Setor de Serviços dita a gangorra do PIB

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Segmento mais importante da economia, responsável pelo mais volume de empregos e por mais de 70% da formação do Produto Interno Bruto (PIB), contra 21% da indústria total (incluindo transformação, extrativa mineral, construção civil, e serviços de utilidades públicas) e 5,5% da Agropecuária, segundo o IBGE, o setor de serviços foi o determinante para a alta surpreendente de 1,70% no IBC-Br em fevereiro. A forte alta do indicador antecedente do Banco Central que busca antecipar o PIB, surpreendeu os principais bancos do país: o Itaú previa alta de 0,8% e o Bradesco, de 0,9%.

Mas, se voltarmos ao desempenho dos diversos segmentos que o IBGE vai colhendo ao longo de cada mês, veremos que o número está compatível com a queda de 0,7¨na indústria em fevereiro e o salto parcial de 3,7% numa parcela do segmento de Serviços no mesmo mês (envolvendo transporte e armazenamento, telecomunicações e serviços prestados às famílias, com o forte incremento das atividades turísticas, de bares e restaurantes).

Estas atividades correspondem a cerca de 45% do item Serviços. Comércio, que pesa em torno de 14,5%, teve crescimento de 0,6% no volume de vendas do Varejo e 4,1% no Varejo Ampliado (que agrega vendas de móveis e eletroeletrônicos domésticos, automóveis, motos e autopeças, além de material de construção). Completam o segmento de serviços as atividades financeiras e de seguros, as atividades imobiliárias e as rendas diversas.

O problema é que o segmento de serviços vive, de forma mais aguda, o dilema do governo Bolsonaro: proteger a população da pandemia da Covid-19, fechando as atividades que geram maior aglomeração, ou proteger a economia e o emprego, garantindo o funcionamento mínimo das atividades?

Quando as atividades abrem (o que aconteceu em fevereiro, com maior movimentação no Carnaval, apesar dos alertas e restrições à circulação em vários estados, num país em que boa parte da população ainda desdenha do uso de máscaras, a começar pelo exemplo do presidente Jair Bolsonaro), logo aumentam os casos de contágios e internações, que já atingem as camadas mais jovens, devido às novas cepas do novo coronavírus. E, em seguida, é necessário dar um ou dois passos atrás para evitar que doentes morram por falta de leitos, respiradores, kits de intubação e/ou oxigênio.

Falso dilema

Esse falso dilema, na verdade, produziu o 2º maior desastre do mundo, com mais de 373 mil mortes até a manhã desta 2ª feira. E até o vírus se espalhar também sem controle desde abril na Índia – dona da 2ª maior população do mundo, com 1,38 bilhão de habitantes – o Brasil chegou a superar os Estados Unidos (líder em mortes, com quase 573 mil casos) em novos contágios diários e a própria Índia. No Brasil, como os registros dos fins de semana são subavaliados, porque a parte burocrática de boa parte das secretarias municipais tira folga sábados e domingos (inconcebível, num país em emergência), só teremos números mais normais na 4ª feira. Segundo os dados atualizados pelo Bing Covid-19, a Índia, que acumula 180 mil mortos, ainda abaixo das 212,4 mil do México) registrou 228 mil novos contágios ontem. O Brasil ainda superou os EUA em novos casos: 42,9 mil contra 42,7 mil.

Como o ritmo de vacinação ainda é lento no Brasil – a vacinação total, em duas doses, só alcançou 4% da população (domingo há parada no programa!) e a “imunização do rebanho” só é alcançada com 70% da população vacinada - o alarme soou na 1ª metade de março e vários estados e municípios determinaram forte parada nas atividades não essenciais.

Isso afetou muito o setor de serviços. Por isso, os números do IBC-Br não devem ser tão festejados. Muitos departamentos econômicos de bancos preveem queda do PIB do IBGE (que é o que conta) no 1º e 2º trimestres. O Itaú, que chegou a prever alta de janeiro a março, reviu o cenário para queda de 0,1% no dia 12. Mas prevê alta de 10,7% de abril a junho. O Bradesco previu queda nos dois trimestres, assim como o Safra. Já o Santander só espera queda no 2º trimestre, de 0,6%, na estimativa de 1º de abril.

Comparado com fevereiro do ano passado, houve variação positiva de 0,98%. Na comparação anual, a estimativa era de queda de 0,4%. No trimestre encerrado em fevereiro, o Banco Central registrou avanços de 3,13%, na série dessazonalizada, e de 0,68% sem ajuste sazonal. No ano, sem ajustes, o IBC-Br registra alta de 0,23% e acumula queda de 4,02% em 12 meses, praticamente mantendo a queda de 4,1% do PIB em 2020.

Piora nas projeções do mercado

Na pesquisa semanal Focus, do Banco Central, colhida 6ª feira e apresentada hoje, antes do IBC-Br, o mercado elevou a projeção de inflação de 2021 para 4,92% (4,85% na semana anterior e 4,71% há quatro semanas), enquanto a projeção para o PIB deste ano caí para 3,04% (3,08% na semana anterior e 3,22% há um mês). Já a projeção da taxa Selic (atualmente em 2,75%, com nova alta de 0,75 pontos percentuais prometida para a reunião do Copom de 5 de maio) foi mantida em 5,25% para dezembro e em 6% para 2022.

A meta da inflação é de 3,75% este ano, com flexibilidade para aumentar mais 1,5 p.p. para 5,25% este ano. Para 2022, a meta cai para 3,50% com teto máximo de 5%. Por isso, o mercado espera que a Selic suba até 6%, com a inflação caindo a 3,60% em 2022, mas o PIB cresceria 2,34% (leve ajuste ante os 2,33% previstos, mas abaixo dos 2,39% previstos há um mês.

Contas externas no azul?

Em economia, há sempre o outro lado da moeda. Se o mercado interno se contrai (por recessão e desemprego, que geram perda de poder de compra da população), surgem excedentes a serem exportados e diminui a pressão de importações. Ao longo da história, isso produziu ajustes nas contas externas.

Este ano, as exportações podem crescer muito, pela nova safra agrícola recorde e porque o preço do minério já subiu mais de 45% sobre a média de 2020, e os contratos futuros apontam que ele deverá se manter na faixa de US$140/ton nos próximos meses. A soja valorizou mais de 25%, com tendência de demanda forte até 2022. Como um todo, os preços agrícolas estão crescendo acima de 25%. E a desvalorização do câmbio em torno de 6%, estimula as exportações e encarece as importações.

O saldo da balança comercial deverá bater recordes. O Bradesco prevê saldo de US$ 67,5 bilhões, o Banco Central projeta US$ 70 bilhões e o Safra e o Itaú estimam em US$ 72 bilhões o saldo comercial deste ano. A boa notícia é que a pandemia jogou para baixo as despesas com serviços, sobretudo em viagens (sem vacinas, os brasileiros não podem viajar para o exterior sem quarentenas de 10 a 14 dias, tornando as férias inviáveis). Os gastos com remessas de lucros e dividendos e pagamentos de juros serão mais uma vez bem menores do em anos recentes devido ao menor crescimento da economia, e juros internacionais também baixos.

Assim, pela 1ª vez em 15 anos o Brasil deverá ter superávit no Balanço de Pagamentos em Conta Corrente (balança comercial mais serviços, rendas e juros). O Banco Central projeta superávit de US$ 2 bilhões. O Bradesco espera saldo de US$ 3,2 bilhões, o Safra e o Itaú, de US$ 7,2 bilhões. Em 2020 houve déficit de US$ 12,46 bilhões. Antes da pandemia, em 2019, o déficit foi de US$ 50,7 bilhões, num crescendo desde os US$ 15 bilhões de 2017, após dois anos de recessão. A 1ª recessão desta década, de 3,6% em 2015, pegou o país com déficit de US$ 54,47 bilhões, quase metade dos US$ 104,5 bilhões de 2014.

O cerco tributário à elisão fiscal

Em 2015, o cerco da OCDE aos paraísos fiscais atingiu as movimentações financeiras não declaradas e suspeitas. Era um processo que vinha desde o ataque às torres gêmeas, em 2001 e se intensificou após a crise financeira mundial de 2008-09. No Brasil, houve regularização no Imposto de Renda.

Agora, a OCDE, clube de elite que reúne os 40 países de economia mais dinâmica do mundo – ao qual o Brasil quer acesso, mas é rejeitado pelos baixos índices de IDH, má distribuição de renda e desleixo com o meio ambiente, tema que será debatido dias 22 e 23 na Cúpula do Clima, organizada pelo presidente Joe Biden, dos Estados Unidos – pretende fazer um avanço maior em torno do cerco à elisão fiscal.

Como anunciou hoje a Secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, uma cúpula do G-20 (o grupo das 20 maiores economias do mundo, do qual o Brasil faz parte, representado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente do BC, Roberto Campos Neto) está sendo convocada para julho. O objetivo é estabelecer um programa mínimo de ajuste das regras tributárias entre os países, evitando que se repita (nos atrativos de tributação menor) a existência de paraísos fiscais para registro de sedes ou filiais de corporações.

O governo Biden já mostrou seu objetivo ao propor o aumento do imposto de renda corporativo dos atuais 21% para 28%. Yellen quer que a OCDE determine uma série de padrões que incluam as empresas de tecnologia. Isso permitiria, com a maior arrecadação sobre quem paga pouco hoje, aliviar a carga sobre os demais setores, sem que os governos percam receitas, é claro.

“Investidores estrangeiros” serão afetados

O tema é complexo. Mas as companhias brasileiras de verdade ou “de gaveta”, constituídas em paraísos fiscais para driblar o fisco e abrigar operações de caixa 2 ou de suborno, vão ser afetadas. A Petrobras, por exemplo, fechou filiais importantes que tinham sede nos paraísos fiscais holandeses do Caribe. Por sinal, este era um dos motivos da Holanda “liderar” investimentos diretos estrangeiros no Brasil na última década. Os EUA ainda são líderes.

Quando o BC foi fazer o rastreamento entre o registro e a origem do capital estrangeiro descobriu que até a China usa muito os paraísos fiscais do Caribe (os holandeses à frente) para sediar seus investimentos no Brasil.

Sempre fiz restrições às análises gerais sobre “fuga” ou “vinda” de investidores estrangeiros para o mercado de ações ou de papéis de dívida brasileiro. Se o DNA for devidamente identificado, ficará claro que boa parte deste dinheiro tem origem em empresários brasileiros. Para se antecipar ao fato, a B3 abriu em novembro do ano passado negociação com ADRs de empresas brasileiras. Coisas novas devem vir pela frente.

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