Os riscos do pacote para 2023 e além

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JB
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O pacote de bondades visando aumentar as chances de reeleição do presidente Jair Bolsonaro, mediante a redução de impostos estaduais (ICMS) e federais sobre energia elétrica, telecomunicações e combustíveis, complementado com a injeção de mais de R$ 41 bilhões diretamente no bolso dos eleitores. Esse drible na legislação eleitoral e nos limites fiscais, está levando bancos e consultorias a revisarem para pior o cenário de 2023 e além.

O Bradesco aumentou para 1,8% (com possibilidade de ir a 2%) a previsão de crescimento do PIB de 2022. Mas reduziu de 0,3% para 0% a previsão do desempenho do PIB em 2023. Em 2024 haveria recuperação de 1,98%.

O Santander revisou, semana passada, para cima o PIB deste ano (de 0,7% para 1,2%), mas o banco prevê recessão neste 2º semestre, com “contração sequencial do PIB a partir do 4º trimestre refletindo os efeitos defasados da política monetária, que devem prevalecer a partir de então, provocando uma recessão em 2023”. A queda antes estimada em 0,3% aumentou para -0,6%, E a previsão de 20234 também encolheu (de +1,5% para +0,5%).

Em meio ao crescente risco de recessão na economia do 1º mundo, a LCA Consultores reviu as projeções para o Brasil, que “também contemplam um esfriamento da atividade econômica já a partir deste 3º trimestre (...). No entanto, o reforço substancial de estímulos às vésperas da corrida eleitoral pode vir a postergar esse esfriamento mais para a virada de 2022 para 2023 – o que nos leva a cogitar revisar para cima a nossa projeção para o crescimento do PIB do ano (que está em 1,6% e poderá ser elevada para ao redor de 2%).

Em contrapartida, a LCA considera que “os eventos recentes aumentam o risco de um cenário com características mais adversas. O aumento da percepção de risco fiscal, associado às “bondades eleitorais” e ao virtual abandono de âncoras fiscais (como a regra do teto de gastos públicos), tem contribuído para acentuar pressões sobre o risco-Brasil, as taxas de juros de longo prazo e a taxa de câmbio, com a cotação do dólar voltando a oscilar perto de R$ 5,40”.

 

Os riscos dos juros altos

Lembra a consultoria que, “com a maior percepção de risco fiscal e o câmbio mais pressionado, a incerteza inflacionária tenderia a refluir mais lentamente – o que parece já estar repercutindo nas expectativas de inflação de longo prazo implícitas nos mercados de títulos públicos. Ou seja, os riscos de “desancoragem” de expectativas inflacionárias continuam a aumentar. Nessas circunstâncias, vêm aumentando também os riscos de que o Banco Central venha a estender o ciclo de elevação da taxa básica de juros para além da próxima reunião do Copom, marcada para 03 de agosto”.

Segundo a LCA, “esse quadro de maior volatilidade nos mercados e menor previsibilidade macroeconômica tenderia a se refletir num esfriamento mais agudo da atividade econômica em 2023, quando se diluírem os efeitos dos estímulos temporários que estão sendo adotados”. E chama a atenção para a possibilidade de extensão para o ano que vem do aumento do valor do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 mensais.

Mesmo que a maior parte dos efeitos das medidas recentes tende a sofrer diluição, o contexto indica que as contas públicas precisarão sofrer ajustes mais incisivos e a política monetária permanecerá restritiva. A LCA observa ainda que boa parte dos efeitos contracionistas do aperto monetário já promovido ainda não se fez sentir plenamente na atividade econômica.

 

Aperto na renda das famílias

Além de encarecer as condições de crédito, desestimulando o consumo de bens de maior valor, a alta das taxas de juros pode limitar o poder de compra das famílias, ao provocar um aumento do comprometimento da renda dos consumidores com o pagamento de dívidas.

Em resumo, o reforço substancial de estímulos que vem ocorrendo às vésperas das eleições poderá postergar o esfriamento econômico, mas tende a tornar o cenário para 2023 ainda mais complicado.

 

Desarranjo nas contas públicas

A LCA Consultores assinala que “está em curso um desarranjo ainda mais acentuado das contas públicas, não só ao nível da União, mas também nas demais esferas de governo (os Estados, por exemplo, acabam de se ver privados, repentinamente, de múltiplas dezenas de bilhões de receita de ICMS)”.

Começar a corrigir esse desarranjo tenderá a exigir um “freio de arrumação” mais incisivo – e, portanto, politicamente mais difícil de se viabilizar, diz.

 

O II PND e a farsa eleitoral

A história quando se repete é farsa. No passado, o atual ministro da Economia, Paulo Guedes, foi crítico ferrenho da tentativa do II Plano Nacional de Desenvolvimento, de fomentar projetos de substituição de importações, para compensar os gastos extras com a importação de petróleo, cujos preços triplicaram em 1973 (quando o Brasil só produzia 15% de suas necessidades). Guedes debochava da ideia de o país ser “uma ilha de tranquilidade em meio à recessão mundial”. O PND gerou ajuste nas contas externas em 1977-78, às custas de estouro nas contas públicas.

Tudo se desorganizou com a nova alta do petróleo em fins de 1979, quando a inflação em escalada levou o Federal Reserve Bank a subir os juros para 19-20% ao ano, em meio aos crescentes déficits fiscais dos Estados Unidos. O resultado foi a quebradeira dos países emergentes (que se endividaram na perspectiva de juros da Libor na faixa de 6% a 7,5% ao ano, e as taxas triplicaram, arruinando os cronogramas do serviço das dívidas externas).

Pois agora, em meio ao quadro recessivo que se desenha na economia mundial, Guedes deu o aval para criar uma “ilha de prosperidade eleitoral” para Bolsonaro com validade até 31 de dezembro de 2022. Isso está levando bancos e consultorias a projetar um tombo na economia em 2023, cujos efeitos vão se prolongar para 2024.

 

IPCA volta a subir em junho

Na 6ª feira o IBGE divulga o IPCA de junho. O mercado está projetando variação de 0,65% a 0,78% (a taxa foi de 0,47% em maio e de 0,53% em junho de 2021). Assim, qualquer taxa acima da de junho do ano passado repica para cima a taxa do IPCA em 12 meses (que tinha caído para 11,73%).

O Santander espera 0,70%, com aceleração em Alimentação e bebidas, de +0,48% em maio para +1,00% em junho. Em Habitação, haveria alta de 0,36% (após queda de 1,70% em maio), porque grande parte do efeito deflacionário oriundo da mudança de bandeira tarifária em energia elétrica (desde 16/04) vai ficando para trás. Planos de Saúde pressionariam alta de 1,06% em Saúde e cuidados pessoais.

A LCA Consultores também espera alta de 0,70%, o que elevaria a taxa em 12 meses para 11,92%. Já o Bradesco está mais pessimista e prevê alta de 0,77% no IPCA de junho. Isto faria a taxa em 12 meses chegar a 11,99%.

Tudo isso seria antes do pacote de bondades suavizar a inflação, nos índices e nos bolsos de alguns, até as eleições.

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