Inflação segue acima de 8% até setembro

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A pesquisa semanal Focus do Banco Central trouxe nesta 2ª feira boas e más notícias. A boa é que o consenso do mercado aposta que o PIB de 2021 vai crescer 5,05% (acima da projeção de alta de 4,6% do Relatório Trimestral de Inflação, divulgado pelo BC na 5ª feira, 25 de junho), embora espere apenas 2,11% para o PIB de 2022.

A má notícia é que a inflação esperada para este ano (5,97%, na mediana da pesquisa fechada 6ª feira e de 6% nas previsões dos três últimos dias) estoura o teto da meta (3,75% + 1,50% de tolerância, ou seja, 5,25%. E o mercado se convenceu de que a taxa Selic, atualmente em 4,25% ao ano subirá para 6,50% este ano e fechará 2022, 2023 e 2024 neste nível de 6,50% ao ano.

Para o país, que teve a taxa em 2% ao ano de agosto de 2020 até março deste ano, é ruim. É a volta ao nível que vigou de março de 2019 a julho de 2019. Entretanto, é bom reconhecer que a taxa Selic andou parada por longos meses em 14,25% ao ano até agosto de 2016, quando iniciou a queda até 6,50%. Há quem aposte, como a LCA Consultores, que o Comitê de Política Monetária (Copom) possa elevar a Selic até 7% ao ano na reunião de dezembro.

Com inflação alta, Selic está atrasada

O Itaú, que espera 6.50% para a Selic este ano, acredita que o Copom vai elevar a Selic em 1 ponto percentual na reunião de 3 e 4 de agosto, para 5,25%, com aumentos de 0,75 p.p, em setembro e 0,50 p.p. em outubro, chegando aos 6,50% ao ano.

Esta alta abrupta de 1 ponto percentual (que defendemos aqui na coluna em março) seria a forma de mostrar que o Banco Central está atento ao alto nível da inflação em 12 meses. Depois de atingir os 8,06% em maio, o Itaú espera que o IPCA de junho, a ser divulgado dia 8 de julho pelo IBGE suba 0,55%. Como o aumento em junho de 2020 foi 0,26, a inflação em 12 meses chegaria a 8,37%. Para julho, o Itaú espera 0,60% em julho (foi 0,36% em 2020), o que elevaria a taxa em 12 meses a 8,57%. Para agosto, por ora, o Itaú estima o IPCA em 0,18%, com queda frente aos 0,24% de agosto de 2020, mas com o IPCA na faixa de 8,4% em 12 meses. Queda mesmo só em setembro.

A LCA Consultores tem previsões mais elevadas (daí apostar na Selic em 7% até dezembro). Ela prevê IPCA de 0,64% em junho (uma desaceleração frente aos 0,83% de maio) e não dá tanta ênfase ao peso dos reajustes da energia elétrica como principal fator de pressão. A LCA avaliou cinco grupos do IPCA que “contribuirão para uma desaceleração parcial do IPCA em junho: (i) Habitação, [depois de subir 1,67% em maio, teria alta de 1,16%], já que a transição de bandeira tarifária em energia elétrica no mês de junho (de vermelha I para II) tem menor impacto no índice do que o visto em maio (de amarela para vermelha I), (ii) Vestuário [redução da alta de 0,88% para 0,57%] (já que os efeitos de entrada de nova coleção perderão força), (iii) Transportes, variação de 1,02%, contra 1,365% em maio] (pela menor pressão de combustíveis), (iv) Saúde e cuidados pessoais [a taxa cairia de 0,53% para 0,28%]- pois o reajuste autorizado de produtos farmacêuticos ao final de março tem impactos mais relevantes no IPCA nos meses de abril e maio - e (v) Comunicação [de 0,15% para 0,06%], pela descompressão de telefonia fixa e de aparelho telefônico”.

Se a previsão da LCA se confirmar, a inflação em 12 meses salta para 8,46%.

O ministro de MME e o apagão

O almirante Bento Albuquerque, ministro das Minas e Energia, vai fazer pronunciamento de quatro minutos, às 20 horas de hoje, em cadeia nacional de rádio e televisão, para garantir que, apesar da péssima gestão do governo na crise hídrica, que vem desde maio do ano passado, não haverá apagão ou racionamento. Ah, bom.

Só haverá um aumento descomunal na conta de energia devido à má gestão do nível dos reservatórios, que deveriam ter sido poupados no ano passado com o acionamento das termelétricas a gás natural (ressalte-se que os preços do gás natural e dos combustíveis só começaram a subir em dezembro do ano passado, juntamente quando o MME acordou e trocou a bandeira verde de energia, que iria vigorar de maio a dezembro, pela bandeira vermelha 2).

As sucessivas declarações otimistas do MME me lembram, tristemente, os brieffings diários à imprensa do então porta-voz da presidência da República, Antônio Britto, para dar conta do estado de saúde do presidente eleito Tancredo Neves. Na véspera de sua posse, em 15 de março de 1985, Tancredo teve de ser operado, às pressas, de uma apendicite supurado (até hoje não foi esclarecido se era ou não um tumor cancerígeno), ocasionando aposse do vice-presidente, José Sarney.

Britto começava seus brieffings invariavelmente com um animado “Senhores, trago boas notícias”. Infelizmente, a saúde de Tancredo, que teve de ser transferido do Hospital de Base de Brasília, onde sofreu a primeira intervenção, para o Instituto do Coração, em São Paulo, onde veio a falecer em 21 de abril. Como o tempo chegava a ser constrangedor o descompasso entre as falas otimistas e o tom grave dos boletins médicos que transmitia.

Se na época existissem as redes sociais e os memes atuais, decerto algum gaiato sem noção teria postado uma fala de Britto dizendo, por hábito: “Senhores, trago boas notícias, o presidente morreu” - ops.

A culpa é dos grandes consumidores

Espera-se que o governo não continue condescendente com os grandes consumidores industriais de energia, os produtores de bens eletro-intensivos, que consumiram energia elétrica (ou seja água dos reservatórios). Eles tiveram lucros extras em 2020 com a alta do dólar, rasparam o tacho das usinas, nas barbas do governo e ainda queriam um incentivo agora. Ou apenas se comprometiam em reduzir em 5% o consumo nos horários de pico.

E os consumidores residenciais, que estão gastando mais energia com o trabalho em casa, ó...