Petrobras ignora apelo de Bolsonaro

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Na “live” semanal da última 5ª feira, 5 de maio, a partir das 19 horas, com a “inside information” de que a Petrobras lucrara mais de R$ 40 bilhões no 1º trimestre (foi R$ 44,561 bilhões) e a estatal só divulgou os resultados completos após as 20 horas, o presidente Jair Bolsonaro, em tom dramático, apelou à estatal para não mais aumentar o diesel, a gasolina e os combustíveis em geral, pois “quebraria o Brasil”. Nesta 2ª feira, 9 de maio a Petrobras anunciou que a partir de amanhã, 10 de maio, após 60 dias, vai promover aumento de 8,87% no litro do óleo diesel vendido nas refinarias. O último aumento, em 11 de março, foi de 24,9%. No ano, o aumento chegará a 47%.

Os departamentos econômicos de bancos e consultorias estão fazendo os cálculos do novo aumento - por enquanto a Petrobras não anunciou alterações no preço da gasolina nem do GLP (o gás de botijão), embora já tenha anunciado aumento, desde 1º de maio, de 19% para o gás natural (usado nas indústrias, em veículos e nas residências de grandes cidades, como Rio e São Paulo). A Petrobras alegou que o custo do diesel aumentou em todo o mundo (reflexo da invasão da Ucrânia pela Rússia, em 24 de fevereiro) e, sem equiparação aos preços externos o abastecimento interno (o diesel é vital no transporte de mercadorias e passageiros) corria risco se não houvesse reajuste (parte do mercado é suprido por importadores nacionais e estrangeiros).

 

Impactos manterão IPCA em dos dígitos até agosto

Como o IPCA de maior será calculado com base nos preços apurados entre 1 e 30 de maio, a exemplo de março, o impacto direto no IPCA, além de ser menor que o da gasolina e do GLP (captados diretamente nos itens Transporte e Habitação, respectivamente), será diluído entre maio e junho. O peso direto do diesel é bem menor que o da gasolina no IPCA. A taxa de abril, que o IBGE divulgará 4ª feira (11 de maio), com expectativas entre 0,96% (LCA Consultores), 0,98% (Bradesco) e 1,01% Itaú), absorverá menos o impacto direto do reajuste de 18% da gasolina (em 11 de março) e mais os indiretos do diesel nos fretes dos transportes de mercadorias.

Os impactos indiretos no custo dos fretes e dos transportes urbanos (com o novo reajuste, as empresas de ônibus vão pressionar governos e prefeituras por reajustes nas passagens urbanas e interurbanas) serão refletidos nos índices de preços até agosto. Não se descartam altas nos preços da gasolina, do querosene de aviação, da nafta e do GLP nos próximos dias. As pressões de alta no dólar/desvalorização do real diminuíram as margens da Petrobras e ameaçam o abastecimento, com o preço mais alto dos produtos importados.

Com reajuste nas passagens, os impactos, ainda que mais suaves que em março, devem manter o IPCA acima de dois dígitos até agosto. Isto completará um ciclo de 12 meses com variação acima de 10%. Numa economia altamente indexada como a brasileira, isto pode detonar uma escalada de reajustes, aumentando a fatia de dispersão das altas de preços (que já chegou a 78%). O IPCA, que mede as despesas das famílias com renda até 40 salários mínimos (R$ 48.480) em 12 meses atingiu 11,30% em março; já o INPC, que mede as despesas de quem ganha até 5SM (R$ 6.060), subiu 11,73%.

 

Itaú lucra menos que o Bradesco

O lucro líquido recorrente do Itaú no 1º trimestre, divulgado nesta manhã, foi de R$ 7,361 bilhões, com aumento de 2,8% em relação ao 4º trimestre de 2021 e de 15% sobre o 1º trimestre do ano passado. Mas o balanço consolidado do Itaú Unibanco congrega as operações de suas próprias filiais e bancos controlados na América Latina (como a CorpBanca) lucraram R$ 702 milhões no trimestre. O Itaú Unibanco opera em 18 países e essa parte é meio obscura

Descontando esses dados, os ganhos trimestrais do Itaú no Brasil foram, mais uma vez, menores que os do Bradesco, a quem desbancou do podium de maior instituição financeira do país com a fusão com o Unibanco, em fins de 2008. Só com as operações do Brasil, o lucro recorrente do Itaú Unibanco foi de R$ 6,397 bilhões.

O Bradesco, que não discrimina os resultados das filiais da Flórida, Argentina, Bahamas e Luxemburgo (entre outras), teve lucro recorrente de R$ 6,821 bilhões, um aumento de 3% no sobre o 4º trimestre e de 4,7% frente aos R$ 6,515 bilhões no 1º trimestre de 2021. Seria importante que o Bradesco discriminasse o resultado das operações no exterior, pois só a carteira de câmbio (com operações originas das sedes externas) lucrou R$ 640 milhões no período, fazendo empréstimos e operações de arbitragem com clientes no país. Chama a atenção o volume elevado de créditos tributários, com impacto nos resultados recorrentes trimestrais do Bradesco: R$ 2.102 bilhões.

No Itaú Unibanco consolidado só ficou demonstrado o resultado das agências no exterior (R$ 526 milhões no balanço consolidado do 1º trimestre, contra R$ 654 milhões no 1º trimestre de 2021). As demais agências no exterior tiveram perdas de R$ 1,766 bilhão no 1º trimestre, contra ganhos de R$ 1.646 bilhão no mesmo período do ano passado. Falta melhor explicação o resultado das “demais empresas controladas no exterior”, que foi negativo em R$ 4,388 bilhões, uma inversão total frente aos ganhos de R$ 2,653 bilhões em 2021.

Vale lembrar que O Itaú Unibanco, através da sub-holding Itaúsa está espraiando investimentos em companhias fora do mercado financeiro que precisam ter os impactos mais esclarecidos no balanço. No 1º trimestre o Itaú não considerou no lucro recorrente os ganhos com negociações de participações na XP Investimentos. Já o Bradesco não considerou os ganhos de R$ 261 milhões da venda do Banco Digio.

 

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. (Foto: OLM)

 

A disputa pela gestão de ativos

A batalha pelos lucros é só uma parte. Os dois bancos travam disputa para ver quem tem maior ativo - vencida pelo Itaú, que fechou o 1º trimestre com R$ 2,183 bilhões em ativos, contra R$ 1,724 bilhão do Bradesco. Mas a maior disputa está em quem administra as maiores carteiras de ativos próprios e de terceiros, onde pesam os fundos de pensão e de investimentos independentes.

De acordo com o ranking da Anbima, o Itaú fechou em março com captação total de R$ 3,172 trilhões, correspondendo a 24,9% do mercado. O Bradesco chegou muito perto. Com R$ 3.095 trilhões, atingiu 24,3% de participação no mercado. O 3º lugar era do Banco do Brasil, com R$ 2,470 trilhões, ou seja, 19% do mercado. O Santander vinha em 4º, com fatia de 5,7%, seguido pelo BNY Mellon, com 5,4%, a CE, com 4,8%, e o BTG-Pactual, com 4,7%.

 

Inadimplência ameaça os bancos

Ao analisar o resultado do Itaú, a Genial Investimentos, considerou que “a qualidade do resultado veio ligeiramente pior do que esperávamos. O resultado antes do imposto caiu 5,2% t/t e ficou estável a/a. Como esperávamos, o crescimento de lucro veio em grande parte da queda do imposto de 20,9% t/t e 24,4% a/a” A Genial chamou a atenção para o enfraquecimento da margem financeira (caindo 2% t/t (+11,7% a/a), impactada principalmente pela forte queda da margem com mercado de 23% t/t e 59% a/a. A margem com clientes continuou com um robusto crescimento anual de 23,9% a/a, apesar de crescer somente 0,7% t/t, resultado de menores spreads e menor quantidade de dias corridos. Como esperado, o custo de crédito subiu 12,4% t/t e 69,5% a/a, dado ciclo de normalização da inadimplência”, destaca a Genial.

Aqui a observação é minha - tanto no Itaú como no Bradesco o crescimento dos ganhos tem sido maior nas tarifas financeiras e nas operações com seguros, que retomaram um mínimo de normalidade. Como a qualidade do crédito está piorando, com aumento da inadimplência em ambos (2,6% no Itaú e 3,3% no Bradesco), convém acompanhar melhor a evolução da carteira das pessoas físicas (com maior participação nas operações do Itaú, lideradas pelos financiamentos do cartão de crédito, segmento em que é líder do país), é bom ter atenção para isso, ante os impactos que a escalada dos juros pode gerar.

 

Destaques em resumo pelo próprio Itaú

“O volume de crédito a pessoas físicas no Brasil cresceu 4,4% no trimestre. A carteira de cartão de crédito avançou 4,4% relacionado com conquista de clientes ao longo de 2021 e com a maior utilização do produto. O crédito pessoal cresceu 7,5%, com avanços importantes em linhas de crédito com melhores spreads, como cheque especial e crediário [risco de inadimplência, por serem as maiores taxas de juros]. A carteira de crédito imobiliário avançou 5,4%. O crescimento dessa carteira já apresentou esperada desaceleração em função do cenário de elevada taxa básica de juros”, diz o Itaú.

“As receitas de serviços apresentaram redução em função das menores receitas com cartões de crédito e débito (tanto emissor quanto adquirência) que são sazonalmente menores no primeiro trimestre. Além disso, tivemos menores receitas com (i) tarifas de conta corrente, principalmente em pacotes para pessoas jurídicas e (ii) administração de recursos, em função de menores receitas com performance fee e da menor quantidade de dias úteis. As despesas não decorrentes de juros são sazonalmente menores no primeiro trimestre e reduziram 4,2%”.

“As perdas esperadas de ativos financeiros e de sinistros aumentaram 227,4% em relação ao mesmo período do ano anterior, em função do aumento da carteira de crédito e de maiores provisões nos Negócios de Varejo no Brasil, decorrente da maior originação em produtos de crédito ao consumo sem garantias. Considerando as provisões de operações sem características de crédito, as perdas esperadas de ativos financeiros e de sinistros aumentaram em 100,4% no comparativo anual”.

 

Atacado garante o maior lucro

Vale lembrar que o Itaú Unibanco segrega em três suas operações no Brasil. O Banco de Varejo lucrou R$ 2,731 bilhões no 1º trimestre, um avanço de 8,3% frente ao 4º trimestre de 2021 e de 23,5% sobre igual período do ano passado.

O Banco de Atacado (ItaúBBA, que congrega resultados do exterior) teve lucro recorrente de R$ 3,654 bilhões, num aumento de 7,3% frente o 4º trimestre de 2021 e de 49% sobre janeiro-março do ano passado.

Já as atividades Corporativas e de Mercado foram afetadas pelas perdas de margens financeiras e baixas contábeis. O lucro trimestral foi de apenas R$ 876 milhões, com queda de 20,9% no trimestre e de 43,7% frente a igual período de 2021.



Gilberto Menezes Cortes
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