Santander calcula 'custo' da alta dos juros

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Após o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) manter o ritmo de aperto da Selic (elevada ontem em 1,5 ponto percentual, para 9,25% ao ano, e sinalizar nova alta de igual magnitude para 2 de fevereiro, quando a Selic chegaria a 10,75% a.a.), dentro da estratégia de avanço “em terreno contracionista nos próximos meses”, os analistas do mercado financeiro passaram a rever a trajetória futura da Selic e seus impacto na economia real, na vida das empresas, na renda das famílias e nos empregos.

Bradesco - Sem arriscar previsões, o banco, que ainda não alterou sua projeção de que a Selic feche 2022 em 10,25% ao ano, transcreveu o trecho do comunicado do Copom de que “na ótica a ótica do modelo da autoridade monetária, as projeções para o IPCA apontam para elevações de 10,2% em 2021, 4,7% em 2022 e 3,2% em 2023, considerando uma trajetória de juros que se eleva para 9,25% neste ano e para 11,75% no ano que vem, encerrando 2022 em 11,25% e se reduzindo para 8,00% em 2023”.

Itaú - Lembra que o comitê sugere que “se necessário, o ciclo pode se estender bastante em 2022. Por enquanto, mantemos a previsão de fim do ciclo em 11,75% a.a., o que é consistente com as projeções apresentadas no comunicado, com altas de 1,5 p.p. em fevereiro e 1,0 p.p. em março” O banco aguarda a divulgação da ata do Copom (dia 14 de dezembro) e a divulgação, no dia 16, do Relatório Trimestral de Inflação de dezembro, que aprofundará ainda mais a visão das autoridades” sobre a trajetória da inflação e dos juros.

LCA Consultores - “Mantemos avaliação de que a Selic será elevada a 11,75% ao ano até o final do 1º trimestre de 2022 - nível de juros que nos parece compatível com condições monetárias em "terreno significativamente contracionista"; e reiteramos que o ciclo de aperto será interrompido no 2º trimestre de 2022, a partir de quando as expectativas de inflação para 2023 passarão a preponderar nas decisões de política monetária”.

Santander - Num ato de contrição, lembrando que as expectativas de inflação no começo do ano e da trajetória da Selic foram superadas (o IPCA atingiria seu pico de 6,5% em maio, “declinando gradualmente para valores próximos ao centro da meta até o final do ano” - e agora na revisão do começo de dezembro, com “a dispersão dos choques inflacionários (...) em preços administrados (eletricidade e gasolina), o banco espanhol estima que a inflação “experimente um platô ao redor de 11% encerrando 2021 em 10,5% e convergindo rapidamente para 5,8% no final de 2022, para alcançar o centro da meta apenas em 2024”, o que condicionou a revisão para cima dos juros (no início de 2021 o Santander acreditava que o BC “iria realizar uma normalização parcial da taxa Selic - alcançando cerca de 5% no final desse ano -, agora projetamos política monetária em instância fortemente contracionista, alcançando (...) 12,25% no 1º trimestre de 2022.

 

CNI critica custos da alta de juros

Ontem, tão logo o Copom elevou os juros, a Confederação Nacional da Indústria, segmento que amarga, até outubro, a quinta queda mensal seguida de produção, criticou a intensidade da escalada dos juros, informando que já se nota desaceleração acentuada na produção e no consumo de bens.

Hoje, a Fundação Getúlio Vargas divulgou a 1ª prévia do IGP-M de dezembro, com deflação de 0,22%, que revela acomodação dos preços não administrados (o cerne do problema). Eles subiram 19,3% em 12 meses até novembro, puxados por combustíveis e energia elétrica, insumos industriais importantes, cujos preços subiram 11,9%. A alta dos preços é concentrada na energia, combustíveis e commodities, sob influência da retomada da economia mundial, a partir do avanço da vacinação (com solavancos da nova variante ômicron). Os preços do minério de ferro já voltaram ao patamar pré-pandemia.

Os preços livres (sobre os quais, teoricamente, deveria atuar a política monetária) subiram 8,2% até novembro (menos da metade dos administrados). Os preços dos alimentos em domicílio subiram 10,2%. Já os preços dos serviços (ainda em retomada de ritmo) subiram apenas 5%.

 

As contas dos estragos futuros

Depois de lembrar que a escalada da inflação no Brasil (puxada pela alta do barril de petróleo, que passou de US$ 85, contra a estimativa inicial de US$ 65, e foi amplificada pela desvalorização do real/alta do dólar), o Santander frisa que isso trouxe um alívio temporário (e ilusório) na arrecadação.

“Inicialmente estimávamos dívida/PIB se aproximando de 90% no final de 2021, agora estimamos em 81,8%, seguindo para 86,6% no final de 2022”, o banco espanhol adverte para a “trajetória ascendente para a dívida [bruta] compatível com cenários anteriores à aprovação do teto de gastos, voltando a rondar os 100% do PIB por muito tempo”. A deterioração da capacidade de solvência do Tesouro Nacional exigirá juros maiores e mais despesas na rolagem da dívida.

Com o aumento do risco e a piora das condições financeiras, rebaixamos pela quarta vez a nossa projeção de PIB para 2022, de 2% até julho para 0,7% agora, em dezembro. E, dadas as atuais condicionantes, consideramos na trajetória de longo prazo da dívida pública as estimativas de resultado primário ao longo do ano, estimamos em -0,2% o PIB de 2023, abaixo do PIB potencial, estimado em 1,5% a.a.

 

Juros da dívida vão aumentar R$ 240 bilhões

Nos cálculos do Santander, o aumento da taxa Selic (e dos demais indexadores da inflação - há taxas atreladas à inflação, ao câmbio e a taxas pré-fixadas, que sobem acompanhando as projeções da inflação e dos juros - poderá trazer incremento de 9 p.p sobre a dívida bruta do país, com um maior custo de rolagem médio anual em pouco menos de 3 p.p., equivalente a R$ 240 bilhões a.a. em conta maior de juros.

 

Perdas de R$ 300 bilhões no PIB até 2023

O banco espanhol, 3º banco privado do país, considera que a alta dos juros vai afetar o crescimento da economia, atingindo mais as pequenas e médias empresas, a renda das famílias (a fatia hoje comida pela inflação será devorada pelo maior custo do crédito) e vai afetar o mercado de trabalho.

“Podemos traduzir o impacto geral dessa deterioração para o conjunto da economia em cerca de R$ 300 bilhões até 2023”. E o banco decompôs o impacto:

“Traduzindo para o mercado de trabalho, o Brasil deixará de gerar 1,5 milhão de empregos nos próximos dois anos, ou mais de R$ 3 bilhões em massa de salários, por mês [R$ 39 bilhões em um ano, considerando o 13º salário].

 

Setor financeiro volta a concentrar renda

A transferência de renda das famílias e do setor produtivo para o sistema financeiro e os rentistas (fundos de pensão e os fundos de investimentos nos quais os mais ricos aplicam dinheiro) será das maiores nos últimos anos, aponta gráfico do Bradesco, exclusivamente sobre o custo dos juros no déficit público nominal.


Macaque in the trees
. (Foto: reprodução)


 

Famílias e empresas gastarão mais R$ 750 bi em juros

O Santander calcula que “´para as famílias e empresas, considerando-se o respectivo endividamento, o pagamento maior em juros seria de 40%, ou de R$ 750 bilhões em dois anos, no total de ambas as carteiras”.

A filial brasileira sabe do que está falando: nos últimos anos o Santander Brasil respondeu por quase 30% dos lucros globais da organização controlada por Ana Botin. Se junto com a alta dos juros não vier um estouro [previsível] na inadimplência, a fatia do Brasil voltará a crescer.

A análise do Departamento de Estudos Econômicos do Santander, chefiada pela economista Ana Paula Vescovi, que foi Secretária do Tesouro Nacional no governo Temer, é taxativa:

“Os riscos adicionados à economia brasileira em 2021 deverão custar muito para as empresas, principalmente as médias e pequenas, para as famílias, especialmente as mais endividadas e que não tem folga para poupar, e para jovens e desempregados que deixarão de encontrar oportunidades no mercado de trabalho. É isso o que nos revela o balanço dos cenários de 2021 e a herança que será deixada para os próximos anos”.

Salve-se quem puder.

 

A salvação pela lavoura

Nem tudo está perdido, porém. Os levantamentos da Companhia Nacional de Abastecimento (3ª sondagem) e do IBGE sobre as estimativas da safra de grãos 2021/22, a ser colhida a partir de fevereiro do ano que vem, são promissores. O IBGE estima safra recorde de 278 milhões de toneladas (+ 10,5%, ou 25,2 milhões de toneladas) para 2022. Soja, milho e arroz puxam o crescimento. Isso pode assegurar redução nos preços dos alimentos.



A banqueira espanhola Ana Botín, dona do Santander
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Gilberto Menezes Cortes


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