmento comercial, índice altíssimo de 5,32%. O do Bradesco era de 3,5%, sendo de 4,4% para as pessoas físicas.

A Caixa fez um esforço tremendo e conseguiu renegociar R$ 26,9 bilhões em créditos habitacionais no ano passado, sendo R$ 14,5 bilhões no 2º semestre. Isso evitou baixa contábil de operações. Mas a realidade é que a recuperação de créditos da Caixa anda mito baixa comparada ao mercado. Um dos problemas que a CEF carrega são os acertos do Fundo de Compensação de Variações Salariais (o FCVS), herdado do antigo BNH, quando os reajustes das prestações ficavam baixo do aumento dos salários (duas vezes no governo Figueiredo). A CEF se diz credota de mais de R$ 13 bilhões. Mas há muita burocracia para o acerto de contas deste esqueleto fiscal com o Tesouro Nacional.

Tarifas garantem lucros

De onde veio o lucro da Caixa, já que suas operações de empréstimos encolheram 1,7% no ano passado? Da renda de tarifas, que somaram R$ 26,8 bilhões, um aumento de 7,2% sobre 2017, superando a inflação de 3,75%, medida pela variação do IPCA. As receitas de contas correntes cresceram 11,9%, somando R$ 6,4 bilhões.

As de cartões (crédito e débito) aumentaram 6,2%, somando R$ 2,6 bilhões e as de fundos de investimento (segmento que a CEF quer explorar, embora seja a líder em caderneta de poupança) aumentaram 18,8%, pela taxa de administração.

Mas p maior dos grandes ganhos vem das tarifas de serviços prestados ao governo (pagamento do Bolsa Família, FGTS, PIS e seguro-desemprego) que somaram R$ 9,9 bilhões, aumento de 8,1%.

Cai índice de confiança na FGV

 

Criada em dezembro de 1944, com o objetivo de formar executivos para as carreiras do serviço público, a vetusta Fundação Getulio Vargas ganhou a confiança dos meios empresariais para quem levanta índices de preços, com o IGP-M e índices da Construção Civil. Nos últimos anos a FGV passou a levantar índices de confiança do consumidor e das atividades empresariais, da indústria, do comércio e de serviços.

Na esteira dos seus levantamentos derrapou feio ao levantar, no governo Sérgio Cabral índices de custos de transporte urbano que balizariam pleitos de reajustes dos empresários de ônibus, representados pela Fetransport.

Pois o que já se falava desde agosto do ano passado a boca miúda, nos corredores da FGV de que o levantamento estava eivado de suspeitas, se confirmou com a disposição do ex-governador de incluir o pacote da Fetransport nas suas dúvidas.

Pelo visto, vai cair o índice de confiança na Fundação...