Sem peso das opções, Petrobras abre em alta de 8%

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Independente do grau de intervenção do presidente Bolsonaro na Petrobras, contrariado com o excesso de realismo nos reajustes de combustíveis, trocando a recondução de Roberto Castello Branco para dois anos de mandato pela indicação do general Joaquim Silva e Luna, que era diretor-geral de Itaipu binacional para comandar a estatal a partir de 20 de março, quando expira o atual mandato, vocês leitores sabem que creditei boa parte do ruído ao fato de que a intervenção se deu às vésperas do vencimento de opções na B3. Ontem, 22 de fevereiro era o dia do ajuste de margens para fechamento dos contratos. E o tombo foi de 21%, afetando quase todas as ações. Sobretudo as estatais.

O motivo pelo qual as ações PN da Petrobras, que estavam em alta até a amanhã de quinta-feira, 18, quando a estatal anunciou mais reajustes de gasolinas (15%) e diesel (10%), começaram a cair quando Bolsonaro expressou sua insatisfação com o reajuste e prometeu mudanças na estatal foi amplificado pelas chamadas de margens do mercado de opções. Acho incrível que o noticiário da imprensa especializada não fale do vencimento das opções.

Na 6ª, 19, nova forte queda com a confirmação da proposta de troca de comando pelo acionista controlador (a ser apresentada hoje na reunião do Conselho de Administração, na qual também seria detalhado o lucro do 4º trimestre e do ano de 2020. Ontem, parecia o fim do mundo, quando impactada pelas ordens de venda o Ibovespa caiu 4,8%. Não foi.

No mercado há sempre o dia seguinte e hoje – para provar que o ajuste excessivo na queda das cotações estava amplificado pela pressão dos vencimentos de opções, as ações PN abriram a R$ 22,91, subiram mais de 8% para R$ 23,77 e ajustaram um pouco para baixo a R$ 22,95, pouco depois das 11 horas, com alta de 6,99%. Já o Ibovespa, que chegou a subiu 1,65%, se ajustou para alta de 1,14%.

Aguardam-se as decisões no Conselho da Petrobras

No momento, todas as atenções estão no que se passa na reunião virtual dos conselheiros da Petrobras.

Não se sabe se será tocada a questão, criticada pelo presidente Bolsonaro, de que a remuneração da diretoria da Petrobras saltou de R$ 17,5 milhões em 2018 para R$ 40,5 milhões em 2019.

Os assessores de Bolsonaro insistem que está muito, mas muito acima da variação da inflação (4,31%).

Mas isso mostra que eles entendem pouco de gestão empresarial. Em empresas, os bônus dos administradores estão atrelados ao lucro. Se o lucro aumenta, cresce a distribuição. Em 2018, a estatal lucrou R$ 25,779 bilhões: em 2019, R$ 40,1 bilhões.

O aumento do lucro foi de 55%, mas a diferença de R$ 23 milhões na gratificação foi de 131%. Ainda bem superior ao aumento do lucro. Se o aumento fosse proporcional à variação do lucro, a bonificação seria da ordem de R$ 27,5 bilhões, mas a diretoria recebeu bonificação extra de R$ 13 bilhões.

Ou seja, a remuneração máxima passou de R$ 180 mil para R$ 500 mil.

Nas baixas contábeis da Lava-Jato, quando a estatal teve prejuízos bilionários, não havia o que distribuir (os responsáveis deveriam devolver), mas houve movimento inicial para cortar a participação dos empregados no lucro da empresa (foi descartado, pois os trabalhadores, em sua imensa maioria, nada tinham a ver com as falcatruas e maracutaias de diretores e gerentes).

Último reajuste pode ser revertido

Cálculos de planilhas que chegaram às mãos dos gabinetes do Palácio do Planalto insistem que o último reajuste dos combustíveis foi excessivo (com erro nas equiparações de paridades das cotações internacionais acrescidas do dólar e dos custos de frentes) e podem ser revertidos.

O economista Manuel Jeremias Leite Caldas fez as contas entre as cotações do mercado dos Estados Unidos e da Europa (Roterdam, na Holanda), atualizados pelo câmbio e o frete e sustenta que o preço de referência, fixado em R$ 2,58, a partir de 17 de fevereiro, para o litro do diesel nas refinarias está acima da paridade, que seria de R$ 2,52 por litro.

Para ele, o preço correto seria de R$ 2,38 por litro, ou seja, 8,53% mais baixo.

Mercado de opções lembra dólar na largada do real

Em 49 anos de jornalismo, inicialmente concentrado na Economia e na área financeira, já vi muita reclamação “do mercado” contra atos das autoridades. Muitas vezes têm razão, sobretudo com mudanças de regras do jogo no meio do jogo. Mas se o mercado é um jogo, está sujeito ao VAR da autoridade.

É inegável que ao pedir o VAR para mudar coisas na Petrobras, Bolsonaro mudou o equilíbrio de mercado em meio aos vencimentos dos contratos de opções com ações na B3 e os papéis da Petrobras eram os mais apostados, pois amanhã sai o balanço, prometendo bons resultados em 2020. Bolsonaro mudou o cenário para 2021 e para o ano de 2022, quando seu mote é a reeleição.

Mas vejam como a choradeira, às vezes, parece a dos torcedores do Botafogo: sempre veem um complô contra o clube da estrela solitária – que aliás, voltou a vencer ontem após 10 resultados negativos (1 X 0 no São Paulo), mas o time já estava rebaixado para a Série B, junto com Basco, Goiás e Curitiba.

Mas a choradeira agora me lembra a largada do Plano Real, em julho de 1994, precedida pela transição de três meses da URV. A Argentina tinha adotado no começo do ano a paridade do peso com o dólar na base de 1 x 1, mas houve ágio de quase 20%. Aqui discutia-se se haveria paridade ou não. O Banco Central vendeu no fim de 1993 e começo de 1994 ORTNs de cinco anos com cláusula cambial e muitas instituições financeiras, aconselhadas por seus conselheiros econômicos, assim como empresas, se planejaram para ágios.

Lembro de um debate num programa noturno da TVE, mediado pela Vera Barroso. Um colega da Folha de S. Paulo dizia que deveria haver ágio de 20%. Discordei, achando exagerado. Mas eu, ele e o mercado fomos surpreendidos,

Na largada do Real, em vez da paridade, o Banco Central fixou o real valendo mais do que o dólar: R$ 0,94 = US$ 1,00. Foi uma chiadeira geral, que só aumentou quando o deságio chegou ao máximo de R$ 0,83 X US$ 1,00.

Economistas querem salvar reputação

Macaco velho, sempre considerei a grita dos economistas (9 entre 10 deles) dizendo que “o câmbio estava fora do lugar”, muito mais uma autodefesa do furo de seus conselhos de que uma crítica honesta ao BC.

O BC sempre defendeu que o câmbio era uma âncora para estabilizar a economia, mas precisava de apoio fiscal, que nunca veio a tempo e hora.

A situação teve consequências: bancos de investimentos, como o Multiplic e o Garantia e corretoras que entraram na Justiça contra o BC no caso das ORTNs cambiais, foram descredenciados como “dealers”. Os prejuízos foram elevados. Alguns quebraram. A situação se agravou nas crises do México (1995), asiáticas (fins de 1997), da Rússia (agosto de 1998) e culminou na desvalorização do Real em janeiro de 1999.

Após a reeleição em 1998, FHC trocou Gustavo Franco por Francisco Lopes no comando do BC e a banda cambial estreita foi substituída pela malograda “diagonal exógena da banda cambial”, atropelada em poucos minutos pela crise sistêmica gerada na BM&F pela quebra do Banco Marka (que estava apostando que não haveria desvalorização). Como tinha carta de crédito de vários grandes bancos, a quebradeira poderia se alastrar e o BC vendeu dólares no piso da nova banda ao Marka, mas operou no teto com o Fonte-Cindam). Chico Lopes caiu e foi substituído em fevereiro por Armínio Fraga que adotou o câmbio flutuante pelo qual a economia se ajusta até os dias de hoje.