Choque elétrico: a palavra da moda é Creg e não cringe

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Os fatos são mais dinâmicos do que as palavras da moda. O termo cringe, usado pela geração Z, dos milenials, que rotulam expressões fora de moda ou antigas, também já está temporariamente ultrapassado. Com o choque elétrico que subiu em 52% a conta de luz para julho e pode subir ainda mais numa revisão que será feita no mês que vem, a nova palavra é Creg. Esta é a sigla da Câmara de Regras Excepcionais para Gestão Hidroenergética, criada para administrar a gestão de emergência do suprimento eletro-energético no país.

Alertado por artigos como o do engenheiro elétrico Manuel Jeremias Leite Caldas, publicado pelo JB, que lembrou que em 1971 tivemos níveis mais baixos dos reservatórios do Sudeste (antes de Itaipu e das hidroelétricas do Norte e das termoelétricas e fontes eólicas e solares e nucleares, a dependência da energia hídrica do Sudeste era bem maior e que, mais recentemente, em 2014, 15 e 16, os níveis dos reservatórios também estavam muito baixos), o ministro das Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, parou de dizer que a estiagem era a maior em 91 anos.

Só faltou o ministro reconhecer que além da má gestão combinada das fontes alternativas (as termoelétricas teriam que ser acionadas previamente para poupar água das usinas hidroelétricas no ano passado, quando a estiagem já foi elevadíssima e o O.N.S. deveria ter advertido o MME e outras instâncias de governo para o excesso de consumo de exportadores de alumínio, petroquímicos, celulose e minerais não metálicos). Até o diretor do Operador Nacional do Sistema elétrico, Luiz Carlos Ciochi, admitiu ter havido crescimento brutal da demanda e que será preciso buscar uma ação mais enérgica para a “conscientização do consumo” da indústria.

Consultorias já medem impacto na inflação

A agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou dia 19 de junho os novos valores das bandeiras tarifárias com vigência a partir de 1º de julho. Para a bandeira vermelha patamar 2, que seguirá em vigor no próximo mês, o valor passou de R$ 6,243 para R$ 9,492 a cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos. Com a maior inserção das fontes termoelétricas, houve aumento ainda nas tarifas de todas as bandeiras: a bandeira amarela sobe de R$ 1,343 para R$ 1,874 a cada 100 kWh, ao passo que a bandeira vermelha patamar 1 cedeu de R$ 4,169 para R$ 3,971 a cada 100 kWh.

A LCA Consultores, que está reavaliando para cima os impactos inflacionários das novas tarifas, lembra que a “diretoria da ANEEL também decidiu ontem colocar em consulta pública entre os dias 1º e 30 de julho a definição do valor da bandeira tarifária vermelha patamar 2 para os próximos meses. Serão debatidos dois cenários: a manutenção do valor em R$ 9,492 a 100 kWh ou elevar para R$ 11,50 a cada 100 kWh”.

A LCA chama a atenção para o voto da relatora do processo, diretora Elisa Bastos, de que “a eventual adoção do valor de R$ 11,50 a cada 100 kWh deverá proporcionar um maior equilíbrio entre receitas e custos nas simulações até o final do ano. Essa definição ocorrerá em nova reunião de diretoria e, de acordo com a mídia, a intenção era que um novo valor já valesse para agosto, mas, pelo prazo de contribuição, isso talvez não seja possível e fique para setembro”, observa a consultoria.

Pressão em 2021, queda em 2022

No cálculo da LCA, caso seja aprovado o incremento para R$ 11,50, haverá aumento de 2,85% das contas de luz, impactando o IPCA em +0,12 pp. Com isso, a LCA Consultores calculou que as contas de luz deverão subir cerca de 4,8%, com impacto total de 0,20 ponto percentual no IPCA de 2021. A LCA estava esperando inflação de 2021 de 6,2% para 6,4%.

Para 2022, no entanto, a LCA manteve a expectativa de que a bandeira tarifária para a energia elétrica estará no patamar amarelo ao final do ano. Como o diferencial (em reais) entre as bandeiras aumentou, o retorno da bandeira tarifária para nível amarelo no ano que vem tenderá a gerar um alívio maior na inflação, de modo que nossa projeção para a alta do IPCA em 2022 foi revista de 3,8% para 3,7%.

Alta da luz será compensada pelos alimentos

Mas A LCA observa que a queda do dólar, ou melhor a apreciação do real, depois que o Banco Central incrementou a alta dos juros da taxa Selic (atualmente em 4,25% ao ano, com previsão de alta de 1 ponto percentual em 3 e 4 de agosto, na visão do Departamento de Estudos Econômicos do Itaú) pode contribuir para atenuar as pressões inflacionárias nos produtos agrícolas de exportação e nos bens industriais.

O resultado do IGP-M de junho (alta de 0,60%, bem abaixo dos 4,10% de maio) já refletiria o efeito do dólar. A LCA esperava 0,92% e o mercado 1%. A redução da taxa do dólar já se refletiu na variação dos produtos agrícolas. Nos 12 meses terminados em junho, eles subiram 53,29%. Mas no acumulado dos seis meses de 2021, a alta caiu para 11,74%. No caso dos produtos industriais houve o inverso (explicado pela escalada dos combustíveis, derivados de petróleo e da energia elétrica este ano): em 12 meses, a alta foi de 45,41%, contra 22,05% de janeiro a junho.

Graças ao alívio no câmbio, a LCA prevê taxas mais modestas para a variação dos produtos industriais neste 2º semestre. Como já está ocorrendo nos produtos agrícolas, com deflação em itens importantes como milho, trigo, soja, batata-inglesa, tomate, algodão, arroz e mamão.

LCA ainda prevê Selic em 7% este ano

Apesar de considerar que “as distorções associadas à pandemia começam a sofrer gradativa diluição, o risco de uma reversão abrupta de estímulos monetários nos EUA (e em outras economias centrais) segue limitado - situação que tende a manter o ambiente internacional relativamente benigno aos mercados emergentes, e o impacto favorável da desaceleração do câmbio, a LCA mantém a projeção da alta da Selic “para 7% até o final deste ano - e estabilidade do juro básico nesse patamar neutro ao longo de todo o ano que vem”. A consultoria considera que as políticas monetária e fiscal deixarão gradativamente de dar impulso à atividade, o que reitera a perspectiva de um ritmo moderado de crescimento.

Mas a consultoria adverte que “os principais fatores a potencialmente exercer pressão sobre o câmbio (e pesar sobre a confiança privada) em 2022 são a provável moderação do apetite global ao risco e tensões políticas internas relacionadas às eleições, sobretudo diante da expectativa de polarização Bolsonaro-Lula”.