Onde estão os marajás das estatais

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Não gosto da expressão “marajá”, popularizada pelo então governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello, e já com intenção de lançar à presidência da República, em 1989. Mas a lista das 46 estatais, feitas pela Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (Sest) que identificou as 27 autossuficientes (como Petrobras, Eletrobrás, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal) e as 19 empresas que precisam ser bancadas pelo Tesouro Nacional, como a eficiente Embrapa e outras que funcionam como cabides de apaniguados políticos ou de oficiais da reserva das três armas, divulgado nesta 3ª feira, 20 de julho, pelo Ministério da Economia, com dados de 2020, merece algumas observações.

Oficialmente o conglomerado estatal que mais emprega é o do BB. O grupo Banco do Brasil tinha 189.955 funcionários ao final do ano passado, com salário médio de R$ 8.379. O 2º maior empregador era a CEF, com 167.381 funcionários no conglomerado, com média salarial de R$ 10.961. A Empresa de Correios e Telégrafos (ECT), que o governo quer privatizar este ano, tinha 98.101 funcionários, mas com média salarial das mais baixas entre as estatais: R$ 4.266.

Das grandes estatais brasileiras, cabe justo à maior, a Petrobras, que tinha 89.759 empregados, uma das médias salariais mais elevadas: R$ 25.164. Na planilha de 2020, o salário médio da Petrobras era superado pela média salarial de R$ 31.700 dos 4.969 funcionários do BNDES, com sede em frente na mesma Avenida Chile, no Rio de Janeiro. Ou ainda pela média de R$ 34.124 recebida pelos 57 empregados da menor estatal do país em estrutura burocrática, a Pré Sal Petróleo S.A. – PPSA) onde o presidente José Eduardo Vinhaes Gerk ganhava a R$ 73.032,62 e os diretores, R$ 69.661,89. Como se vê, o petróleo e gás ainda puxa os salários no setor público e estatal.

Os números da Petrobras com gastos de pessoal não estão completos por falta de transparência alertada pelos técnicos da Sest referentes a 2020. Estão na mesma situação a Eletrobrás, o BB, o Banco do Nordeste, o Basa e a Teletrás. Mas o relatório conjunto da Secretaria Especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados (SEDDM) e da Sest, sem dar nome aos bois, insinua que era lá que que “os salários de executivos chegam a R$ 145 mil por mês” e os “honorários dos presidentes podem chegar à casa dos R$ 2,9 milhões por ano”, computando-se a participação nos lucros. Após reclamações do presidente Jair Bolsonaro, a Petrobras está revendo a remuneração da diretoria.

Mas não gosto do modo como a SEDDM e a Sest classificam as estatais. Nem todas as que são autossuficientes, por não dependerem de aportes do Tesouro, são tão eficientes, mesmo recolhendo dividendos sobre os lucros ao Tesouro Nacional. E nem toda a estatal dependente é um estorvo. Qual o valor das pesquisas dos técnicos da Embrapa que garantiram a viabilidade do plantio de soja, milho, cana de açúcar, algodão, arroz, feijão e trigo nas terras do Cerrado? Os resultados na balança comercial compensam largamente.

Mas e o que dizer de um órgão que é a expressão do clientelismo, ou melhor do exercício do coronelismo dos líderes políticos do Nordeste como a Codevast (Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco), vinculado ao Ministério do Desenvolvimento Regional, comandado por Rogério Marinho? Seus 1.501 funcionários estão apoderados por apadrinhamentos políticos e por estarem a seu cargo as obras de transposição das águas do rio São Francisco para o sertão de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. O salário médio, de R$ 20.794, supera a média de R$ 20.194 dos 8.154 técnicos da Embrapa. Também é alta a média salarial dos 739 funcionários da Companhia Docas do Rio de Janeiro (CDRJ), que percebem R$ 12,427.

Algumas estatais que já eram feudos de militares (como a Emgepron e a Amazul, que abriga oficiais da Marinha), Infraero (da Aeronáutica), passaram a receber indicações de oficiais da ativa e da reserva que foram contemporâneaos do presidente Jair Bolsonaro no Exército. Isso ocorreu na Petrobrás, na PPSA, na Transurb e em unidades da Ceasa nos estados. No Ministério da Saúde, o desempenho dos militares foi pífio e eivado de suspeitas.

A biruta está solta no mercado

Não sei se foi o efeito das geadas no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, ou o avanço da nova variante Delta da Covid-19, mas os mercados financeiros parecem regidos pela biruta desde a 6ª feira passada: uma simples rajada muda a direção de tudo, numa indicação de que a recuperação econômica mundial depende do avanço da vacinação em todas as nações mais populosas alcançar cerca de 70% dos habitantes (no Brasil menos de 18% da população está imunizada com a 2ª dose).

Há fatores importantes que reforçam a visão do Fed e dos principais bancos centrais do mundo de que as pressões inflacionárias tendem a ser transitórias por ajustes de moedas e preços das commodities (a queda das cotações do petróleo após o acordo da OPEP+ aceitar a gradual elevação da produção) caminha nesta direção. Isso fez os mercados internacionais se firmarem hoje.

No Brasil, a B3 e o real tiveram uma jornada de recuperação, mas o mercado segue sem consenso sobre a velocidade (e a intensidade) da redução de estímulos monetários (mais acelerada do que se esperava no começo do ano) e o mercado ainda se divide se o Copom manterá o ritmo de aumento de 0,75 ponto percentual na taxa Selic (de 4,25% para 5% em 4 de agosto, fechando o ano em 6,50% ao ano; ou engatará 1% nas próximas reuniões (agosto, setembro e outubro), como previa o Santander, para quebrar as expectativas da inflação que tende a ficar na faixa acima de 8% até setembro.

Para a LCA Consultores, que chegou a prever alta para até 7% ainda este ano, “a renovada pressão sobre o câmbio doméstico e leituras ainda desconfortáveis da inflação corrente são fatores que, de fato, sugerem haver chances relevantes de o Copom acelerar o ritmo de elevação da Selic”. Entretanto, pondera, “como a atividade interna perdeu algum fôlego e as expectativas de inflação para 2022 em diante seguem bem-comportadas, mantemos projeção de Selic em elevação de 0,75 p.p. nas próximas reuniões do Copom. A LCA mantém a expectativa de normalização completa em direção a uma política monetária neutra, mas alterou a previsão de Selic sendo elevada a 7% ao ano para o começo de 2022. O Bradesco e o Itaú esperam 6,5%.

Mas enquanto os egos dos bilionários não cabem mais na atmosfera terrestre, vejo candidatos a ficarem ricos da noite para o dia desorientados. Nunca dei força para o mercado de criptomoedas (por sinal inflado por um dos competidores do espaço, Elon Musk). Não há regulação das quantidades. Por isso não me espanta quando vejo tombo como o dos últimos dias. Como os valores são altos em dólar e dólar e real vêm oscilando muito, o risco vira exponencial. Todo cuidado é pouco e só poucos podem voar na estratosfera.