Arrecadação: inflação compensa PIB menor

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O Ministério da Economia apresentou ontem a avaliação de receitas e despesas primárias do 1º bimestre, para a revisão do orçamento de 2022. Comparado com a lei orçamentária anual (LOA 2022), aprovada no fim do ano passado, a maior revisão ocorreu do lado das receitas: +R$ 87 bilhões na receita total e +R$ 42 bilhões na receita líquida. De cara, ficou claro o excesso de otimismo nas previsões do crescimento da economia em 2022.

O PIB previsto iria crescer 2,1% em 2022, mas foi reduzido para 1,5%. A perda de 0,6% (28,57%) está sendo largamente compensada na arrecadação pela disparada da inflação (sobretudo nos derivados de petróleo, devido ao impacto inicial da invasão da Ucrânia pela Rússia: o barril do óleo tipo Brent estava estimado em US$ 77,4 e foi a US$ 103,4 - e os impactos continuam em março e provavelmente se estendem até maio-junho). A previsão era de que o IPCA de 2022 cairia dos 10,06% de 2021 para 4,7%, mas o governo já revisou o dado para 6,5%, ou seja, uma diferença a mais de 1,8 ponto percentual.

Após revisão de R$ 33 bilhões na despesa, o déficit esperado pelo governo federal passou de -R$ 76,2 bilhões (-0,8% do PIB) para -R$ 66,9 bilhões (-0,7% do PIB). Dada a revisão na despesa, a LCA Consultores diz que “será necessário um bloqueio de R$ 1,7 bilhão em gastos discricionários para que a composição total seja mantida dentro do teto de gastos. Feita a atualização do 1º bimestre, o governo deve publicar um decreto de reprogramação financeira até o final do mês, para efetivar as revisões contidas no relatório”.

Na abertura, a revisão da arrecadação foi concentrada na Receita Não Administrada pela Receita Federal, em dividendos, sobretudo Petrobras (+R$ 12,9 bilhões) e na exploração de recursos naturais (+R$ 38,6 bilhões), relacionada às receitas com royalties e participação especial do petróleo. Essa conta atingiu a projeção de R$ 134,5 bilhões para o ano.

O preço médio do petróleo, usado nessa projeção, passou de US$ 77,4 / barril para US$ 103,4 / barril. “Mesmo já consideradas as desonerações de IPI e PIS/Cofins sobre diesel, causa certa estranheza a revisão negativa na Receita Administrada (-R$ 3 bilhões), que apesar de ser influenciada pela revisão negativa do PIB, deveria ter sido mais do que compensada pela forte revisão dos números de inflação (IPCA e IGP-DI)”, assinala a LCA Consultores.

As alterações nas despesas foram concentradas em Créditos Extraordinários (+R$ 23,8 bilhões), com a reabertura de créditos de 2021 para gastos com saúde, e na rubrica de Subsídios (+R$ 5,1 bilhões). Para a LCA “ambas as despesas parecem superestimadas, e não devam ser executadas completamente até o fim do ano”, adverte.

 

LCA: Copom pode encerrar ciclo de alta em maio, ou não

Ontem, após a leitura da Ata do Copom, o Itaú reviu sua previsão de alta da Selic este ano, de 13% para 13,75%, com mais uma alta de 1,00 p.p. em maio e duas de 0,50 p.p. em junho e em 3 de agosto, já no 2º semestre. Hoje, a LCA Consultores também reviu suas previsões, lembrando que a forte valorização do real “pode vir a ajudar a mitigar, nas cadeias de produção domésticas, as pressões de custos oriundas do encarecimento adicional de matérias-primas (energéticas, metálicas e agropecuárias)”.

O Copom já indicou nova alta de 100 pontos-base na reunião de 04 de maio. Mais, ele indicou que esse ajuste adicional seria adequado "para atingir aperto monetário suficiente e garantir a convergência da inflação ao longo do horizonte relevante, assim como a ancoragem das expectativas de prazos mais longos". Na visão da LCA, o Banco Central estaria “inclinado a encerrar o ciclo de aperto monetário com a Selic em 12,75% ao ano”, mas o próprio Comunicado "reconhece o cenário desafiador para a convergência da inflação para suas metas e reforça que (o Copom) estará pronto para ajustar o tamanho do ciclo de aperto monetário, caso o cenário evolua desfavoravelmente".

A LCA considerava, em seu cenário base, que a Selic seria elevada a 13% ao ano até junho. “Reconhecemos que é relevante a probabilidade de que o ciclo se encerre com a Selic em 12,75%, como sinaliza a ata do Copom. Mas como a inflação deverá seguir desconfortável no curto prazo, em meio à persistência de incertezas externas, consideramos também ser relevante a probabilidade de que o ciclo conte com um ajuste adicional maior do que ora projetamos. Ou seja, nos parece que há probabilidades semelhantes a um cenário em que o ciclo se encerra com a Selic em 12,75% e a outro em que a taxa básica de juros poderá ser elevada em outros 50 pontos, para 13,25%”.

 

Campos Neto olha copo meio cheio

Em palestra no ciclo TCU/Fiesp, esta manhã, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto (que em seguida participaria de evento em vídeo conferência do BIS, o Banco Central dos Centrais, onde também falaria o presidente do Fed, Jerome Powell) deu interessante visão das consequências do conflito gerado pela invasão, há um mês, da Ucrânia pela Rússia, que assumiu “proporções muito maiores do que as inicialmente previstas”

Campos sublinhou ter a guerra gerado o “maior conjunto de sanções da história”, impostas à Rússia por governos e organismos internacionais, além de auto-sanções de mais de 320 empresas. Mas alertou que “o choque de oferta decorrente do conflito tem potencial de exacerbar as pressões inflacionárias que já vinham se acumulando tanto em EMEs como em AEs”, com “importantes implicações para a economia global, independentemente de seu desfecho”.

Para ele, “o ambiente externo se deteriorou substancialmente com o conflito”, que terá implicações na crise energética. A curto prazo (com as dificuldades de acesso ao gás da Rússia, que poderia ser um elemento de transição na matriz energética) aumentam “os desafios na transição para uma economia verde”. Mas Campos Neto vê oportunidades de longo prazo no copo meio cheio.

Maior incentivo para utilização de fontes de energia alternativas, com o “redesenho das matrizes energéticas” e “mudanças nos sistemas de produção”. O presidente do Banco Central acredita que depois do susto da Covid-19 a dura realidade da guerra provocará a “reorganização das Cadeias Globais de Valor”, com efeitos sobre produtividade e crescimento global.

Na nova “Divisão das cadeias globais”, vislumbra “Concentração dos fluxos de comércio” em dois segmentos: Energia e Alimentos. A maior concentração de negócios dentro do Bloco Ocidental (historicamente o maior destino das exportações brasileiras, que se deslocaram para a China, que assumiu mais de 33% das exportações no século 21) “pode representar oportunidade para o Brasil”. Mas, digo eu, a economia brasileira tem de se reformar e ser eficiente para voltar a crescer - o que não acontece há uma década.

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