Só o governo apostou errado na energia

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O mercado livre de comercialização de energia anda em efervescência há dois anos. Este ano, com o crescimento forte do consumo pelas indústrias eletro-intensivas, estimuladas desde o 2º semestre de 2020 a produzir para exportar pela alta do dólar, aumentou o descasamento entre a curva do consumo e da oferta de energia, que descarrilhou de vez com o agravamento da estiagem.

O cenário de incerteza tira o sono dos consumidores cativos (basicamente o consumidor residencial e os donos de pequenas lojas de comércio ou serviços, sem porte para ir ao mercado livre, que hoje exige consumo mínimo de 1.500 kW de demanda contratada), porque eles são vítimas das apostas erradas do governo, que dormiu no ponto e não percebeu o colapso entre a oferta e a demanda que agora deixa o país à beira do apagão.

Fica tudo para o último dia

Nesta 3ª feira, 31 de agosto, último dia para o Executivo apresentar ao Congresso a proposta final do Orçamento Geral da União para 2022, também se reunirá a Câmara de Regras Excepcionais para Gestão Hidroenergética (CREG), para definir o preço da tarifa de energia da Bandeira Vermelha 2, já mantida pela ANEEL para setembro.

A entrega da proposta do Orçamento é prática que governos deixam para o último dia (na tentativa de acomodar demandas com as receitas, sempre agravando atritos entre o Executivo e Legislativo). Assim, o mês de agosto sempre foi de tensões políticas no país (suicídio de Vargas, renúncia de Jânio). Agora, os atritos aumentam porque os deputados e senadores, em vez de fiscalizar os gastos, querem pegar carona neles, via emendas parlamentares.

A crise hídrica pede medidas extremas (estudos apontam para a necessidade de aumentos entre 50% e 58%, com risco de escalada até 163% se não chover nesta semana nas cabeceiras dos rios Grande e Paranaíba, que abastecem as usinas hidroelétricas espalhadas, respectivamente, ao Sudeste e Noroeste de Minas Gerais. E que vai formar o rio Paraná, onde estão as usinas de Ilha Solteira e Itaipu. Ou seja, 70% da energia gerada e consumida no Sudeste e Centro-Oeste a maior consumidora do país.

Mas o governo não quer só deixar para o último dia. Se pudesse, adiava ao máximo as más notícias para não esvaziar as manifestações arruaceiras que pretende fazer dia 7 de Setembro. As más notícias estão sendo evitadas, ou desvirtuadas como a escalada da gasolina e dos demais combustíveis, como o diesel e o GLP, que o presidente Jair Bolsonaro quer culpar os governadores pela cobrança de ICMS. Como se o ICMS não fosse cobrado há mais de quatro décadas em cima dos preços que as distribuidoras de combustíveis pagam nas refinarias da Petrobras. Nada mudou em termos de alíquotas. Só os valores que aumentaram em função da dupla conjunção de aumento do preço internacional do barril com a escalada do dólar porque o governo foi lento na elevação dos juros e agora, como cachorro, corre atrás do rabo da inflação.

Pelo sim, pelo não a CREG vai ter a presença dos ministros das Minas e Energia, Bento Albuquerque, da Economia, Paulo Guedes, do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, da Agricultura, Teresa Cristina, do Meio Ambiente, Joaquim Leite, e da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas.

Mas até bancos descobriram o filão

As restrições físicas e ambientais à construção de novas hidroelétricas no Sudeste e Centro-Oeste e a grande distância para a transmissão da energia a ser gerada na região Norte, onde há resistência da sociedade à construção de novas usinas em territórios indígenas, tornam duas fontes de energia mais valorizadas, pela rápida resposta em termos de construção e geração: a energia solar e a eólica. Com o avanço das tecnologias empregadas nas placas solares (que captam mais energia nos dias mais claros e na maior capacidade de armazenamento das baterias), muitos grupos industriais e financeiros entraram neste mercado como investidores e com a visão de que comercializar energia é um ótimo filão de lucro.

A Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia Elétrica (Abrasceel) fechou agosto com 106 associados, com a entrada da XP comercializadora de Energia e a EVO Energia. A XP criou uma mesa de negociação de contratos de energia para o mercado livre em maio, seguindo os passos do BTG-Pactual , do Itaú, do Santander e do Bradesco (que opera via Ágora Corretora, sua controlada). Outros bancos e fundos de gestão entraram neste mercado, além das geradoras e distribuidoras de energia.

O mercado de livre comercialização, que hoje tem pouco mais de 11.500 participantes, sendo 9.600 compradores livres ou especiais no mercado livre de energia, tende a multiplicar exponencialmente, à medida que a redução dos limites mínimos de demanda contratada for diminuindo. O operador de um grande grupo de energia prevê entre 30 mil e 50 mil consumidores no mercado livre a partir de 2023. Por isso, há tantos projetos de energia solar e eólica em andamento (ou trocando de mão). Os custos de instalação vêm caindo com a economia de escala, tornando-os mais eficientes e com retorno mais rápido na amortização dos investimentos.

As fazendas de energia solar são as mais viáveis. Em seis meses monta-se um parque. Nas eólicas, gasta-se um ano a mais. O problema, em ambos os casos, é a redução da burocracia para a rápida integração da nova fonte geradora ao Sistema Integrado Nacional. Se o governo tivesse se debruçado sobre o problema no ano passado, certamente não precisaria jogar a culpa em São Pedro ou no fenômeno La Niña. Hoje, a energia solar produz mais que a geração nuclear. Mas poderia gerar o dobro se o governo tivesse visão.

Mercado no limite

O mercado livre de comercialização de energia já opera no limite do teto do custo de 1.500 kW (R$ 584 em números redondos). De modo que não será afetado se a CREG decretar maior aumento no valor excedente a 100 kW/hora. Vai sobrar é para o consumidor cativo, que não tem para onde correr. Mas nem por isso aumentos no meio do caminho deixam de preocupar compradores e vendedores. Já houve inadimplência de dois players médios em julho.

O custo do Bolsa Eleição

O Departamento de Estudos Econômicos do Itaú fez umas simulações sobre o impacto fiscal do novo Bolsa Família, que o governo Bolsonaro pretende aumentar no ano eleitoral de 2022 e, se possível incluir no Auxílio Emergencial, que seria rebatizado de Auxílio Brasil. Atualmente, o Bolsa Família contempla o universo de 14 milhões de famílias, com pagamento médio de R$ 195 por cada beneficiário. O Auxílio Emergencial está em R$ 250.

Se houve um aumento do público do Bolsa Família de 14 milhões de famílias para entre 16 e 17 milhões e o benefício médio passar para R$ 285 ou R$ 300, como o governo vem reportadamente planejando, teria um impacto entre R$ 22 e R$ 28 bilhões no orçamento do ano que vem. Com 18 milhões de famílias a R$ 300 em médias, os gastos cresceriam R$ 28 bilhões (3% do PIB).

A questão é que para encontrar esses recursos de “forma indolor”, do ponto de vista eleitoral (sem mexer ou cortar verbas para aliados políticos), o governo quer aplicar o calote nos pagamentos dos precatórios judiciais (dívidas da União com sentença transitadas em julgado).

O cerco aos aposentados

Enquanto a Lei Geral de Proteção aos Dados não é sancionada para valer, o cidadão brasileiro continua no pior dos mundos. Em Portugal, um único número (do documento geral do cidadão) dá acesso à sua situação na Previdência Social, no Seguro Saúde, do crédito bancário, na caderneta de vacinação, na renovação da carteira de motorista, ou no título de eleitor.

Aqui, cada guiché exige uma papelada. Parece que a burocracia existe para dar trabalho e não simplificar a vida do cidadão. Alguns argumentam que o documento único facilitaria as fraudes num país de “ispertos”. Prefiro a rapidez com os riscos que ele trouxer.

Vejam o caso dos aposentados. Vou entrar no time, mês que vem, com seis anos de atraso. Mas confesso que nem lamento. Desde que meu nome entrou na lista dos futuros pensionistas do INSS (não me considero beneficiário, pois deveria receber bem mais pelo que contribuí) sou bombardeado por telefonemas de robôs para o meu celular, com ofertas mirabolantes de crédito. Ou em mensagens no zap. Desde 6ª feira bloqueei mais de três dúzias de números telefônicos. Mas o cerco não para. Na maioria são ofertas marotas.

Imagino o que não acontecerá ao incauto que atender essas falsas promessas e cair na inadimplência futura. Se para ofertar chateiam das 9 às 21 horas, na cobrança, serão 24 horas, sem trégua para dormir.

O futebol entra na roleta

Meu caro leitor, confesso que tive sorte. Nascido em 1950, sou dos que viram Zizinho, Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Dida, Ademir da Guia, Gérson, Tostão, Jairzinho e Paulo César Lima jogar. Assim como Zico, Falcão, Júnior, Leandro, Roberto Dinamite, Romário, Neymar e outros menos votados.

Era uma época de estádios com mais de 100 mil torcedores, que no caso do meu Flamengo eram o camisa 12, o maior craque do time (salvo na era Zico). A emoção fazia os jogadores colocarem o coração na ponta das chuteiras.

Hoje, exibem as chuteiras em “merchandising”. Mas o que tem me irritado é a transformação do futebol numa enxurrada de números (ah Nelson Rodrigues, essa você escapou). O pior é o tal do “scout” do jogo feito por cidadão que equiparam um lançamento à la Gerson (com 60 metros, que já cai no peito de Pelé ou Jairzinho na área adversária) com um toquezinho para o lado.

Francamente!. O problema é que o nosso futebol passou a ser dominado pela jogatina (já conferiu se a camisa do seu time não tem um site de apostas como patrocinador?). Os programas esportivos se dedicam à bolsa de apostas.

O Globo acaba de criar uma página com análise de probabilidades para este ou aquele time ser campeão (no fundo para atender os anunciantes). A teoria dos jogos não era para ter esse uso. Nesse galope rumo ao mundo artificial e sem emoção, melhor trocar a grama (que anda vergonhosa nos estádios do país) por grama artificial, sempre verdinha e sem precisar aparar.