Piorar é pouca para definir expectativas

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Nada mais frustrante, em Economia, do que o desmoronamento das expectativas. Por ser um processo dinâmico, quase dialético de causa e efeito, as projeções na Economia vivem de ajustes permanentes (para cima ou para baixo) nas projeções macroeconômicas. E estes ajustes têm impacto diretor e indireto na economia real. Vão determinar maior ou menor cautela dos empresários nos investimentos e na contratação de pessoal.

Do mesmo modo, os investidores no mercado financeiro dividem suas aplicações entre as diversas cestas de investimento – se a inflação aponta sentido de queda, crescem as aplicações em renda pré-fixada (o investidor ganhará mais juro real (descontada a inflação) se ela cair e os investidores arriscam mais nas aplicações de renda variável (ações, principalmente).

No sentido inverso, se a inflação dispara, há perda de renda das famílias, redução do consumo e contração da economia, pois o Banco Central terá de elevar os juros básicos da economia. Juros mais altos travam o consumo e o investimento e tornam mais difícil (e cara) a abertura de capital das empresas em Bolsas de Valores. Por isso a inflação costuma ser nociva ao mercado acionário, pelas consequências negativas que arrasta consigo.

O problema se torna maior quando há desequilíbrio externo em uma economia (exportações menores que as importações, com déficits no balanço de pagamentos). E piora ainda mais quando há déficit público saindo do controle.

Na economia brasileiro o 3º milênio tem sido favorável nas contas externas, mas o desequilíbrio fiscal tornou-se crescente e se agravou com os problemas causados pela pandemia da Covid-19: o governo teve de ampliar os gastos sociais e a necessidade de redução da circulação para conter o vírus (as vacinas só ficaram disponíveis a partir da 2ª metade de janeiro) reduziu os volumes de produção e de serviços. O descontrole da inflação atingiu em cheio as famílias. Mas a escalada dos preços dos combustíveis e dos alimentos, bem como dos produtos importados, face à desvalorização do real, aumentou a arrecadação a ponto de ser possível reduzir o déficit público previsto em R$ 132 bilhões para R$ 95 bilhões em 2021.

 

Bovespa vira de ponta cabeça

Mas a frustração das expectativas ajuda a explicar o vai e vem no mercado acionário. Depois de fechar 2020 em 119 mil pontos, o índice Bovespa atingiu o ápice em 7 de junho, quando foi a 130,776 mil pontos. Uma valorização de 9,8%. E as apostas do mercado eram de que o Ibovespa fecharia o ano em 145 mil pontos, com uma valorização de 21,8%.

Isso era alicerçado na revisão para cima do crescimento do PIB, que passou de 3,8% em março, para 5,8% na visão do Departamento de Estudos Econômicos do Itaú. E, apesar de a inflação acelerar dos 4,7% iniciais para 6,1% em julho, a previsão sobre a Selic de dezembro deste ano subiria apenas de 5,50% ao ano em março para 6,5% em julho. Mas a euforia durou pouco e começou a derreter ainda em julho.

Com a frustração das projeções para os fundamentos econômicos a partir de junho, o Ibovespa virou de posição no 2º semestre. No dia 23 dezembro, o Ibovespa estava em 102,7 mil pontos. Uma queda de 21,45% frente ao recorde registrado em junho. Em uma queda que praticamente 30% comparada à aposta de que fecharia o ano em 145 mil pontos.

 

Reversão de expectativas

Recorrendo apenas às previsões mensais do Depec Itaú, é possível ver que as piores frustrações para 2021 e 2022 estão na inflação (que exige juros mais restritivos e esfria a economia e o PIB).

Entre a previsão de um IPCA para 2021 de 4,7% em março, para os 10,1% previstos em novembro, a boca do jacaré abriu 2,15 vezes. Um aumento de 115%.

Já a previsão do PIB, que estava em 3,8% em março, foi aumentando com o avanço da vacinação e a retomada das atividades de serviços (que representam 70% da economia brasileira) e o Itaú chegou a prever crescimento de 5,8% em julho. Esse aumento de 52% durou pouco.

Já em agosto cortou para 5,7%, para 5,3% em setembro, 5% em outubro e 4,7% em novembro. Um aumento de 23% sobre as previsões de março, para uma retração de 19% em comparação com a visão mais otimista.

 

A lentidão do Banco Central

No sentido inverso, a marcha das projeções de alta da Selic até dezembro deste ano mostra que o Banco Central operou com atraso e pouca energia para acompanhar a reversão das expectativas. Dos 5,50% da Selic estimada em março aos 9,25% previstos em novembro para a taxa básica de juros, houve um aumento de 68%, quase metade da boca de jacaré de 11t% do IPCA.

A deterioração de expectativas se repete para 2022 e se estende até 2024.

Em março, o Itaú esperava 3,6% de inflação para o ano que vem, nível alterado para 4,7% (variação de 30%) em novembro.

Já o crescimento do PIB, estimado em 1,8% em março, chegou a ser revisto com otimismo até 2% em julho. Mas, a partir daí, com o descontrole da inflação, a necessidade de aumento dos juros e o risco da crise hídrica comprometer a oferta (e o preço) da energia elétrica também em 2022, o Itaú trocou o otimismo declinante (a previsão do PIB baixou a 0,5% em setembro e virou negativa em 0,5% a partir de outubro).

Quanto à taxa Selic, o Itaú esperava inicialmente 5,50% ao ano em dezembro de 2022, foi elevando a taxa a 6,50% em julho, para 7,50% em agosto, 9% em outubro e, em novembro, passou a esperar que os juros cheguem a 11,75% em 16 de março e fiquem assim até dezembro.

Macaque in the trees
. (Foto: .)



Gilberto Menezes Cortes
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