Copom ouve do mercado que foi fraco

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Na 6ª feira, 5 de novembro, o Departamento de Estudos Econômicos do Bradesco, que parecia a “velhinha de Taubaté”, por ser o mais crédulo na política econômica e na capacidade do Ministério da Economia e do Banco Central em domarem as pressões inflacionária, já jogara a tolha e jogou para baixo as projeções do PIB para 2022 e 2023, enquanto elevava as projeções da taxa Selic, na esteira do aumento da inflação do IPCA. Mas hoje, ao fazer uma teleconferência com operadores do mercado, os membros do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) ouviram queixas de que foi fraco e tímido ao só elevar em 1,50 ponto percentual (antes o patamar era de 1 p.p.) a Selic em 27 de outubro.

Coube ao diretor de Política Monetária, Bruno Serra, um dos nove membros do Copom, reconhecer que a reação do mercado foi de decepção na semana passada e admitir que o Copom, se precisar, terá de ser mais agressivo e enérgico na próxima reunião de 7 de dezembro. Nós, aqui na coluna, estamos dizendo há muito tempo que o Banco Central está “correndo atrás do rabo da inflação”. Ou seja, nunca dá o bote necessário para tomar-lhe a frente e, com isso, as expectativas do mercado seguem pessimistas.

O comportamento do dólar entre a abertura e o fechamento refletiu isso: às 9 horas, o dólar estava cotado a R$ 5,5780, mas logo subiu a R$ 5,5890, às 10 horas. A partir do momento em foi conhecida a entrevista de Serra ao site de uma agência de notícias japonesa (na 5ª feira, 4 de novembro) e reconhecida pelo próprio na conversa com os operadores do mercado, as cotações foram descendo. Ao fim do dia o dólar era cotado a R$ 5,5410, com baixa de 0,03% frente ao fechamento de 6ª feira.

Mas não podia ter feito isso (ser mais agressivo, de fato), na reunião do Copom de 27 de outubro? Ou na de 22 de setembro? ou ainda na de 4 de agosto? Tudo já poderia ter sido abreviado se em 17 de março - em vez do salto do patamar de 0,50 pontos percentuais a cada reunião, o Copom pulou para 0,75 p.p. (dosagem repetida nas reuniões de maio e junho) - não saltasse logo para 1 p.p., que passou a adotar sé em 4 de agosto? Muita gente pode dizer que o arremedo de controle fiscal só ruiu quando o teto de gastos virou conversível para abrigar mais gastos para o Auxílio Brasil em fins de outubro. E assim, “ser engenheiro de obra feita é fácil”. Mas, pelo menos a contenção do dólar abaixo de 5% teria evitado o salto descontrolado da inflação.

Ao justificar a sua drástica mudança de projeção de crescimento para 2022 e 2023, com mais inflação e juros mais altos (até o dia 5 o Bradesco esperava crescimento de 5,2% no PIB deste ano, de 1,6% em 2022 – era de 1,8% até 1º de outubro) e reduziu a projeção de 2022, que era de 1,8% até setembro, para 1,6% em outubro e 0,75% em novembro [é ainda das mais otimistas, pois o Itaú espera retração de 0,5%], com inflação subindo para 9,42% este ano (era de 9% até outubro) e para 4,49% em 2022 (era de, respectivamente 9% e 3,8% em outubro), com Selic de 8,25% em 2021 e 8,50% ao ano em dezembro de 2022 – passando a esperar Selic de 9,25% este ano e de 10,50% em 2022 (depois de atingir 11,25% no 1º trimestre), o Depec Bradesco considerou que a “Desancoragem fiscal ameaça crescimento e inflação de 2022”. E acrescentou:

“As mudanças na regra do teto de gastos aprovadas em primeiro turno na Câmara dos Deputados ameaçam a principal âncora fiscal do país. (...) a proposta de mudança no indexador do teto, ainda que o preserve formalmente, enfraquece o poder de sinalização dado pela constitucionalização da regra. Ou seja, como haviam alternativas superiores à mudança do indexador – capazes de proteger os mais vulneráveis e as regras fiscais – o anteparo constitucional da regra do teto perde força, elevando, naturalmente, os prêmios de risco”

Tudo o que o Bradesco afirmou no “Cenário Econômico” de 5 de novembro, foi reafirmado por analistas do mercado aos membros do Copom nesta 2ª feira.

“A principal consequência no curto prazo é o aumento da incerteza e a piora das condições financeiras, com depreciação da taxa de câmbio, queda da bolsa e abertura das curvas de juros, impactando negativamente, assim, as perspectivas para o crescimento econômico e a inflação. O câmbio deve continuar incorporando o risco fiscal e as incertezas sobre a política econômica dos próximos anos. Ainda que as commodities no mercado internacional continuem dando suporte aos termos de troca brasileiros e mesmo diante da expectativa de maior aperto monetário por parte do Banco Central, a moeda brasileira deverá se manter depreciada neste ano e no próximo”, diz o Bradesco.

Se o Banco Central ouvisse mais, ou melhor, auscultasse mais assiduamente o mercado, já teria percebido, há algum tempo, que não estava agradando a política fiscal errática e sem compromisso com a austeridade do governo Bolsonaro. Se houve melhora na arrecadação fiscal (e no déficit primário – receitas menos despesas, sem considerar os custos das dívidas públicas internas e externas), isso se deu por um fato negativo: a escalada da inflação de alimentos, dos insumos energéticos e dos combustíveis. Como isso obriga o Banco Central a elevar mais drástica (e tardiamente) os juros, o efeito será o forte aumento dos custos nominais da dívida. Pode-se prever de R$ 100 a 140 bilhões de acréscimo no custo da dívida em 2021 e 2022.

Câmbio segue pressionado

Para o Bradesco, “o câmbio deve continuar incorporando o risco fiscal e as incertezas sobre a política econômica dos próximos anos. Ainda que as commodities no mercado internacional continuem dando suporte aos termos de troca brasileiros e mesmo diante da expectativa de maior aperto monetário por parte do Banco Central, a moeda brasileira deverá se manter depreciada neste ano e no próximo. Adicionalmente, as perspectivas de menor crescimento global em 2022 e o início da retirada de estímulos monetários nos EUA tendem a contribuir com o enfraquecimento das moedas emergentes”.

O banco prevê que “o dólar encerre este ano cotado a R$/US$ 5,50 e o ano que vem a R$/US$ 5,70. A definição das linhas gerais da política econômica de 2022 e de 2023 poderá ter impacto significativo na cotação da moeda, em ambas as direções. A pressão do câmbio e a persistência da inflação corrente elevada também contribuem para a piora das expectativas. Não apenas o IPCA continua surpreendendo negativamente, como as altas permanecem bastante disseminadas. Ainda que o aumento dos serviços ligados à reabertura da economia já fosse esperado, os demais preços também se mantêm em elevação. Destaque para os bens industriais, que persistem com variações próximas a 1,0% ao mês, sem sinais de desaceleração, e para os alimentos, que seguem acima de sua tendência de longo prazo. Tais comportamentos, em adição à piora dos fundamentos fiscais, sugerem riscos adicionais para a projeção de inflação de 2022, como a normalização mais lenta da oferta na indústria e o repasse mais intenso no setor de serviços”. Por isso, o Bradesco reviu a projeção para o IPCA de 2021 e 2022, para 9,4% e 4,5%.

Focus vê piora até 2023

E a Pesquisa Focus, divulgada nesta 2ª feira pelo Banco Central, com projeções das instituições financeiras até a 6ª feira, 5 de novembro, seguiu mostrando a escalada da inflação do IPCA deste ano: de 9,17% para 9,33% na mediana do mercado e 9,46% nos últimos cinco dias úteis. Para 2022, a taxa subiu de 4,55% para 4,63%, com baixa para 4,60% nos últimos cinco dias. Para 2021 o IPCA está sendo esperado em 3,27%.

A taxa Selic é esperada em 9,25% este ano (estável em relação à semana anterior), mas foi elevada de 10,25% para 11% a projeção para 2022. Para 2021, a projeção aumento de 7,25% para 7,50% ao ano.

Com o dólar estimado em R$ 5,50 em 2021 e 2022 (projeção inalterada), houve redução das projeções de crescimento do Produto Interno Bruto, de 4,94% para 4,93% em 2021 (nos últimos cinco dias a expectativa sobre o PIB caiu para 4,92 (há um mês era de 5,04%). Para 2022, as projeções caíram de 1,20¨% para 1% (0,99% nos últimos cinco dias, uma boa revisão para baixo, pois há um mês o mercado espera alta de 1,54% no PIB. Para 2023, espera-se alta de 2% no PIB (era de 2,20% há um mês). A deterioração das expectativas se estendeu até 2024, quando a previsão de alta do PIB encolheu para 2,05% (era de 2,46% há 30 dias).

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