Dá para confiar em economia sobre motos?

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A pesquisa mensal de Comércio (PMC) de fevereiro, divulgada hoje pelo IBGE, surpreendeu as expectativas do mercado, que previam alta de 0,3% a 0,4% no varejo restrito (supermercados e hipermercados, comércio de combustíveis e lubrificantes, lojas de vestuário, farmácias e perfumarias, e móveis e eletrodomésticos), com aumento de 1,1%, após alta de 2,1% em janeiro. O varejo ampliado, que inclui automóveis, motos, peças e material de construção, teve desempenho ainda melhor (+2%), puxado pela alta de 5,2% em veículos, motos e peças (sobretudo motos, cujas vendas aceleraram após a alta dos combustíveis em 11 de março, com resultado ainda a ser conhecido após a inflação bater o recorde de 1,62%). Material de construção caiu 0,4%.

Além do impulso na disparada dos combustíveis (no primeiro susto após a invasão da Ucrânia pela Rússia), o aumento nas vendas de motos veio na contramão da retração das vendas de automóveis. Dá para confiar no desempenho da economia sobre duas rodas, fora de países pequenos como Holanda e Dinamarca, onde é intenso o uso de bicicletas e motos, sobretudo elétricas? No acumulado do ano os resultados não animam: o volume do varejo restrito está negativo em 0,1% e o do varejo ampliado (mais dependente do crediário) caiu 0,6%, mostrando retração ante a escalada dos juros.

 

Inflação e juros derrubam consumo

Abrindo os dados, chama a atenção o impacto duplo da escalada de preços de combustíveis e lubrificantes, alimentos e bebidas e produtos de higiene e limpeza, e da elevação dos juros básicos da economia que elevou drasticamente as taxas do crediário, com algum encolhimento de prazos (o que ampliou fortemente o valor das prestações mensais).

Até fevereiro, antes da brutal alta da gasolina e do diesel -18% e 24,9%, respectivamente -, as vendas de combustíveis caíram 3,6% sobre igual período de 2021, as de móveis e eletrodomésticos encolheram 11,9% (sendo de 14,6% a retração em eletrodomésticos), e as do comércio ampliado encolheram 0,6%, sob o impacto da contração de 8% em material de construção.

Chama a atenção na pesquisa do IBGE que a contração de vendas se deu após reajuste de mais de 10% no salário mínimo. E houve muito contraste. O estado do Amazonas, com a reativação das atividades na Zona Franca de Manaus (afetada pela crise de suprimentos em chips eletrônicos para celulares e aparelhos eletroeletrônicos), bem como a aceleração na produção de motos, liderou o crescimento. Mas em regiões do Nordeste, como Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte o baque nas vendas foi muito superior à média nacional, sobretudo no varejo ampliado, mais dependente de crédito.

 

CNI vê avanço de 0,9% no PIB e queda de 0,2% na indústria

A Confederação Nacional da Indústria divulgou hoje as novas previsões para a economia este ano. Com redução frente à projeção de alta de 1,2% feita antes da invasão da Ucrânia pela Rússia tornar o cenário mais desafiador, o Produto Interno Bruto deve crescer 0,9%, mas será puxado pelo desempenho da agropecuária e do setor de serviços (que responde por mais de 70% do PIB).

A indústria deve encolher 0,2%. Esta será a 7ª redução em 10 anos da indústria brasileira. A indústria de transformação (afetada pela crise da cadeia mundial de suprimentos de insumos e matérias-primas e pela redução do poder de compra da população com a inflação de dois dígitos) deve ter queda de 1% este ano, após crescer 4,5% em 2021 em reação ao tombo de 3,4% em 2020, ano da pandemia da Covid-19.

 

LCA vê chance de Selic não subir muito

Depois de analisar os impactos da surpresa da inflação de 1,62% em março, a LCA Consultores considerou nesta 4ª feira, 13 de abril, em revisão de cenários econômicos, que a taxa Selic poderá encerrar o ciclo de aperto monetária com alta para 12,75% em 4 de maio.

A visão, surpreendente, já que a maioria das instituições financeiras considera mais plausível que o Banco Central tenha de ir além da intenção de pausar o ciclo em maio, aponta “diversos fatores contribuem para mantermos nossa curva projetada para a Selic”.

A começar pela recente apreciação do câmbio, que tende a moderar o impacto da elevação dos preços internacionais das commodities sobre os custos na cadeia produtiva doméstica. A queda da cotação do dólar, acrescenta a LCA, contribui para manter as projeções de mercado e do próprio Banco Central para a inflação de 2023 em patamar não muito distante do centro da meta.

Mas um dos fatores da crença da LCA para a Selic (em 12,75%) “é a expectativa de que a inflação começará a desacelerar a partir do resultado de maio, que será conhecido antes da reunião do Copom de 15 de junho. É verdade que boa parte da desaceleração ocorrerá pela revisão da bandeira tarifária de energia elétrica. Mas é possível que vejamos também alguma moderação nos preços de alimentos e até de alguns bens industriais - principalmente como efeito do arrefecimento de custos propiciado pelo câmbio mais apreciado”, assinada a consultoria.

 

Economia enfraquecida

A LCA chama a atenção também para o fato de que a atividade doméstica segue enfraquecida, como indicam as pesquisas mensais do IBGE sobre a indústria e os serviços, bem como o licenciamento de veículos leves -, o que constitui outro fator a sugerir que o Banco Central poderá interromper o ciclo de aperto monetário em junho.

“Vale lembrar, de resto, que a autoridade tem enfatizado que os efeitos, sobre a atividade econômica e a inflação, da alta de juros promovida até agora ainda estão em grande medida por se materializar”.

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