Mercado prevê alta de 1% na Selic em agosto e setembro

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Agora é quase unânime. Na pesquisa Focus divulgada nesta 2ª feira, 2 de agosto, pelo Banco Central junto a 116 bancos, institutos de pesquisas e consultorias, o mercado está prevendo duas altas seguidas de 1 ponto percentual na taxa Selic nas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) em 4 de agosto e 22 de setembro. E a decisão desta 4ª feira só não será unânime (9 votos – o presidente Roberto Campos Neto e os oito diretores) porque o colegiado vai estar desfalcado justamente do diretor de Política Monetária. Bruno Serra Fernandes está com Covid-19, isolado em casa e não vai participar da reunião.

As projeções dos principais bancos do país aumentaram tanto a taxa de inflação quanto o nível da Selic. O Itaú divulgou 6ª feira, 30 de julho, aumento da inflação do IPCA de 6,1% para 6,9% este ano e, em consequência do surto inflacionário, que pode ser agravado com o impacto das geadas nos preços agrícolas e na geração de energia hidroelétrica, reajustou de 6,5% para 7,5% ao ano a taxa Selic este ano (1 p.p. em agosto e setembro, 0,75 p.p, em 27 de outubro e 0,50 p.p. em 8 de dezembro), com o nível de 7,5% mantido em 2022.

A LCA Consultores também já tinha feito esta revisão do IPCA de 6,4% para 7% e reajustado a Selic de 7% para 7,5%, nível mantido para o ano que vem. O Bradesco refez suas previsões na 6ª feira, 30 de julho: o IPCA subiu de 6,4% para 7,1% e a Selic saltou de 6,50% para 7%, nível mantido para 2022. O Santander também espera duas altas de 1 p.p. na Selic.

PIB mantido em 5,3% para 2021

O mercado ajustou ligeiramente a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto para este ano em 5,30% (5,29% na semana anterior) e de 2,10% para 2022. O Itaú manteve a previsão de 5,8% este ano e 2% em 2022. O Bradesco manteve a previsão menor para 2021 (5,2%) e maior para 2022 (2,2%).

Crise energética preocupa

Enquanto as atenções voltam-se para Brasília, com a retomada dos trabalhos no Congresso (incluindo o prosseguindo da CPI da Covid e a tramitação de projetos e medidas provisórias) e no Judiciário, após o recesso de julho, o que está preocupando empresários, banqueiros e analistas econômicos é a falta de reação das autoridades governamentais ao agravamento da crise energética.

Os níveis dos reservatórios das usinas hidroelétricas do Centro-Sudeste estão no menor da história. Para um total de 67.037 MW produzidos às 13:25 desta 2ª feira, 2 de agosto, a geração hidroelétrica contribuiu com 50%, a termelétrica sustentou 28%, a eólica, garantiu fatia de 14%, a energia solar gerou 3,8% da carga total, superando os 3% da energia nuclear (reforçados deste a semana passada com o funcionamento pleno de Angra II, após parada de manutenção) e o quadro se completou com a importação de 563 MW da Argentina e Uruguai, correspondendo a 0,8% do total. Os valores variam ao longo do dia. A energia solar, por exemplo, só é gerada das 8 horas às 17:50.

Faltam chuvas e ventos

As projeções para a carga das fontes energéticas é que são preocupantes. Até novembro, quando, enfim, são esperadas chuvas capazes de restabelecer os níveis das usinas do Centro-Oeste e Sudeste (onde algumas usinas estão com menos de 15% de água armazenada, caso de metade das usinas dos rios Paranaíba e Grande, do Sistema de Furnas), com as usinas termelétricas no limite máximo de utilização, assim como as nucleares, “só poderá haver compensação com a perda de geração hidrológica com o acionamento de cogeração de usinas de biomassa, sobretudo palha e bagaço de cana”, adverte o engenheiro elétrico Manuel Jeremias Leite Caldas.

Ele lembra que a carga da energia solar é parcial (pode aumentar com a maior insolação diária na primavera e novos projetos), mas não será capaz de passar de 5% do total. E a questão preocupante é que de outubro a novembro, quando sazonalmente diminui a força dos ventos no Nordeste, sobretudo no Rio Grande do Norte, maior gerador de eólica, a contribuição desta fonte de energia vai cair dos atuais 14%-15%, sem alternativa equivalente.

Hoje, por falta de linhas de transmissão entre os sistemas do Nordeste e o Sudeste - Nordeste e Norte têm integração, mas não para a região de maior população e concentração de indústrias que mais consomem energia no país), o Nordeste se torna, paradoxalmente, uma ilha de desperdício. Tem energia de sobra, que tanto poderia ser transportada quanto consumida por indústrias locais, gerando empregos e renda na 2ª região mais populosa do país. Mas, além de carecer de uma política do governo Bolsonaro para atração de fábricas, o NE perdeu fábricas da Ford em Camaçari (BA) e no Ceará.