Inflação ameaça meta também de 2022

.

CPDOC JB
Credit...CPDOC JB

O ano de 2021 já é um caso perdido. A inflação oficial, medida pelo índice de Preços ao Consumidor Amplo deve fechar o ano acima de 6%. Muito além do teto da meta do Banco Central, que é de 3,75%, com tolerância de estouro de 1,5 ponto percentual – até 5,25%). O mercado financeiro, de acordo com a Pesquisa Focus encerrada 6ª feira, 2 de julho, e divulgada hoje pelo Banco Central, elevou a projeção deste ano de 5,97% para 6,07% (6,10% na média dos três últimos dias) e a taxa de 2022 também já subiu no telhado: a meta é de 3,50%, mas o mercado está esperando 3,77%.

Todos os departamentos de estudos econômicos dos bancos e consultorias econômicas estão revisando para cima as projeções da inflação, que iniciou o ano com previsão de 3,3%, lembra o Banco Safra. O Bradesco reviu a taxa de 5,5% para 6,4%, mesmo nível esperado pelo Safra. O movimento de escalada foi causado, entre outros fatores, pela alta do preço internacional do petróleo, que passou este ano de US$ 50 para US$ 75 por barril e gerou uma alta de quase 25% nos preços de combustíveis nos postos, como gasolina e etanol, além dos efeitos indiretos do aumento do óleo diesel, com nível próximo.

Em alta no mercado internacional e estimulados pelo câmbio, os preços de produtos alimentícios também pressionaram a inflação no período. A cotação de grãos, como soja e milho, registrou forte alta durante o final de 2020 e o primeiro semestre de 2021. Outras commodities, como a carne de boi e o arroz, tiveram expressiva aceleração de preço no mercado doméstico desde o começo de 2020.

A situação só não foi pior porque o dólar começou a ceder diante do real depois que o Banco Central iniciou o aumento da taxa Selic em março. Se tivesse sido mais ousado na largada (com 1,00% que pretende adotar agora em agosto, em vez dos 0,75% repetidos três vezes, poderia ter abreviado a escalada da inflação que entrou no patamar de 8% em maio e só deve abandonar esta faixa em setembro.

Choque no gás

Mas o 1º reajuste da gasolina (6,3%) e do diesel (3,7%) e no bujão de gás (o GLP aumentou 5,8%) na gestão do general Joaquim Silva e Luna, na Petrobras, a partir de amanhã, pode complicar os números da inflação parcialmente neste mês e em agosto e setembro.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, vinha prevendo desde o ano passado, um choque positivo no mercado de gás. Com o novo marco regulatório do setor, aprovado este ano, previa queda de 30% a 50% nos preços do gás ao consumidor. Faltou apenas combinar com os russos, os árabes, os chineses e os consumidores europeus e americanos. O GLP já acumula este ano alta de 3% no Brasil e há mais pressão externa devido ao câmbio, que Guedes e o Banco Central deixaram correr solto.

Em meados do ano passado, quando o dólar estava em R$ 3,80, Guedes admitiu que poderia ir a R$ 4,/4,50 e "passaria dos R$ 5 se fizermos muitas besteira". Chegou a R$ 5,9 e agora depois de três meses de queda, como reação à alta dos juros que trouxe de volta capitais de brasileiros no exterior, está na faixa de R$ 5.

O Safra destaca que os preços de alimentos subiram 20% entre fevereiro de 2020 e maio de 2021, com esse choque sendo constantemente destacado nos discursos de diretores do Banco Central. “No entanto, registre-se que os preços de algumas commodities agrícolas começaram a ceder recentemente [graças à apreciação do real], o que poderia levar a uma revisão baixista da nossa projeção de inflação de 2021 em torno de 0,2 ponto porcentual”.

PIB melhora mais um pouco

As projeções para o PIB de 2021 estão sendo revistas para cima. O Bradesco elevou a projeção de 4,8% para 5,2%. Mas a de 2022 segue bem mais modesta, ainda que com revisão para cima – de 2% para 2,2%. O mercado espera 2,10% em 2022 e o Safra, já considerando que a taxa Selic pode ficar entre 6.50% e 7.00% (previsto pela LCA Consultores), acredita que o PIB suba até 5% este ano e 2% em 2022.

Preocupado com a inflação, o mercado estima que a Selic feche este ano em 6,50% ao ano (estamos em 4,25%) e fique em 6,75% em dezembro de 2022 (com o nível provavelmente sendo atingido no 1º trimestre de do ano que vem.

Crise hídrica, a incógnita

O que atrapalha o combate à inflação, diante dos aumentos nos preços de combustíveis e alimentos, que tendem a desacelerar em 2022, é o desdobramento da crise hídrica – vale dizer, a péssima gestão combinada das fontes de energia hidroelétrica, térmicas a gás ou óleo, eólica, solar e nuclear pelo Operador Nacional do Sistema, Aneel e Ministério de Minas e Energia. As estiagens são sazonais de maio a novembro no Sudeste e Centro-Oeste, onde estão as principais usinas hidroelétricas do país. Não deveria ter sido surpresa.

Em maio do ano passado já houve uma redução considerável no nível dos reservatórios. Mas a crise não foi antecipada porque a economia estava em retração. Entretanto, a fixação da bandeira verde de maio a dezembro e a alta do dólar (40% no pico até outubro) levaram as indústrias eletro-intensivas a produzir muito para exportação. Quando os gestores do setor elétrico perceberam, em novembro, o consumo elevado de energia por esses setores tinha deixado o nível dos reservatórios em situação crítica.

Deviam ter sido despachadas as usinas térmicas em agosto/setembro, para economizar água para 2021. O que se fez foi cancelar a bandeira verde em dezembro, com adoção direto da bandeira vermelha 2. Agora, a situação se agravou e a bandeira 2 foi elevada em 52% (de R$ 62,40/MWh para R$ 94,90/MWh), afetando os consumidores residenciais e comerciais que não tiveram desvio no uso de energia em 2020.

E ainda há risco de corte de energia. Na verdade, o racionamento atual se dá pela tarifa, sem exceção (como em 2001, para os pequenos consumidores). A Aneel abriu consulta pública para debater com a sociedade possíveis alterações na metodologia da definição das bandeiras. O Safra acredita que “após o período de contribuições à consulta, os diretores da Aneel definirão um valor ainda mais alto para a bandeira vermelha patamar 2, ao redor de R$ 115,00/MWh, para cobrir o custo da energia térmica e outras fontes que estão sendo despachadas para compensar o déficit na produção hidroelétrica, de custo mais barato”.

Assim, esperamos que a inflação de energia elétrica suba para 8,3% em julho. Considerando o ano cheio de 2021, prevemos uma alta de 17% para esse item, o que tem como hipótese a manutenção da bandeira vermelha patamar 2 até o final de dezembro. A questão energética se tornou um custo tão importante e suas oscilações são tão bruscas que vários bancos, como o BTG Pactual criaram mesas de operação para atuar nos contratos futuros de energia livre.

Alívio em 2022

O Safra adverte que “a inflação mais alta em 2021 tem implicações para a inflação projetada para 2022”, porque “altas de preços costumam elevar a inflação dos preços livres nos períodos seguintes, por conta dos efeitos defasados nos custos das empresas e de reajustes nas expectativas de inflação. Nos preços administrados o choque resultante de fatores temporários, como os da energia atualmente, pode haver o contrário quando se abstraem os efeitos secundários.

Se a temporada de chuvas do próximo verão seja benigna, o ano de 2022 pode terminar com uma bandeira correspondente a uma tarifa mais baixa, ou a tarifa da bandeira vermelha patamar 2 vir a ter seu valor revisado para baixo, o que poderia trazer um alívio de 0,35 ponto porcentual no IPCA de 2022. O Safra reduziu de 3,7% para 3,3% a projeção para a inflação de 2022. Mas o consenso do mercado ainda aponta para 3,77%. Já o Bradesco desacelerou sua projeção de 3,5% para 3,3%.

A boa notícia, segundo o Safra, é que “também pode-se estimar a estabilização ou mesmo a queda de muitos preços agrícolas nos próximos 18 meses. O preço do arroz, por exemplo, já mostra queda de 35% na coleta ao atacado comparado com outubro do ano passado, e um movimento semelhante pode ocorrer com a carne bovina se as exportações tiverem menor aumento ou até diminuírem”. O banco espera reversão parcial do choque altista de alimentos no próximo ano, ainda que se deva ter cautela por conta de riscos climáticos já identificados, como o La Niña.