Gasolina na inflação pode explodir Selic

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O 6º e último reajuste da gasolina (+9% em termos arredondados) nas refinarias da Petrobras, a partir de amanhã, acumulando alta de 54,3% no ano, acendeu o sinal vermelho nos painéis das mesas de operação. Conjugado à 5 [ alta do diesel (5,5%), que acumulará aumento de 41,5% no ano, vai acelerar fortemente a inflação das commodities e apesar da Pesquisa Focus do Banco Central (encerrada 6ª feira, sem que se soubesse da nova alta dos combustíveis, e divulgada hoje pelo BC0, apontar alta de 0,25 pontos percentuais na taxa Selic na reunião do Copom na próxima semana (16 e 17 de março), as instituições mais antenadas com a dinâmica da inflação, já preveem alta de 0,50 p.p. para 2,50% ao ano, caso do Itaú. Mas o Santander não descarta uma alta cavalar de 0,75 p.p. para 2,75% a.a.

A última vez que o Comitê de Política Monetária do Banco Central mexeu na taxa Selic com essa magnitude de 0,75 p.p. foi em 24 de outubro de 2017, quando a inflação já estava em reversão, após cinco meses do governo Temer, com Henrique Meirelles no Ministério da Fazenda. Ela caiu de 8,25% ao ano para 7,50% a.a. Acontece que desde abril, quando houve o impeachment de Dilma, já tinham ocorrido duas baixas de um ponto percentual. A Selic estava em 12,25% em abril e desceu a 7,50% em fins de outubro. Agora, com a Selic em 2%, uma alta de 0,50% equivale a majoração de 25%; se a taxa for a 3,75% a alta seria de 37,5%.

Há motivos para isso? Infelizmente, sim.

Apesar de a economia continuar patinando por causa da lentidão da vacinação (devido à falta de estoques para uma campanha agressiva contra a Covid-19), que provoca um para e anda no emprego, sobretudo na atividade de serviço, o petróleo disparou desde dezembro, pela recuperação da economia mundial e da maior demanda de combustíveis para aquecimento no Hemisfério Norte.

Só este ano o primeiro vencimento dos contratos futuros do barril do petróleo tipo Brent subiu 34% até dia 5, sendo 16,9% este mês. Hoje houve ligeira queda, pois já está sendo negociado o vencimento de maio, quando a primavera reduz a demanda por combustíveis para aquecimento no HN. Acontece que o dólar é a moeda de referência do PPI (programa de paridade ao preço internacional) dos combustíveis da Petrobras. Até 6ª, o dólar valorizou quase 10%. Hoje, estava em alta de 0,73% até às 14 horas.
Isso foi antes do ministro Fachin, do STF, anular o andamento dos processos contra Lula na república de Curitiba e declarar que o Juízo competente é a Vara Federal de Brasília
Antes do novo aumento da Petrobras, o Santander tinha aumentado para 0,73% a previsão de alta do IPCA de fevereiro (que sofreu impacto de três reajustes da gasolina). Na Pesquisa Focus do BC, a média do mercado elevou a taxa do IPCA de fevereiro para 0,69%. Com a alta anterior, a última previsão do mercado para março saltou para 0,60 (a mediana da Focus ainda era de 0,45%). As projeções são de que o IPCA em 12 meses passe dos 5% em fevereiro e supere os 7% em maio. A meta de inflação, de 3,75% deve ser furada: a média do mercado a elevou para 3,98% e revisões estão em curso.

Mas é sempre bom lembrar que as taxas de juros nada podem contra altas externas (petróleo e commodities), apenas com efeito residual sobre o câmbio. O Brasil tem reservas suficientes para jogar pesado (e com pouco risco para o Banco Central) no mercado de swaps para revalorizar o real ante o dólar, o que compensaria o efeito inflacionário da alta das commodities sem esfriar a economia. Combater inflação de alimentos (que deriva de desequilíbrio entre oferta e procura, com agravamento pela má gestão dos estoques, como ocorreu em 2020) ou do petróleo com juros é jogar gasolina na recessão e no desemprego.

Pressões fortes no atacado

Ao analisar a alta de 2,71% do IGP-DI de fevereiro (ligeira queda frente aos 2,91% de janeiro), o Departamento Econômico do Bradesco assinalou que o resultado ficou acima dos 2,25% esperados pelo mercado e apontou o avanço dos produtos industriais como o principal vetor da surpresa, em especial os combustíveis e fertilizantes que tiveram as maiores influências altistas.

Os produtos agrícolas, desaceleraram pela deflação de leite, batata e arroz. Mas bovinos (boi gordo subiu quase 15% este ano) e soja (alta de 9% em dólar) sigam exercendo pressões altistas. No Índice Nacional da Construção Civil, os materiais de construção também tiveram aumento expressivo, além dos combustíveis no Índice de Preços ao Consumidor, apurado pela FGV. Para o Bradesco “a dinâmica mais forte das commodities, estimulada pelo câmbio em alta, segue influenciando os preços no curto prazo”.

Qual a orientação de Bolsonaro à Petrobras?

Quem se recorda da explosão do presidente Jair Bolsonaro ao 4º aumento da gasolina, anunciado pela Petrobras em 18 de fevereiro?

Os desdobramentos do caso até agora, não alteraram o “modus operandi” da estatal. Eventuais vazamentos de informações privilegiadas ainda estão sendo apurados pela Comissão de Valores Imobiliários. O xerife do mercado busca indícios de uso de informações privilegiadas na reunião feita à tarde no Palácio do Planalto por Bolsonaro com os ministros da Economia, Paulo Guedes, das Minas e Energia, Bento Albuquerque, da Casa Civil, Braga Neto, e com o de Infraestrutura, Tarcísio de Freitas (quando ele decidiu não reconduzir o atual presidente da estatal, Roberto Castello Branco, cujo mandato vence dia 20 de março, para um novo período de dois anos), que fizeram fortunas sair da mão dos comprados para os vendidos, especialmente dois contratos feitos entre esta reunião e a “live” semanal das quintas-feiras, às 19 horas, quando anunciou “mudanças na Petrobras. Confirmadas no fim da tarde de 6ª feira, 19, à véspera do vencimento dos contratos de opções no dia 22, 2ª feira.

A paridade segue em curso. E o presidente Bolsonaro não deve ter se surpreendido com o novo reajuste, pois adiantou na semana passada, após reunião com embaixadores árabes, que lhe anteciparam a decisão da OPEP de não aumentar a oferta de petróleo para forçar a recuperação das cotações, que “haveria novos aumentos de combustíveis”. Os aumentos não pararam “porra”.

O que o mercado quer saber é se os novos conselheiros da Petrobras, à frente o presidente designado para a Diretoria Executiva, general Joaquim Luna e Silva, vão alterar o PPI (adotado para permitir atrair compradores para parte das refinarias de petróleo postas à venda pela estatal).

Sem paridade de preços, será difícil atrair compradores para as refinarias.

A ilusão do PIB medido em reais

O governo segue iludindo a população com “o bom desempenho do PIB brasileiro” no ano passado, quando houve queda de “apenas 4,1%”. O PIB, calculado em reais pelo deflator implícito reflete uma inflação mais próxima do IPCA, que escalou 4,52% no ano passado.

Medido na variação, perdemos para a China (+2%), Estados Unidos (-3,5%), mas ganhamos de Japão (-4,8%), Alemanha e Canadá (-5,3%), Índia (-6,8%) França (-8,2%), Itália (-8,88), Reino Unido (-9,9%) e Espanha (-11%). Mas todos têm moeda forte.

Acontece que o real desvalorizou mais de 18% frente ao dólar em 2020. Motivo pelo qual ao medir os PIBs em dólar, caímos do 9º lugar em 2019 (US$ 1.877,8 bilhões) para o 12º lugar em 2020 (US$ 1.451,3 bilhões), um tombo de 22,7% em dólar e fomos superados por Canadá, Coreia do Sul e Rússia.

Em termos per capita (a divisão aritmética do PIC X população, que cresce à base de 0,7% ao ano), o tombo foi ainda maior: 23,23%, caindo de US$ 8.914,1, em 2019, para US$ 6.843 no ano passado.

Dólar alto estoura contas das embaixadas

Em sentido inverso, a ilusão do PIB em baixa pequena em reais, produziu um estouro dos gastos das embaixadas brasileiras no exterior. Alguns sites de brasileira trataram como escândalo o recorde de R$ 1,340 bilhão gasto pelo país com as embaixadas brasileiras no mundo em 2020.

Antes que bolsonaristas que queriam mudar a embaixada do Brasil de Israel, atualmente em Tel Avid, a capital administrativa do país, para Jerusalém, cujo domínio é contestado pelos palestinos, pensem em passar a tesoura em algumas representações e organismos internacionais vale lembrar que o aumento de 24,3% nas despesas (em dólar, euro ou outras moedas fortes) espelha a desvalorização da nossa moeda, quando são convertidas para reais.