SPE reduz previsões, mas não evita o vexame

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Já não era sem tempo. Depois de todas as pesquisas do mercado indicarem queda do PIB e aumento da inflação a um nível de dois dígitos, que está levando o Banco Central a intensificar (tardiamente) a alta dos juros básicos (taxa Selic), a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia, comandada por Adolfo Sachsida, resolveu hoje, 17 de novembro, ajustar para baixo os números do Produto Interno Bruto previstos para 2021 e 2022 e elevar as projeções do IPCA.

Entretanto, como o BC, a SPE segue correndo atrás de resultados que desmentem sucessivamente suas previsões. Subordinada ao ministro Paulo Guedes, a SPE reduziu a alta do PIB de 2021 de 5,3% para 5,1% e a de 2022, de 2,5% para 2,1%. Em Dubai, o ministro Paulo Guedes disse que o PIB estava crescendo 5,5%. Todas as projeções do mercado financeiro são abaixo disso.

Na Pesquisa Focus apurada pelo Banco Central até dia 12 e divulgada dia 16 de novembro, o mercado reduziu para 4,88% e para 4,83 (nas previsões dos últimos dias úteis) os números do PIB deste ano. Para o ano que vem, as projeções foram de 0,93% e 0,88% nos últimos cinco dias úteis). Com os problemas fiscais causados pela PEC dos Precatórios, o mercado já vê com pessimismo os anos de 2023 e 2024, quando espera que o PIB suba só 2%.

Enquanto isso, o IPCA deste ano, foi novamente elevado: em junho, o governo espera 5,9%; em setembro, aumentou para 7,9% a previsão de 2021 que agora foi revista para 9,7%. Para não ser atropelado pelos fatos, pelas evidências, a SPE resolveu ajustar a projeções da inflação de 2022, agora para 4,7%. Em setembro, o governo esperava 3,75% (que era a meta de inflação de 2021).

Na última pesquisa Focus, o mercado esperava 9,77% na mediana da inflação, que chegou a 10,10% nas projeções dos últimos dias úteis. Para 2022, a Focus apontou alta de 4,70% e 4,90% (nos últimos duas úteis), elevando os números de 2023 para 3,33% e o de 2024 para 3,09% (as metas de inflação do Banco Central são de 2,50% em 2022, de 3,25% em 2023 e de 3% em 2024, com tolerância de 1,5 pontos percentuais para cima ou para baixo). Ou seja nas projeções do mercado as metas foram estouradas em 2020, 2021 e estariam no limite em 2022. Na visão do Itaú e da LCA, a inflação passa de 5% em 2022.

 

O desencanto com a economia

Quem poderia imaginar, no começo de 2021 o atual efeito gangorra na economia brasileira? Enquanto a marcha da produção de bens e serviços (vulgo PIB) desce ladeira abaixo, para este ano e o ano que vem, a inflação dispara para a faixa de 10% (mais do que o dobro do PIB esperado este ano, que em fevereiro chegou a apresentar a projeção de crescimento acima do IPCA), obrigando o Banco Central a pisar no freio dos juros altos (atrasado e quase provocando capotamento), os sinais para 2022 e 2023 são de recessão (o Itaú espera recessão de 0,5% e a LCA e o Santander ainda esperam avanço de 1%), que cairia a zero em 2023, segundo o Santander.

A LCA Consultores vinha acompanhando a situação com otimismo e considera que o ajuste da PEC dos Precatórios (ainda dependente de aprovação no Senado) pode fazer refluir as perspectivas negativas para o risco Brasil (e as taxas de juros e o câmbio), assim como as chuvas recentes no Sudeste e Centro-Oeste, além de garantir uma ótima safra de grãos em 2022, afasta o pior cenário de racionamento de energia elétrica no começo de 2022. Nem por isso o “Cenário LCA”, de 16 de novembro, afastou o viés de baixa na economia para o ano que vem, quando haverá a turbulência da campanha eleitoral.

A consultoria considera que “os indicadores recentes de atividade têm trazido resultados frustrantes, apesar da progressiva melhora na situação sanitária. Os resultados de setembro das pesquisas de atividade do IBGE mostraram contração mensal na indústria, no comércio varejista e no setor de serviços. Adicionalmente, o índice de atividade do Banco Central – o IBC-Br, que procura antecipar a evolução mensal do PIB – tem indicado que a economia doméstica vem “andando de lado” desde o final do 1º trimestre”.

e sugere que, no 3º trimestre, o PIB (que o IBGE divulga em 2 de dezembro) pode ter repetido “o desempenho pífio observado no 2º trimestre” (queda de 0,1% no PIB). Para a LCA, “a perda de dinamismo da economia doméstica é reflexo de uma série de fatores – externos e, sobretudo, internos”.

No exterior, os gargalos de oferta nas cadeias globais de suprimento têm prejudicado a produção de muitos setores industriais, sobretudo daqueles que utilizam componentes eletrônicos. Esses gargalos globais vêm exercendo pressões de custos na cadeia produtiva doméstica, impulsionando a inflação. A pressão de custos e a aceleração da inflação vêm sendo amplificadas pela depreciação do câmbio doméstico – que é, em parte, resultado do ambiente externo gradativamente menos benigno aos emergentes”. Mas o comportamento desfavorável do câmbio também está associado a uma piora na percepção de risco da economia brasileira, reflexo do aumento de incertezas na seara fiscal.

Com isso, prevê que “a inflação deverá encerrar 2021 na casa dos 10% (muito acima do patamar de 5,25% que representa o teto da meta estabelecido para este ano). A expressiva aceleração da inflação em 2021 vem provocando forte deterioração de expectativas inflacionárias para o próximo ano: a mediana das projeções de mercado para a alta do IPCA em 2022 se aproxima dos 5% que representa o teto da meta para o ano que vem”.

Ainda mais preocupante, as expectativas de inflação para 2023 vêm começando a registrar elevação, embora ainda permaneçam próximas ao centro da meta (3,25% com tolerância até 4,75%), assinala a consultoria.

Nessas circunstâncias, o Banco Central vem promovendo um ajuste rápido da taxa básica de juros e vem sinalizando que avançará com a política monetária para terreno claramente restritivo – o que continua a instigar revisões para baixo nas projeções de mercado para o crescimento do PIB”.

 

LCA vê risco de recessão em 2022

“(...) Houve uma atenuação na percepção de risco fiscal para 2022 depois que a Câmara dos Deputados aprovou a PEC dos Precatórios, trazendo algum alívio para os mercados domésticos de câmbio e juros. Se for aprovada também pelo Senado (...), a PEC dos Precatórios encerrará as discussões orçamentárias para 2022 e reduzirá a incerteza sobre a trajetória fiscal de curto prazo” Ao lado da redução de riscos energéticos (uma vez que o bom regime de chuvas que vem sendo observado neste 4º trimestre está ajudando a aumentar os níveis dos reservatórios das hidrelétricas), poderá contribuir para interromper a deterioração das expectativas na economia doméstica”, diz.

“Mas é preciso reconhecer que o risco de recrudescimento de tensões internas permanece significativo, de modo que continuamos a atribuir probabilidade relevante a um cenário alternativo adverso, em que a economia tenderia a sofrer uma recaída recessiva em 2022”, adverte a LCA Consultores.

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