Chegada do talibã eleva IPCA e derruba PIB e Bovespa

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Seria a volta do talibã ao poder no Afeganistão o motivo para uma queda tão forte no Ibovespa? No começo da tarde de 3ª feira, 17 de agosto, o indicador chegou a cair a 116,296 pontos, em baixa próxima a 2,5%, recuperou no fechamento, mas voltou a cair nesta 4ª feira. O mercado parece ter encontrado uma linha de resistência nos 116 mil pontos, mas em 30 dias perdeu mais de 10 mil pontos e os sonhos de fechar o ano em 162 mil pontos se esvaem.

Junto com a chegada novamente do talibã (agora se passando por mais moderado) veio uma enxurrada de dados ruins que já estavam circulando na economia, mas que sempre se cruzam nos meses de agosto. Por azar, ou coincidência climática, as geadas de fins de julho no Sul, Sudeste e no Centro-Oeste agravaram as altas especulativas com commodities agrícolas e espicaçaram os preços de alimentos, pressionando a inflação para mais de 7% este ano. A consequência é que o Banco Central deve elevar em mais um ponto a taxa Selic, talvez para 8%, como prevê a LCA Consultores.

Mas qual a surpresa ante o quadro ruim?

Com quase 50 anos no acompanhamento da economia confesso: as deteriorações do quadro econômico não me surpreendem. O que me causa espanto é a certa estupefação que tomou conta dos agentes econômicos. Há muito que os dados ruins vêm se avolumando. Nada corroborava o otimismo um pouco eufórico que tomara conta do mercado. A recuperação da economia é mais lenta e desigual que a sonhada (não acelerou no 2º trimestre e o 3º trimestre também começou rateando). E isso reduz a retomada do emprego.

A Fundação Getúlio Vargas calculou ontem, 3ª feira, que o Produto Interno Bruto (PIB) tenha encolhido 0,3% no 2º trimestre, depois de crescer 1,2% no 1º trimestre, sobre o 4º de 2020. As previsões do mercado apontavam estagnação (como a LCA Consultores) a crescimento de 0,12% (Bradesco) e 0,2% (Itaú). O IBGE vai divulgar os dados em 1º de setembro, junto com as naturais revisões trimestrais que vão sinalizar melhor a direção da biruta econômica.

Uma coisa é certa. O quadro fiscal não se deteriorou de repente como quer fazer crer o presidente do Banco Central, Roberto de Oliveira Campos. A escalada da inflação e do dólar, que manteve preços dos combustíveis aquecidos (situação agravada pela crise dos reservatórios das usinas hidrelétricas – me recuso a definir o problema como uma simples ‘crise hídrica’) vem desde o 2º semestre de 2020. A geada recente só agravou o quadro.

Considero a crise hídrica uma tempestade perfeita de má gestão das águas das usinas (assoreadas há décadas, guardam bem menos água que o apontado nos “mostradores”), combinada com a demora no acionamento das termoelétricas, para poupar a água, e no consumo desmedido de energia pelos setores industriais eletro-intensivos, estimulados a produzir para exportar pela taxa de câmbio, que pressionou a inflação dos alimentos, combustíveis e minérios). Tudo isso devia ter sido detectado pelo O.N. S., o MME, Aneel e o Ministério da Economia. Ninguém poderia se dizer surpreso.

A gestão da Economia vem sendo muito malfeita. O Banco Central corre atrás do rabo da inflação (atiçado pela “sarna” do dólar em alta e o real em baixa) como um cachorro que nunca chega lá. Em março defendemos aqui na coluna, e em artigos no JB do economista Manuel Jeremias Leite Caldas (quando todos achavam que o Copom ia aumentar a Selic, que estava em 2% ao ano, para 2,50%), para uma escalada maior, de 1 ponto percentual (em dois ou três movimentos), para reverter a taxa de câmbio, que roçava os R$ 5,90 e segurar a inflação, então próxima dos 6% (estamos há quatro meses entre 8% e 9%).

O Comitê de Política Monetária do BC - Copom) elevou a Selic em 0,75 p.p. (três vezes até junho e aumentou a dose para 1 p.p. em 4 de agosto). Mas, no salto de março, vozes do mercado, criticaram o Copom (já que muitos apostaram em apenas 0,50). Entre as respeitadas, estava a do ex-presidente do BC, Affonso Celso Pastore (defendia 0,50). Pois há poucos dias, Pastore, em reconhecimento tardio, passou a defender aumentos de 1 p.p.).

A LCA Consultoria está projetando agora a taxa de inflação em 7,5% este ano e 4,1% em 2022, com a Selic chegando a 8% em dezembro e se mantendo nesse nível ao longo de 2022. Haveria alta de 1 p.p. para 6,25% ao ano em 22 de setembro, nova alta para 7,25% a.a. em 127 de outubro e aumento adicional de 0,75 p.p. em 8 de dezembro, para 8% ao ano, nível mantido em todo 2022.

A LCA acredita que com o juro alto, saindo do terreno neutro em que se encontra há 20 meses, haveria contração da inflação (via reversão do câmbio), mas isso, igualmente tira qualquer possibilidade de aceleração da economia. Neste aspecto, as condições de ajuste fiscal e dos parâmetros de endividamento, que melhoraram sobremaneira este ano com o crescimento da arrecadação derivada do PIB maior e da inflação idem, voltam a piorar.

Gestão da dívida

Contra uma taxa de 5% este ano e uma inflação média acima de 6,5% em 12 meses, o PIB deve crescer na casa de 1,5% a 2% em 2022, com inflação média na faixa de 5,5% no ano. Isso vai trazer problemas para a rolagem da dívida pública e as operações de swap do Banco Central com dólar. O BC tem um total de UD$ 76 bilhões para rolar mensalmente a partir de 1º de novembro. O horizonte dos juros ficou mais imprevisível para os participantes do mercado, que podem pedir mais prêmios de risco ou encurtar prazos. Embora os juros da dívida não contem nos indicadores do déficit primário (receita menos despesas, excluídos os custos do giro da dívida), voltaremos, como Sísifo, a subir a montanha para rolar a dívida.

Em 2019, os juros estavam declinantes e o país gastou R$ 367,2 bilhões de juros da dívida, sendo R$ 186,1 bilhões no 1º semestre. No ano passado, os gastos escolheram para R$ 312,4 bilhões, sendo R$ 173 bilhões no 1º semestre. Este ano, com a Selic na média de 2,8%, os gastos somaram R$ 145,4 bilhões no 1º semestre. Mas com os juros crescendo no 2º semestre, a média estimada para a Selic (que baliza outros indicadores concorrentes) ficaria em 4,63% na estimativa da LCA, ou 5%, se subir a 8%. E no ano que vem, com juro estável em 8%, o valor praticamente dobrará.

O que pode aliviar o cenário

Há muitas incertezas no cenário da economia mundial e na economia doméstica. No Brasil, além da volatilidade associada a eventos internacionais, os mercados de câmbio e juros vêm sendo pressionados por fatores internos de incerteza – sobretudo relacionados a uma escalada de tensões políticas e ao aumento na percepção de risco fiscal. A inflação doméstica também vem se mostrando persistente, embora tenham surgido alguns sinais tranquilizadores de moderação de pressões de custos na base da cadeia produtiva.

A LCA avalia que “a inflação desacelerará ao longo deste 2º semestre, o que dispensará uma extensão do aperto monetário para 2022”, mas lembra que o aumento de incertezas – no exterior, com os crescentes casos da variante Delta na Ásia, Europa, Estados Unidos, mas sobretudo no cenário interno, que também inclui a Delta – é fator que pode pesar sobre as expectativas de crescimento para 2022. “Os resultados recentes sugerem que o PIB estagnou no 2º trimestre; e as projeções para o PIB do ano que vem continuam a oscilar para baixo”, advertindo que o “recrudescimento de riscos poderá demandar ajustes para pior no cenário internacional e, sobretudo, brasileiro”.

O Santander chama a atenção para o fato de que, pela segunda vez, desde o início da pandemia, expectativas de valorização do real, aproximando-o de seus fundamentos, não se realizaram. E lembra ainda que “desde a flutuação do real (1999), somente o período marcado pela pandemia do coronavírus teve alta de preços de commodities sem correspondente valorização cambial”.

Destaca ainda que a valorização do real e a redução dos prêmios de risco perderam força, depois do envio da reforma tributária ao Congresso e do anúncio de forte alta na conta de precatórios, com intenção de parcelamento do pagamento dos mesmos, com o objetivo de abrir espaço no teto de gastos para despesas com programas sociais. E, em meio ao quadro fiscal confuso, a reforma do Imposto de Renda não avançou, diante da justa reação de Estados e municípios, que seriam prejudicados nas suas fontes de receita, via fundos de participação (uma questão elementar do equilíbrio federativo).

No setor industrial, o Santander diz que, além da crise hídrica, a normalização das cadeias produtivas tem sido lenta e poderá perdurar até o próximo ano. Isso ficará mais complicado se a variante Delta avançar nas economias da Ásia que produzem muitos microeletrônicos.

No Brasil, além da volatilidade associada a eventos internacionais, os mercados de câmbio e juros vêm sendo pressionados por fatores internos de incerteza – sobretudo relacionados a uma escalada de tensões políticas e ao aumento na percepção de risco fiscal. A inflação doméstica também vem se mostrando persistente, embora tenham surgido alguns sinais tranquilizadores de moderação de pressões de custos na base da cadeia produtiva.

A LCA avalia que a inflação desacelerará ao longo deste 2º semestre, o que dispensará uma extensão do aperto monetário para 2022. O aumento de incertezas – no exterior, mas sobretudo no cenário doméstico – é fator que pode pesar sobre as expectativas de crescimento, principalmente para 2022. A LCA ainda vê, na evolução dos preços de bens e serviços finais no atacado pressões de custos represadas que ainda poderão ser repassadas para os preços ao consumidor, indicando ser relevante o risco de que novas surpresas inflacionárias despontem nos próximos meses.

Esse cenário e as incertezas do risco fiscal vem exercendo pressão principalmente sobre as taxas de juros de longo prazo: o juro interbancário para janeiro de 2030, por exemplo, recentemente retornou ao patamar de dois dígitos, figurando cerca de 300 pontos-base acima do patamar anterior à pandemia, porque a inflação doméstica vem se mostrando persistente, o que tem acentuado o movimento de elevação das projeções de mercado para a alta do IPCA em 2021; e mantido as projeções para o ano que vem também em alta, ainda que mais moderada, apesar de terem surgido alguns sinais tranquilizadores de moderação de pressões de custos na base da cadeia produtiva, sobretudo industrial.

O Depec do Bradesco saudou a descompressão dos preços dos minérios de ferro, como capaz de neutralizar os impactos recentes da aceleração de preços de commodities agrícolas (soja, milho e café) no produtor (1,18% no IGP-10 de agosto, contra 0,18% em julho). O IPA industrial teve deflação. Se o surto especulativo com os produtos agrícolas se dissipar, o cenário geral melhora.