Nem o BC acredita em PIB acima de 5%

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Ao divulgar nesta 5ª feira o Relatório Trimestral de Inflação, o diretor de Política Econômica do Banco Central, Fábio Kanczuk, jogou água na fervura das projeções do mercado financeiro que preveem crescimento acima de 5% no PIB deste ano e a continuidade do ritmo em 2022. O Itaú, que reviu no dia 10 de junho a projeção do PIB de 5% para 5,5% no PIB mas manteve a previsão de 1,8% em 2022 (e há no mercado quem fale em 7% este ano e dinamismo em 2022), foi o 1º a chamar a atenção para o conservadorismo do BC, que reviu apenas de 3,6% (no RTI do 1º Tri) para 4,6% a projeção do PIB de 2021.

O Departamento de Estudos Econômicos do Itaú destacou: “Digno de nota, o BCB trouxe uma revisão menos intensa que a esperada para a projeção de crescimento do PIB em 2021, de 3,6% para 4,6% (bem abaixo da nossa expectativa de 5,5% e do consenso do mercado de 5,0%)”.

O Relatório Focus da semana passada apostou crescimento de 5% para o PIB deste ano e de 2,10% para 2022. O Bradesco espera alta de 4,8% este ano e de 2% em 2022. O Santander espera 4,85% este ano e 1,51% no ano que vem. A LCA espera 5% este ano e 2% no ano que vem.

A decomposição do PIB de 2021, já levando em conta uma apreciação do real frente ao dólar em função das recentes elevações da taxa Selic, aponta - pelo lado da produção - para alta de 2,5% na agropecuária (2% no RTI de março), de 6,4% para 6,6% na Indústria e de 2,8% para 3,8% na variação do PIB do setor de serviços, que pesa mais de 70% na formação do PIB. A Indústria como um todo pesa cerca de 22%. A Agropecuária não chega a 6%.

Do lado da demanda, o Consumo das famílias teve o crescimento elevado 3,5% para 4% e o aumento do Consumo do governo reduzido de 1,2% para 0,4%. Outro segmento que teve forte aumento de crescimento foi a Formação Bruta de Capital Fixo (FBKF), de 5,1% para 8,1%. Entretanto, o setor externo, que impulsionou em 1,2% o PIB de 2020, este ano terá redução de 0,5% na formação do PIB final, na avaliação do Banco Central.

No Relatório Trimestral de Inflação, o Banco Central assinala que depois da alta de 1% no PIB do 1º trimestre (1,2% com ajuste sazonal), haveria alta de 12,1% no 2º trimestre (sobre o 1º), de 4,6% no 3º trimestre (sobre o 2º) e de 2,5% no último trimestre (sobre o 3º). Mas o BC admite pequenos ajustes nas projeções quando o ano fechar com o PIB real (o que será conhecido em maio de 2022. Poderia haver desvios para mais de 1,3% a 0,5% no PIB do 1º trimestre, redução de 0.1% a 0,4% no 2º trimestre; variação positiva de 0,5% a 1,2% no 3º trimestre e alta de 0,8% a 1,2% no 4º trimestre.

Juros e inflação

No cenário base do BC, o IPCA deste ano está projetado em 5,8% (alta de 0,8 ponto percentual em relação ao RTI anterior), refletindo as pressões inflacionárias correntes, a elevação dos preços de commodities, o crescimento das expectativas de inflação e a alteração da hipótese sobre a bandeira tarifária de energia elétrica para o final do ano. Isto significaria um estouro no teto máximo da metade de inflação (3,75%, com tolerância de desvio de 1,5 ponto percentual para cima – até 5,25%).

Essa alta, lembra o Bradesco “só não foi maior por conta da elevação das expectativas de juros no Focus e da recente apreciação cambial – elementos importantes pensando nas próximas decisões do Copom. Já a projeção para 2022 não oscilou e permaneceu igual à meta, de 3,50%, enquanto a de 2023 foi revisada de 3,5% para 3,3%. O Bradesco concluiu que “cenário central do Banco Central é compatível com o ajuste da política monetária ao nível neutro”, aquele em que não impacta para cima a inflação.

Para o Itaú, “o relatório de inflação de junho de 2021 mostra projeções consistentes com a continuidade do processo de aperto da política monetária, com novas altas de juros à frente. O ritmo de elevação, que projetamos ser de 1,00-0,75-0,50 p.p. nas reuniões de agosto, setembro e outubro, respectivamente, irá seguir dependente da evolução do cenário e, em particular, das expectativas para o IPCA em 2022”, diz o Itaú.

O Bradesco, entretanto, considera que o RTI “não trouxe elementos adicionais que justificariam um ajuste mais célere na próxima reunião” do Copom em agosto (alta de 1,00 p.p.) O Bradesco espera a repetição da alta de 0,75 p.p.

Mas o Itaú observa que “os estudos apresentados nos boxes do relatório mostram que (1) a relação entre a crise sanitária e a atividade econômica muda ao longo do tempo, o que ajuda a entender as surpresas positivas em dados recentes; (2) efeitos sazonais e de calendário podem ter sido impactados pela pandemia, o que, dentre outros efeitos, implicaria um carrego estatístico menor em 2021; e (3) os vieses de seleção relacionados a problemas de coleta da PNAD Contínua durante a pandemia não parecem ter tido efeitos relevantes em métricas do mercado de trabalho”.

“Além disso, um boxe final analisa cenários de risco para as projeções de inflação. Mudanças de expectativas sobre o início ou velocidade de normalização da política monetária americana elevariam tais projeções para 2021, e, supondo uma depreciação cambial permanente e elevação da taxa neutra de juros, para 2022 também. Um segundo grupo de cenários quantifica a redução esperada da inflação em relação ao cenário base supondo a volta de preços de commodities e/ou do câmbio para níveis pré-pandemia”, diz o Itaú.

PIB da Argentina cresce 2,6% no 1º trimestre frente a 2020

Para se entender a fraqueza do setor externo na formação do PIB brasileiro, vale dar uma olhada no desempenho da economia do principal parceiro da América do Sul. O PIB da Argentina teve um crescimento de 2,5% frente ao mesmo período do ano passado. O desempenho foi impulsionado pelo crescimento das exportações, favorecidas pela alta dos preços agrícolas, bem como pela recuperação do consumo das famílias e do investimento, na medida em que o país se recupera da desaceleração decorrente da pandemia ocorrida a partir do ano passado. O Bradesco projeta crescimento do PIB de 4,0% neste ano. O que seria o primeiro resultado positivo após três anos de recessão.

Banco Central condena criptomoedas

Em apresentação, ontem, por videoconferência para o Conselho Diretor da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), sobre a possibilidade de adoção de uma Moeda Digital pelo Banco Central do Brasil (CDBC), o presidente do BC, Roberto Campos Neto, fulminou a ideia de o BC adotar criptomoedas. A opinião do Banco Central brasileiro sobre os criptoativos continua a mesma: “Esses são ativos arriscados, não regulados pelo BC, e devem ser tratados com cautela pelo público”, advertiu Campos Neto.

Ou seja, se os especuladores esperavam que as cotações dos mercados de bitcoins que estão em queda livre há uma semana (e baixa de 50% este ano) após as últimas restrições do governo chinês, pudessem ser salvas com operações de resgate do Banco Central brasileiro, podem perder as esperanças.

Quem já adotou

Roberto Campos Neto lembrou que apenas seis países já realizaram ou estão realizando projetos pilotos de criptomoedas de seus Bancos Centrais). São eles, as Bahamas, 1º país a lançar oficialmente seu CBDC em outubro de 2020, o Sand dollar; China, com piloto em algumas cidades; testes com visitantes estrangeiros nos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim de 2022 (mas o cartão vermelho desta semana foi pesado); Nos Estados Unidos, os trabalhos são conduzidos pelo Fed e pela Digital Dollar Foundation; Coreia, Japão e Suécia são outros exemplos proeminentes, mas sem conclusão. Mais quatro países estão envolvidos com provas de conceito e ao menos 42 países estão em estágio exploratório ou de pesquisa, entre eles o Brasil.

Mas os criptoativos, observou Campos, “não têm as características de moeda: meio de troca, reserva de valor e unidade de conta”.

O Banco Central segue estudando o assunto como parte do aperfeiçoamento dos meios de pagamento do sistema financeiro nacional. A saber:

Inovação e concorrência em uma economia digitalizada;

Redução do uso de dinheiro em espécie;

Melhora nos pagamentos transfronteiriços;

Redução de atividades ilícitas;

Inclusão financeira.

Ou seja, tudo em direção de redução de custos, mas sob total controle da autoridade monetária. Não um mercado em que se garimpam oportunidades na clandestinidade.