Focus: crescimento? Só de inflação e juros, para 8%

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O pessimismo sobre a economia se instalou no mercado financeiro (com a deterioração do quadro político). Enquanto as projeções de inflação não param de crescer – a taxa de 12 meses, que atingiu 9,6% em agosto, deve subir mais em setembro (quando o Itaú espera IPCA de 1%, que elevaria a taxa anual a 10%), mas cair no último trimestre devido à base de comparação muito alta em 2020: 0,84% em outubro, 0,86% em novembro e 1,35% em dezembro, reduzindo a taxa de 2021 para 8%, o que arrastaria a alta dos juros básicos (taxa Selic para o mesmo patamar, mantido para 2022), as projeções para o PIB de 2021 e 2022 não param de cair.

A Pesquisa Focus apurada pelo Banco Central junto a mais de 100 instituições financeiras, institutos de pesquisa e consultorias até o dia 10 e divulgada nesta 2ª feira, 13 de setembro, reduziu a taxa esperada para o aumento do PIB deste ano para 5,04% (há um mês era de 5,28%) e a de 2022 encolheu para 1,72 (há um mês era de 2,04%). O ambiente de recrudescimento da inflação deixa o Banco Central numa sinuca de bico: já há muitas apostas de que para chegar os 8% na Selic este ano e tentar reverter a taxa de câmbio, que continua jogando combustível na inflação, o Copom aumente a Selic, hoje em 5,25% ao ano, em mais de 1 p.p. na reunião de 22 de setembro. Há apostas de até 1,50%. A média dos que apostam em algo acima fica com um tranco de 1,25%.

Oportunidade perdida

Esta coluna e o JB on line defendiam, em março, uma escalada mais drástica para reverter a taxa de câmbio que é o principal fator de pressão altista sobre alimentos, combustíveis (veiculares e domésticos) e da energia elétrica (que já tem cerca de 33% da geração hidroelétrica vinda de Itaipu Binacional referendada em dólar e agora, diante da crise energética, com maior uso de termoelétricas a gás natural ou óleo combustível/diesel) tornam o mecanismo da engrenagem de uma economia ainda muito indexada, extremamente difícil de reverter se ganhar velocidade.

O economista Manuel Jeremias Leite Caldas defendeu aqui, antes da reunião do Copom decidir, em 17 de março, pela alta de 0,75% (que surpreendeu o mercado, que esperava 0,50 p.p.) que o Banco Central desse um “cavalo de pau nos juros” para trazer o câmbio abaixo de R$ 5. Como o BC não teve coragem (ou autonomia) para tal, estamos assistindo o Copom correr (como um cachorro) atrás do rabo da inflação).

Para se ver como as condições se deterioraram e as lunetas do BC custaram a captar a chuva negativa de meteoros, vamos recordar quais eram as previsões da última pesquisa Focus do BC de 2020. Em 31 de dezembro (ano em que a inflação fechou em 4,50%, a Selic estava em 2% ao ano e o PIB caiu 4,1%), o mercado esperava inflação de 3,32% em 2021 e de 3,50% em 2022; um crescimento de 3,40% para o PIB de 2021 e de 2,20% para 2022 e uma Selic de 3% em 2021 e de 4,50% em 2022. E uma taxa de câmbio de R$ 5 em 2021 e de R$ 4,90 em 2022.

Como demorou a puxar o freio de mão do dólar, que estava em R$ 5,8548 quando o Copom elevou a Selic de 2% para 2,75% (repetindo a dose em maio e junho), o dólar nunca desceu a menos de R$ 5,00 este ano – o valor mínimo do dólar este ano foi de R$ 5,1174, dias 17 e 28 de junho. Com a influência nas cotações agrícolas, tanto produtos exportáveis quanto os que poderiam ser importados para suprir o consumidor ficam com preços elevados. E a corrente de contaminação se repete no sensível mercado de combustíveis, energia e insumos industriais importados.

O impacto reverso em 2022

Porque custou a ser enérgico este ano, o governo está sacrificando mais o crescimento de 2022 do que já se previa. No final de 2020 e até o primeiro trimestre deste ano, ninguém tinha ilusão de que o PIB ia ter uma boa reação este ano (devido à base de comparação negativa de 4,1% em 2020) mas arrefeceria em 2022. Na pesquisa Focus de 12 de março (semana anterior à decisão do Copom de 17 de março), o mercado esperava IPCA de 4,60% este ano e 3,50% em 2022; PIB de 3,23 em 2021 e de 2.39% em 2022 e Selic de 4,50% este ano e de 5,50% em 2022.

O Banco Central agora vai ter de deixar o freio de mão dos juros puxado em 2022 porque precisa fazer refluir a inércia inflacionária. Há muitos preços indexados na economia brasileira. E não são apenas os preços administrados (derivados de petróleo, energia elétrica, passagens aéreas, pedágios, mensalidades escolares e planos de saúde, e aluguéis (comerciais e residenciais) que têm os preços mais ou menos a contratos de reajuste vinculados à inflação passada.

Com a inflação de 2021 rebarbando reajustes de 8% para 2022, fica difícil o Banco Central baixar a guarda dos juros. E sem baixar juros, caem o consumo, o crescimento da economia e a recuperação do emprego. Ruim para quem disputa a reeleição.

Reversão das expectativas

O Departamento de Estudos Econômicos do Itaú está prevendo que o PIB do 3º trimestre vá crescer 0,8% e a taxa do ano 5,7%, com viés de baixa. Para se medir a reversão: em 8 de julho, quando elevou a previsão de 2021 a 5,8%, estimou alta de 0,2% no 2º trimestre (caiu 0,1%) e de 1,3% para o 3º trimestre (em junho esperava alta +0,7%, praticamente o nível agora esperado).

O Santander, por sua vez, depois de prever há um mês que o IBC-Br de julho (que o Banco Central divulgará na 4ª feira) cresceria 0,2%, reviu na 6ª feira a previsão para uma queda da mesma magnitude (-0,2%). E isso sem que a engrenagem dos juros trave tanto a economia.

O Santander chamou a atenção de que a escalada da inflação: “é uma evidência de que choques primários (commodities, taxa de câmbio, ruptura da cadeia de suprimentos, etc.) estão sendo repassados em maior escala aos preços gerais, com risco importante de uma maior persistência inflacionária”. E assinalou que “o índice de difusão, que se situou em 74% em termos dessazonalizados”, atingiu um novo pico recente, próximo da máxima de 78% observada em 2016. Mas naquele ano o país estava na crise política que levou ao “impeachment” da presidente Dilma.

Juro de aposentado e de enforcado

Já contei aqui que, desde que fui comunicado pelo INSS, em 16 de agosto, da aprovação de minha aposentadoria, tenho sido bombardeado por ligações e mensagens entre sérias (poucas) e marotas (muitas) com oferta de crédito consignado para aposentados com até 7 anos para pagar.

Verificando as ligações que já bloqueei (18), algumas com prefixo do Ceará, Santa Catarina e São Paulo, e as que nem foram atendidas (6) hoje bateu o recorde: 34 ligações telefônicas e uma mensagem de SMS. O recorde anterior fora de 22 ligações. É inacreditável como o cidadão fica vulnerável porque espertalhões - há muito escritório que faz agiotagem e seduz os aposentados -com créditos a perder de vista.

Como a realidade do Brasil acaba fazendo dos aposentados esteios das famílias, muita gente é induzida a se afogar em dívidas logo que sai a aposentadoria. Uma comparação entre as taxas de juros do crédito consignado (desconto em folha) para aposentados e o crédito pessoal comum (não consignado) é comparar água com o vinho. E muita gente se embriaga e cai em golpes tipo: “Deposita R$ 500 ou R$ 1.000 para abrir conta”. Depois, não vê a cor do dinheiro da suada Previdência que depositou nem o crédito prometido.

No Bradesco o crédito consignado tinha, segundo levantamento do Banco Central entre os dias 23 e 28 de agosto, juros mensais de 1,56% ao mês (já subiu). E os prazos podiam chegar até 7 anos para pagar. Já na mesma época, os juros do crédito pessoal não consignado, eram de 4,59% ao mês.

No Itaú, o crédito consignado tinha juros de 2,68% ao mês e o não consignado era de 5,93% ao mês.