O Outro Lado da Moeda

Por Gilberto Menezes Côrtes

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O OUTRO LADO DA MOEDA

Quanto custou o erro do Copom?

Publicado em 11/08/2023 às 16:28

. OLM

Com a divulgação pelo IBGE do IPCA de julho de 2023, com aumento de 0,12% (pouco acima dos 0,8% previstos pelo Bradesco e a LCA Consultores) a inflação acumulada no ano atingiu 2,99% e no acumulado de 12 meses se elevou para 3,99%. O importante é que se completou o 1º ciclo de cotejo dos preços desde que o ex-ministro da Economia, Paulo Guedes, cortou os impostos (federais e estaduais) de combustíveis, energia elétrica e comunicações em junho de 2022, na tentativa de reeleger Bolsonaro. Restam os meses de agosto e setembro, quando houve a deflação eleitoreira de 2022.

Os dados de julho confirmam o impacto positivo da maior oferta de alimentos da supersafra agrícola nos alimentos. No mês, o item Alimentos e Bebidas teve queda de 0,46%. No acumulado do ano, os alimentos subiram apenas 0,55% e nos últimos 12 meses a comparação é de 2,20% contra 3,99% do IPCA. Dois segmentos explicam a forte baixa da alimentação, em decorrência da supersafra: as carnes bovinas e óleos vegetais. Aos preços das carnes caíram 2,14% em julho, acumulando baixa de 7,90% no ano e de 8,54% em 12 meses.

Os óleos e gorduras (incluem o óleo de soja) também ficaram 2,14% mais baratos, com baixa de 17,04% no ano e de 23,48% em 12 meses (vale lembrar que, em setembro de 2020, após o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, comandado pela hoje senadora Tereza Cristina, não garantir estoques reguladores e o óleo de soja subir mais de 100% nos supermercados, o Brasil teve de importar soja em grão para fazer óleo! A gestão de Carlos Fávaro, no MAPA, além de contar com superoferta de alimentos, tem tomado cuidado de preservar o abastecimento do mercado interno.

Mas os dados do IPCA, que mostraram a forte influência da gasolina (item de maior peso entre os 377 coletados pelo IBGE, com 4,79%), cuja alta de 4,75% em julho gerou aumento de 0,23% na taxa final do IPCA (anulada pela baixa dos alimentos e pela queda de 3,89% na energia elétrica residencial, com a aplicação do desconto das tarifas de Itaipu, com alta acumulada de 2,63% no ano), apontam uma forte queda de patamar nos preços dos serviços.

Na métrica acumulada em 12 meses, eles estavam na faixa acima de 7% até abril-maio. Mas desceram para 5,63% em julho. No mês ainda tiveram aumento de 0,25% (mais do que o dobro da taxa do IPCA), entretanto, foi uma redução considerável frente aos 0,62% de junho.

Copom presta atenção nos serviços

Vale ficar atento à evolução dos serviços, pois sua variação (ou melhor, sua desaceleração mais lenta) era uma justificativa apontada pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central para ser cauteloso na redução da taxa Selic, finalmente reduzida de 13,75% para 13,25% em 2 de agosto.

Um dos parâmetros de serviços que caiu bastante foi o da apropriação mensal dos planos de saúde, que estava em 1,20% ao mês até maio e desceu para 0,78% em julho. Entretanto, os serviços hospitalares e de laboratórios (objeto de reajustes anuais em negociação com os planos de saúde) ficaram 0,73% mais caros em julho (contra alta de apenas 0,04% em junho). Movimento altista semelhante se deu nos preços de serviços de médicos e dentistas, que subiram 0,53% em julho, após 0,23% em junho.

De qualquer forma, é preciso acompanhar o impacto que os reajustes recentes e futuros da gasolina tenham sobre a formação de preços dos profissionais autônomos, que usam veículos próprios para seus deslocamentos diários (caso de pedreiros, bombeiros, eletricistas e aqueles que atendem a reparos de eletroeletrônicos domésticos, incluindo a manutenção de computadores).

O Copom se vale de indicadores de serviços e da variação dos preços administrados para fazer suas projeções, mas vem errando muito desde a intervenção do governo Bolsonaro nos preços e continuou errando muito este ano. Na decomposição feita pelo Itaú nos preços do IPCA de julho, o núcleo dos preços administrados subiu 0,46% em julho (-4,35% em julho do ano passado), com baixa de 3,89% em energia elétrica residencial (-15,78% em 2022) e alta de 4,75% na gasolina (-15,28% em julho de 2022).

Os preços livres ficaram virtualmente estáveis (+0,01%, contra +0,65% em julho de 2022). Mas o custo da Alimentação em Domicílio baixou 0,72% (quando tiveram alta de 1,47% em julho de 2022, pesando no orçamento dos mais pobres). Os preços industriais subiram 0,12% em julho deste ano (-0,11% em 2022) e os itens de serviços subiram 0,25% em junho de 2023, contra 0,80% em 2022. Pode-se dizer que a baixa agora é mais consistente e espalhada, pois apenas 46,15% dos preços estavam em alta (o menor percentual do ano). Em julho de 2022, nada menos que 62,82% dos preços estavam em alta (mas antes dos cortes dos preços a média era de 70%).

O preço dos erros

Qual o custo destes erros de projeções que levaram o Copom a manter os juros nas alturas? A ação do Copom ficou residual na baixa da inflação. Mas os custos de seus erros precisam ser contabilizados e responsabilizados.

Fui pesquisar os últimos Relatórios Trimestrais de Inflação do Banco Central, elaborados a cada fim de trimestre pela diretoria de Política Econômica, comandada por Diogo Guillen: o nível dos erros chama a atenção. E desde março deste ano, Guillen acumulava a diretoria de Política Monetária, a mais importante do Banco Central, agora ocupada por Gabriel Galípolo, cuja argumentação, forçou uma guinada do Copom.

Na balança comercial, erro de

Os erros não se limitam à política monetária – sobretudo no descasamento entre a inflação projetado e a efetivamente verificada (no trimestre julho-setembro do ano passado, o Copom foi surpreendido pela intervenção eleitoreira de Paulo Guedes; este ano, errou ao projetar que o governo Lula faria a recomposição plena e automática de 100% dos impostos cortados por Guedes). E ainda avaliou mal os impactos baixistas dos alimentos.

Uma simples comparação com as previsões da Balança Comercial (cujos saldos estão ligados à supersafra), mostra como a diretoria de Política Econômica do Banco Central está avaliando mal a economia.

No RTI de março de 2022, a previsão era de um saldo de US$ 86 bilhões para a balança comercial do ano passado, reduzido a US$ 42 bilhões no RTI de junho e aumentado para US$ 46 bilhões em setembro (o resultado foi de U$ 44,5 bilhões).

Para 2023, em junho do ano passado o BC previu em US$ 54 bilhões para o saldo deste ano. Em março deste ano, o Banco Central, já com os resultados da safra, elevou a previsão para US$ 62 bilhões, mas reduziu para US$ 54 bilhões, novamente em junho. A última previsão do Itaú é de US$ 70 bilhões. Um desvio de quase 30% acima do previsto pelo Banco Central.

Em tempo: o Itaú na revisão de suas projeções deste ano, reduziu hoje o IPCA de 2023 de 5,1% para 4,9%, elevou o crescimento do PIB de 2,3% para 2,5% e manteve a previsão de que a taxa Selic vai fechar o ano em 11,75%, mas não descarta aceleração maior que 0,50 ponto percentual de baixa por reunião, no encontro de dezembro.

Macaque in the trees
. (Foto: OLM)

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