O 7 de setembro deixa economia parada

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O candidato preferido pelo mercado, que apostou todas as fichas nele contra o PT, o presidente Jair Bolsonaro, conseguiu desagradar mais uma parte de seus apoiadores no mercado de capitais após partir para o confronto (verbal) contra os ministros do Supremo Tribunal Federal nos comícios de 7 de Setembro, em Brasília, na Esplanada dos Ministérios, e na avenida Paulista, em São Paulo.

O Ibovespa chegou a cair 3% na manhã e seguiu em baixa à tarde, após a dura reação do presidente do STF, Luiz Fux, nesta 4ª feira, quando tinha caído a 113.441 pontos depois das 16 horas. Com a inflação em alta, que força o Banco Central a carregar na subida dos juros, mais as ameaças de apagão, está cada vez mais distante a previsão de que o Ibovespa fecharia o ano em 145 mil pontos. Já o dólar voltou a subir 2,83%, para R$ 5,32, com o real devolvendo a valorização de 1,4% na semana anterior.

Embora os eventos convocados com dois meses de preparação para Brasília e São Paulo tenham tido público muito aquém dos 2 milhões de apoiadores, como propalado pelos coordenadores do movimento que pretende barrar a ação do ministro Alexandre Moraes contra as “fake news”, seus propagadores e financiadores, removendo-o (!?) do Supremo, as fotos demonstraram que, mesmo em queda e apoio apenas de 20% a 25% nas pesquisas eleitorais, o presidente ainda tem força para mobilizar fanáticos em suporte às suas ideias que não correspondem aos fatos. Ainda ontem, parte dos manifestantes fincou pé na Praça dos Três Poderes, especialmente na frente do STF.

Enquanto Luiz Fux deu um duro recado dizendo que a Corte Constitucional não se curvará e fará cumprir a Lei, e que quem descumprir decisões judiciais pode incorrer em crime de responsabilidade, o presidente da Câmara, Arhur Lira, sentado sobre mais de 120 pedidos de “impeachment” contra o presidente da República, procurou avançar uma casa no tabuleiro em busca de conciliação e tentando refrear o presidente Bolsonaro. Homem do Centrão, ainda aliado de Bolsonaro, Lira ficou mais em cima do muro que os velhos próceres do PSDB.

Avaliações da LCA

Uma coisa é o susto dos investidores, que estão com o dinheiro queimando e tiveram ainda o mau desempenho do mercado acionário dos Estados Unidos para acentuar a tendência de baixa no Brasil, outra é a visão de médio e longo prazo das empresas e consultores econômicos.

A LCA Consultores procurou ver pontos positivos, como a não ocorrência de “atos de vandalismo contra o STF e o Congresso”. Outro ponto foi não ter havido a “participação destacada de policiais militares” e ainda o fato de não ter ocorrido “confronto entre os grupos pró e contrário a Bolsonaro”.

Mas a LCA observa que a mobilização não desviará o STF da “defesa das instituições e não reduzirá a resistência do Senado à pauta governista”. Mas a mobilização pode ter convencido os seus apoiadores e ao “próprio presidente de que Bolsonaro tem força para se impor ao STF e ao Congresso”.

Nesse ambiente tensionado, as saídas extremas para a crise político institucional, “impeachment” ou um golpe perpetrado por Bolsonaro tornam-se mais factíveis, embora continuem improváveis, diz a LCA. Mas, neste contexto, ficaram ainda mais desafiadoras as negociações em torno de questões relevantes à agenda de Bolsonaro, como a questão dos precatórios, a reforma do Bolsa Família, a reforma do Imposto de Renda, entre outras. Ou seja, a política vai fazer a economia sofrer mais daqui até 2022.

O risco que vem de fora

O Comitê de Estabilidade Financeira do Banco Central, se reuniu dia 31 de agosto para avaliar as condições do sistema financeiro nacional de resistir a abalos que virão de fora. A Ata da reunião foi divulgada nesta 4ª feira, 8 de setembro.

Embora o Comef considere que “exposição do SFN ao risco da taxa de câmbio é baixa e a dependência de “funding” externo é pequena (as liberações dos depósitos compulsórios no ano passado fizeram os bancos do país usar mais esses recursos em lugar de financiamentos do exterior, o “aumento recente da inflação nas economias avançadas traz riscos de aperto nas condições monetárias globais, que poderia levar a reprecificação desordenada dos ativos, aumento da aversão ao risco e reversão dos fluxos de capital para economias emergentes”.

O Comef alertou que dúvidas “dos mercados a respeito de riscos inflacionários nas economias centrais podem tornar o ambiente desafiador para países emergentes”. No caso brasileiro, com uma baita turbulência política liderada pelo presidente da República, segura peão, ou melhor, segurem Paulo Guedes e Roberto Campos Neto.

Os obstáculos ao PIB

Em análise sobre o comportamento da indústria no mundo 18 meses após a declaração da pandemia da Covid-19, o Departamento de Estudos Econômicos do Bradesco considerou “o desempenho bastante heterogêneo” da produção industrial nos últimos meses no Brasil. E Observou que “alguns setores têm conseguido contornar essas restrições e o maior destaque é a categoria de bens de capital, carca de 16% acima do patamar pré-pandemia, impulsionada pelo bom desempenho do setor agroexportador e sem sinais de reversão no radar, por ora”.

Na outra ponta, a produção de bens de consumo ainda está mais de 11% abaixo do nível de fevereiro de 2020, influenciado sobretudo pela produção de automóveis. Bens intermediários têm um desempenho praticamente estável no período, com subcategorias em linha com os setores mencionados anteriormente: enquanto o segmento de peças e acessórios para bens de capital avança quase 15% no período, o de peças e acessórios para equipamentos de transporte recua 19,5%.

Macaque in the trees
. (Foto: reprodução)

O Bradesco atribui os entraves à falta de insumos, que contribuiu para o recuo da indústria na ponta, mas a acomodação dessa dinâmica pode colaborar para uma dinâmica melhor nos próximos trimestres. Enquanto a normalização de alguns setores específicos ainda pode levar vários trimestres, esperamos que, de modo geral, o problema se torne gradualmente menos agudo.

Um dos motivos para o otimismo é que a recomposição de estoques deve voltar a ganhar força (se o apagão e uma crise política não atrapalhares tudo) e constituirá vetor adicional de impulso ao setor, cuja demanda prevista (sobretudo externa) segue em níveis elevados e acima do início de 2020.

O Depec Bradesco espera alta de 5,4% da indústria em 2021 e 1,5% em 2022. E considera que a continuidade do processo de migração do motor do consumo da área de bens para serviços “deve ser suficiente para atingirmos crescimento do PIB como um todo acima de 5% em 2021” (a previsão do Bradesco para 2022 era de 2,2%, mas foi reduzida há uma semana para 1,8%).



O Ibovespa chegou a cair 3% na manhã e seguiu em baixa à tarde
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Gilberto Menezes Cortes