O PIB está murchando

.

CPDOC JB
Credit...CPDOC JB

Uma das melhores charges sobre o paradoxo do “milagre brasileiro”, na gestão de Delfim Neto no Ministério da Fazenda dos governos Costa e Silva e Emílio Garrastazu Médici, quando a economia crescer muito, mas sem correspondente redução da pobreza e da miséria (o próprio Médici disse em 1972, ao visitar o Nordeste e ver os estragos da seca, não se conteve e exclamou: “A economia vai bem, mas o povo vai mal”) foi feita pelo cartunista Nani, em 1973. Delfim rebatia os críticos à distribuição desigual da riqueza (que vinha desde o Descobrimento) dizendo que “era preciso crescer o bolo para depois distribuir”. Pois a charge mostrava uma família de famintos em volta do fogão e um mestre cuca gordo (de chapéu e dólmã) que abria o forno para tirar o bolo para a esperada distribuição, exclamar: “Solou!”.

Em escala menor, é o que está acontecendo em relação às projeções do Produto Interno Bruto deste ano e de 2022. Depois da alta de 1,2% no 1º trimestre (em boa parte devido à colheita da safra de soja no período, quando a agropecuária cresceu 5,7% em ajuste sazonal), as expectativas sobre o PIB desde ano avançaram mais de um ponto percentual, para mais de 5%. Em 8 de julho, o Departamento de Estudos Econômicos do Itaú chegou a alterar a previsão de 5,5% para 5,8% para 2021 e de 1,8% para 2% em 2022.

No último dia 12, diante da escalada da inflação (que estima em 6,9% este ano), que pedirá remédio mais amargo para os juros (o Itaú prevê que a Selic, que o mercado, na Pesquisa Focus desta 2ª feira, 16 de agosto, espera em 7,50% em dezembro, feche o ano em 8%, mesmo nível da LCA Consultores), o Itaú reviu para baixo as projeções do PIB, diante ainda das incertezas sobre a nova variante Delta da Covid e das frustrações recentes na indústria (por falta de chips eletrônicos vários setores desaceleraram ou pararam a produção, como a automobilística, de forte cadeia de fornecedores): o PIB de 2021 foi reduzido para 5,7% e a projeção para 2022 encolheu de 2% para 1,5%.

Bradesco e LCA reduzem taxa do 2º trimestre

Em 8 de julho, quando fez as estimativas mais otimistas, o Itaú apostava em alta de 0,2% no PIB do 2º trimestre e de 1,3% no 3º trimestre. Agora, diante da alta de 1,14% no IBC-Br de junho, divulgado dia 13 pelo Banco Central (acima das expectativas de 0,4% do Itaú e de 0,5% da mediana do mercado), o Itaú conclui que o indicador do BC “aponta crescimento de 0,4% no 2T21 em relação ao 1º trimestre do ano, e 13,2% em relação ao mesmo período do ano passado”. Mas a previsão oficial do Itaú ainda é de 0,2% no 2º trimestre.

O Bradesco e a LCA não estão tão otimistas. O Bradesco calcula um avanço de 0,12% no 2º trimestre. A LCA Consultores está um pouco mais otimista e espera crescimento de 0,3% em relação ao 1º trimestre, embora destaque que em junho, último mês do trimestre, “afetados pela escassez de insumos, a indústria geral, os insumos típicos da Construção Civil e o varejo ampliado tiveram resultados mais fracos no mês e a “agropecuária também deve ter contribuído negativamente”. Os dados serão passados a limpo em 1º de setembro, quando o IBGE divulga os dados das Contas Nacionais Trimestrais.

3º trimestre em diante

O Itaú avalia que o crescimento do 3º trimestre “virá principalmente da recuperação do consumo de serviços, enquanto o consumo de bens se estabiliza na margem. Apesar da desaceleração da demanda interna por bens, a demanda total por bens ainda se beneficia da crescente demanda externa”. Já o Bradesco sustenta que para “os próximos trimestres, os ganhos de mobilidade decorrentes dos avanços na vacinação da população são compatíveis com o PIB em território positivo”.

Mas o Itaú reduziu a previsão do crescimento do 3º trimestre, que já foi de 1,3% em 8 de julho e baixou para 1,2% em 12 de julho, para 0,9% na revisão da semana passada. A LCA está esperando alta mensal de 0,8% na produção industrial, queda de 0,8% no comércio varejista ampliado e alta de 1,2% no segmento de serviços (parcial) medido mensalmente pelo IBGE (o Varejo integra o setor de serviços, com os agregados do sistema financeiro e seguros e atividades imobiliárias). Com tais dados, a LCA projeta alta de 0,3% no IBC-Br de julho.

Em águas profundas

A Petrobras ganhou domingo à noite, em Houston, no Texas, o 4º prêmio mundial da Offshore Technology Conference (OTC), que realiza sua reunião anual na capital mundial da indústria do petróleo, pelo conjunto das inovações desenvolvidas para viabilizar a produção de Búzios, o maior campo de petróleo em águas profundas do mundo, no pré-sal da Bacia de Santos.

O presidente da estatal, general Joaquim Silva e Luna destacou a “jornada tecnológica da Petrobras em condições desafiadoras “como águas ultraprofundas e reservatórios localizados abaixo da camada de sal, a mais de 7 mil metros de profundidade, com elevados níveis de pressão e baixas temperaturas, mediante soluções pioneiras que incluem novas configurações de dutos e equipamentos submarinos até tecnologias para separação e reinjeção de CO2”. Graças a essas tecnologias, Búzios se tornou um projeto de classe mundial, que combina segurança, reservas gigantes de óleo de alta qualidade, baixo custo de extração e redução de emissões.

Em julho deste ano, com apenas três anos de operação, o Campo de Búzios atingiu 715 mil barris de óleo equivalente (boe) por dia, o equivalente a cerca de 25% da produção total da Petrobras. E a expectativa é chegar ao final da década com a produção diária acima de 2 milhões de barris de óleo equivalente por dia, tornando-se o ativo da Petrobras com maior produção.

O 1º troféu da OTC foi ganho pela Petrobras em águas profundas e ultraprofundas foi ganho em 1992, pelas inovações desenvolvidas para o campo de Marlim, na Bacia de Campos, com até 1.050m de lâmina d’água; o 2º, em 2001, foi para Roncador (também na Bacia de Campos), com lâmina d’água até 1.900m; o 3º título, em 2015, contemplou o conjunto de dez tecnologias especialmente criadas para produção do pré-sal, que hoje responde por mais de 77% da produção nacional, sobretudo na Bacia de Santos.

Leilão de dezembro será o grande teste

O teste, na prática, de todos esses esforços de avanços tecnológicos da Petrobras serão os leilões, em dezembro, dos campos de Atapu e Sépia, na Bacia de Santos. Em 2019, os dois blocos não receberam ofertas no megaleilão da área original da chamada “cessão onerosa”. Só um consórcio liderado pela Petrobras (com parceria de duas estatais chinesas em 10%) em levou os outros dois blocos, por R$ 70 bilhões, sem lances de concorrentes.

Dois anos depois, com a pandemia da Covid-19 no meio e as notas metas climáticas de redução de CO2 na atmosfera antecipadas de 2060 para 2050 e 2030 pelas principais potências econômicas do mundo, que investem nos veículos elétricos (ônibus, caminhões e carros de passeio) e fontes alternativas, será a prova dos nove se o pré-sal ainda é um atrativo.

O ministro das Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, aproveitou a OTC para iniciar um “road show” para convencer as grandes “majors” a virem ao Brasil. Por ora tem agendas com a Exxon/Mobil, maior gigante dos Estados Unidos, a francesa Total a colombiana Ecopetrol (mirim, comparada à Petrobras) e a gigante estatal chinesa CNOOC.

O conto do “bilhete premiado”

Descoberto em 2006, no governo Lula, o pré-sal foi tratado como “um bilhete premiado”, capaz de garantir riqueza para os próximos 30/40 anos, incluindo a melhoria da “educação de qualidade”, como defendeu depois a presidente Dilma ao vincular a arrecadação do pré-sal à destinação de mais verbas para a educação aos estados e municípios. Ex-ministra de Minas e Energia, como chefe da Casa Civil, Dilma suspendeu em 2010 os leilões de concessão e instituiu o conceito de partilha no pré-sal, com pelo menos 30% dos blocos leiloados garantidos para a Petrobras.

Diante da escala dos poços (há colunas de petróleo com altura entre o Pão de Açúcar e o Corcovado e diâmetro superior ao da Baía de Guanabara), a exploração do pré-sal seria alvo de amplo programa nacional de plataformas produzidas para a Petrobras em estaleiros construídos por empreiteiras, sócias em parceria com indústrias estrangeiras, que forneceriam tecnologia.

Seria um novo ciclo de riqueza e desenvolvimento. Só que faltou combinar com os russos, árabes, americanos e demais “players” da economia mundial. A crise financeira global, nascida nos Estados Unidos (em julho de 2008) derrubou os preços do petróleo (que estavam a US$ 145 em julho de 2008, com projeções para mais de US$ 200 em 2010) e causou enormes prejuízos à Petrobras, jogando seus planos no espaço (a corrupção e superfaturamento nas obras de refinarias e estaleiros, descobertas na Lava-Jato parou tudo).

O fracasso do leilão de cessão onerosa 2019, o 1º grande do governo Bolsonaro, vem daí. Só que de lá para cá os fatos conspiraram ainda mais contra os sonhos brasileiros. O petróleo tem menos atrativos hoje (Brent a US$ 77) do que em 2019 e bem menos que em 2010. Será a prova dos nove do “bilhete premiado”.