Na mesa do Copom, BC deve balanço das medidas de 2020

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O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) inicia hoje, 16 de junho, dois dias de reuniões para decidir os rumos de política monetária. É consenso no mercado financeiro de que o Copom elevará amanhã a taxa Selic em 0,75 ponto percentual para 4,25%. Em 3 e 4 de agosto há nova reunião, com previsão da repetição da dose de 0,75% e o ano fechando em 6,25% ao ano (previsão da Pesquisa Focus). O Itaú prevê 6% e o Safra, 6,50%.

Como o Federal Open Market Committee (FOMC) do Reserve Bank dos Estados Unidos (modelo do Copom), decide três horas antes - às 15 horas, e o Copom às 18hs - qual o rumo a tomar pela política monetária dos EUA, após a inflação superar os 5% em termos anuais em maio, haverá três horas para o Copom definir se não seria melhor subir um ponto percentual a Selic a 4,50%.

Com a Selic mais alta, o BC iria acelerar o ajuste doméstico dos juros e obter, via queda da taxa de câmbio, o esfriamento das pressões inflacionárias sobre alimentos, combustíveis e energia elétrica (em sinuca de bico com o risco de racionamento mesmo com brutal elevação das tarifas, para absorver os custos das termelétricas a gás ou óleo diesel). O BC já pensa na meta inflacionária de 3,50% para 2022, sem poder errar a dose e esfriar a recuperação da economia.

Diante da recuperação da economia americana, graças ao avanço da vacinação e da circulação dos consumidores, o que pressionou a inflação, sobretudo de “commodities” agrícolas, minerais e energia, o Fed já iniciou a discussão sobre o início da redução das compras de ativos, admitido no fim do ano passado. Alguns membros do Fed admitem que as pressões são “temporárias”. Dependendo do calendário do Fed, isso terá impacto em todas as moedas do mundo.

Assim, seria prudente que o Banco Central brasileiro não perca a única e eficiente arma de que dispõe hoje para aliviar as tensões inflacionárias se caminhar de fato, como entende o Departamento de Estudos do Banco Itaú para uma normalização “parcial” do grau de estímulo monetário, dado o contexto de inflação ainda bastante pressionada e significativa retomada da economia, que reduz o hiato do produto e resulta em menos pressão desinflacionária à frente.

A timidez nos “swaps”

No ano passado se o Banco Central tivesse feito operações de swap cambial mais agressivas poderia ter segurado as cotações do dólar e evitado que a inflação dos alimentos superasse os 15% e que a súbita alta do petróleo, a partir de dezembro, quando ficou clara a derrota de Donald Trump e o avanço da vacinação contra a Covid-19 no 1º mundo, não tivesse tanto impacto na inflação dos preços administrados este ano.

O Fed, por sinal, liberou US$ 60 bilhões ao BCB, para cobrir linhas de crédito internacionais interrompidas na crise ou para operações de swap cambial, mas o nosso banco central só usou metade dos recursos US$ 30 bilhões até a última prestação de contas do presidente Roberto Campos Neto, em fevereiro.

Ipea mostra inflação pior para pobres do que ricos

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão vinculado ao Ministério da Economia, fez ontem a decomposição da inflação até maio (0,83% no IPCA mensal e 8,06% em 12 meses) segundo diversas faixas de renda. Devido ao peso maior dos alimentos nas despesas familiares, a faixa dos brasileiros mais pobres (com renda familiar até R$ 1.650) teve inflação acumulada de 8,91% em 12 meses.

Os de renda menos baixa (de R$ 1650 a R$ 2.471) tiveram carestia de 8,73%, e os com renda média baixa (R$ 2.471 a R$ 4.127) tiveram alta de 8,59% nas despesas familiares. Acima do IPCA. Os alimentos subiram 15,4% no domicílio e a energia elétrica encareceu 11,6%. Outra pressão veio do GLP.

No andar de cima, onde o peso da alimentação é diluído na cesta de consumo, o que pesou foi a alta de 47,5% dos combustíveis nos últimos 12 meses. Para as famílias que ganham acima de R$ 16.509 mensais a inflação foi de 6,33%, a menor do corte apurado pelo Ipea. As famílias de renda média alta (de R$ 8.254 a R$16.509) tiveram também aumentos abaixo do IPC: 7,06%.

BC ainda não prestou conta do dinheiro liberado aos bancos

Antes de anunciar os novos passos da política monetária, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, agora vacinado pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, podia fazer um balanço mais claro e detalhado da qualidade do uso pelo Sistema Financeiro Nacional dos trilhões de reais que foram liberados dos depósitos compulsórios sobre depósitos à vista, a prazo e de poupança bem como das exigências de provisões e níveis de relação de operações com o capital e reservas das instituições, em especial o Patrimônio de Referência, indicador que serve de balizamento ao cumprimento das metas do Acordo de Basileia (Suíça), onde está a sede do BIS, o banco central dos bancos centrais.

Logo que baixou o pacote de medidas, a partir de 16 de março de 2020, com incrementos diários ou semanais, conforme as necessidades de liquidez do sistema para atender às famílias e empresas dos mais diversos portes e setores de atividade, RCN fazia detalhadas prestações de contas – em português e em inglês, nas diversas “lives” semanais.

Até fevereiro, bancos não repassaram em 40%

Na última, feito para alunos da Escola de Negócios da Universidade de Chicago, em fevereiro deste ano, estava claro que o SFN não transferiu às empresas e às famílias nem 40% do que foi liberado pelo Banco Central.

De lá para cá aumentaram os gráficos sobre Covic-19 e vacinação, ajustes fiscais, balanço do PIX e avanço da agenda financeira e tecnológica do BC. Mas sumiram as tabelas com a evolução das medidas de emergência.

Era de se esperar que tanto o Relatório de Estabilidade Financeira, apresentado pelo BC, em abril, e o Relatório de Economia Bancária, apresentado em maio, houvesse amplo balanço, repetindo e detalhando, com mais intensidade, as apresentações do presidente da autoridade monetária.

No último Relatório de Economia Bancária, o diretor de de Política Econômica, Fábio Kanczuk, e o diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução, João Manoel Pinho de Mello, gastaram 253 páginas sem um balanço conclusivo entre o que foi liberado ao sistema financeiro e o que se transformou em alavanca para o setor produtivo e à sociedade brasileira.

Nenhum box (e foram vários) ou tabela (várias também) mostrou o resultado.

A sociedade brasileira ainda está esperando esta prestação de contas.