Paulo Guedes visita a ‘Boate do Ali Babá"

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Responsável maior pelos erros e acertos da política econômica, o ministro da Economia, Paulo Guedes, parecia ter feito, nesta 5ª feira, 17 de junho, ao participar, em Brasília, do 1º Fórum da Cadeia Nacional de Abastecimento, promovido pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras), uma viagem no tempo à “Boate do Ali Babá”, humorístico da TV Tupi da sua e da minha infância.

Em uma quase “reencarnação” de Carlos Lacerda, interpretado pelo ator Mário Tupinambá*, Guedes fez um “mea culpa” pela metade ao dizer que é inadmissível o Brasil, “celeiro do mundo, ser um país onde há fome”. Concordo com ele e já externei essa crítica desde o ano passado. Mas Guedes tergiversou sobre o problema ao atribuir ao “desperdício” a principal causa da distribuição desigual de alimentos no país. A fome no Brasil, que é estrutural, foi agravada por erros conjunturais.

Numa visão elitista de quem só frequenta restaurantes com menu à la carte, ou, no máximo, rodízio de comida à quilo, o ministro da Economia usou como exemplo a diferença entre o tamanho dos pratos europeus e os servidos nos restaurantes brasileiros. Ele observou que os pratos dos europeus, que passaram por duas grandes guerras, são pequenos. Já no Brasil existe um enorme desperdício de alimentos pelas classes mais altas. (Podia ter lembrado, também, que o café da manhã nos países frios é mais amplo que o pão com margarina e café com leite da classe média brasileira). Guedes acredita que a comida que sobra a cada dia nos restaurantes estaria mais bem aproveitada se distribuída aos mais vulneráveis.

Seria cômico se não fosse trágico. A comida falta na mesa dos brasileiros não pelo desperdício - imenso, de fato, desde a colheita nas fazendas e regiões produtoras, até as centrais de abastecimento e daí aos mercados e supermercados do país -, mas pela impossibilidade de milhões de brasileiros (desempregados, sem renda, ou simplesmente com rendimentos insuficientes para acompanhar as altas dos alimentos e do gás de cozinha) comprarem os alimentos, inflacionados pelo dólar, mas prateleiras dos supermercados.

Dólar deixa comida fora do alcance da maioria

Se estivéssemos com uma inflação estável e houvessem empregos e possibilidades de renda, o problema da desigualdade na distribuição de renda e acesso à alimentação seria bem menor. O ministro, que há muito não encara um PF (o popular prato feito ou a similar quentinha, que virou o ganha-pão de milhares de famílias desempregadas e alternativa mais à mão para outros milhares de famílias que podem pagar R$ 10 por um prato de comida), precisa reconhecer sua culpa na alta do dólar que agora obriga o Banco Central a correr atrás do rabo da inflação como um cachorro ensandecido.

Vale lembrar que, em maio do ano passado, quando foi cotado na média de R$ 5,640, a taxa de aumento do dólar em 12 meses foi a 40%, o que estimulou a exportação em massa das safras agrícolas. O governo não cuidou de garantir estoques reguladores e depois de o óleo de soja aumentar mais de 100% nos supermercados (por falta de soja em grão para fazer óleo e farelo), o país “celeiro do mundo” teve de importar soja em grão para isso, além de arroz e leite em pó. Em outubro, com o dólar em R$ 5,632, a alta em 12 meses caiu a 37,82%, fechando o ano em R$ 5,142, com variação de 25,1% em 12 meses.

Agora, com os recentes aumentos dos juros, o dólar desceu para R$ 5,00. Mas a redução da escalada dos preços dos alimentos anda bem lenta. Depois de ter subido 14,09% em 2020, o Item Alimentação e Bebidas acumulava alta de 12,54% nos 12 meses terminados em maio de 2021. Já o óleo de soja, que fechou 2020 com alta de 103,79%, manteve alta acumulada de 56,46% nos 12 meses terminados em maio. Já a carne (com maior peso no item alimentação, mas que vai sumindo da mesa de muitos brasileiros no país que é o maior exportador de carne bovina e de frango), depois de subir17,97% no ano passado, seguiu na trajetória de alta, acumulando 38% em 12 meses em maio.

Se os derivados de petróleo ajudaram a aliviar a alta dos alimentos em 2020, devido à baixa do óleo, desde dezembro o quadro se inverteu. Este ano, os combustíveis domésticos (vale dizer, o GLP, o popular gás de botijão, e o gás natural) subiram, em média, 13,65% até maio e 22,17% em 12 meses. Nos transportes, os combustíveis (gasolina, etanol, diesel e GNV) subiram, em média, 25,60% até maio e 56,40% em 12 meses até o mês passado.

A falta da autocrítica

*”Carlos Lacerda/Mário Tupinambá”, eterno oposicionista pela UDN, entra na “Boate do Ali Babá”, no começo dos anos 60, cercado por assessores e a imprensa. Logo há perguntas sobre a falta de luz (como agora, havia escassez de energia e Rio e São Paulo tinham racionamento, com apagão, das 19 às 21 horas, horário de pico de consumo das grandes indústrias). E “Lacerda”: “se falta luz, de quem é a culpa? É do governo!”. Outro pergunta pela água: “Se falta água, de quem é a culpa, é do governo!”. Como o governador estava fazendo a expansão do sistema do Guandu, para “garantir água até o ano 2000”, como uma das grandes obras de sua administração, um assessor cochicha em seu ouvido e ele brada: “Oh diabo, chega de oposição!”.

Paulo Guedes podia fazer autocrítica (que tanto cobra o governo Bolsonaro ao PT) para não ficar tão bizarro. Isso sem falar dos erros na gestão da Covid-19, como o fim do Auxilio Emergencial e medidas de apoio às empresas em 31 de dezembro de 2020, como se a pandemia fosse acabar no ano fiscal.

Banco Central corre atrás do rabo da inflação

Como não teve coragem ou ousadia de ser mais drástico já em março, quando iniciou o primeiro dos agora três movimentos de alta de 0,75 ponto percentual da taxa Selic para 4,25%, o Comitê de Política Monetária do Banco Central viu-se ontem na contingência – já que a inflação motivada pela alta do dólar nos alimentos, “commoditties” e combustíveis segue ameaçando o estoura das metas de inflação não apenas em 2021 (piso de 3,75%, com teto de 5,25%) e 2022 (piso de 3,50% e teto de 5%) - de anunciar nova alta, por unanimidade, de 0,75 p.p na reunião de 3 e 4 de agosto (a Selic iria a 5% ao ano), abrindo, porém, a possibilidade de 1 ponto percentual na taxa Selic, que iria a 5,25%.

No mercado financeiro, diante da cautela do BC, o dólar voltou a ensaiar pequena alta. Mas o consenso é de que, diante da sinalização do Fed, o BC dos Estados Unidos, de que subirá os juros (hoje na faixa de 0% a 0,25% ao ano) em 2023, ou antecipar o movimento em 2022 se as pressões inflacionárias (que lá são consideradas “temporárias”) não cederem e ameaçarem a meta de 2% ao ano, o Copom terá de elevar a Selic até 6,50%.

As instituições se dividem se este patamar será alcançado ainda em 2021 ou 2022. O Bradesco acredita em nova alta de 0,75 p.p. em 4 de agosto, mas antevê a possibilidade de o Copom ser mais duro e elevar a dose para 1% (considero que se o dólar não ceder abaixo de R$ 5, isso será feito, como reconhecimento de erro de dose ontem – e também desde março). O Bradesco previa a Selic em 5,75% este ano e 6,50% em 2022, mas já admite antecipar o cenário para este ano, quando fizer a revisão das projeções no 2º semestre.

O Departamento de Estudos Econômicos do Itaú espera que o Copom entregue mais um aumento de 0,75 p.p. na próxima reunião, mas assinala que irá monitorar “cuidadosamente as expectativas de inflação” e que espera a divulgação da ata na terça-feira, 22 de junho, para rever sua posição (antes da reunião, em 10 de maio, o Itaú tinha previsto que a Selic aumentaria para 6% este ano e ficaria estável até dezembro de 2022).

O Banco Safra espera que o Copom faça a “manutenção do ritmo de elevações de 0,75 ponto porcentual até levar a Selic a 6,5% ao ano”, mas a LCA Consultores, que antes pensava na mesma linha, agora já acredita que “a Selic será elevada a 7% até o 2º trimestre de 2022”.

Entrar atrasado dá cartão amarelo ou vermelho

O ministro da Economia, Paulo Guedes, que nas horas de folga costumava ser um bom peladeiro, daqueles “raçudos” que entram sem medo em bolas divididas, deveria se lembrar que o chegar atrasado nos lances pode resultar em cartões amarelos. Ou até vermelho, se o dano no aniversário for forte.

No caso atual, o conjunto de atrasos do governo federal nas bolas divididas já esgotou o estoque de cartões amarelos para o time da economia. Infelizmente, na crise da energia (subproduto do descontrole do dólar que estimulou setores eletro-intensivos a produzirem alumínio, não ferrosos, aços, celulose e petroquímicos para a exportação, com as tarifas que ficaram congeladas de maio a novembro) os cartões da bandeira vermelha 1, 2 e a extra com alta de 20% está sobrando é para o bolso dos consumidores residenciais.