Órfão de Bolsonaro, mercado desaba

.

REUTERS/Adriano Machado
Credit...REUTERS/Adriano Machado

O mercado sonhou e comprou o “Posto Ipiranga” de Jair Bolsonaro. O liberalismo em vigor na estatal desde o governo Temer, quando Pedro Parente acelerou o processo de vendas de refinarias e ativos da Petrobras, deixada ultra endividada pelo governo Dilma, agradou ao mercado. Mas lá atrás (em 2018), veio o primeiro sinal: os caminhoneiros - que sentem na pele, como as donas de casa no GLP, a pressão no bolso (por sinal, metade do nome de Bolsonaro) quando diesel, bujão de gás e gasolina sobem muito - fizeram greve, pararam o país três semanas, desestabilizaram o governo e o PIB caiu.

Mas o liberal presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, que cursou a pós-graduação em Chicago junto com Paulo Guedes, e com ele trabalhou no Ibmec (quando era controlado pela BVRJ, entidades do mercado financeiro e apoiado pelo Ministério do Planejamento), atendeu ao convite do “Posto Ipiranga” para comandar a Petrobras. Castello Branco não era um neófito. Dirigiu por quase uma década a área financeira e de relações com o mercado da Vale, após a privatização, convidado por Roger Agnelli. E redobrou a aposta de venda de ativos (eram 4 refinarias, passaram a ser 8, com a meta de ficar apenas com 50% da capacidade de refino, concentrada no Rio e em São Paulo – as refinarias do Sul, de Minas e do Norte e Nordeste seriam vendidas).

Antes de tomar posse, em entrevista ao JORNAL DO BRASIL, em novembro de 2018, me disse que iria “concentrar os investimentos no pré-sal”. Promessa cumprida ao longo de 2019 e acelerada quando a pandemia da Covid-19 provocou isolamento social e forte queda do consumo de combustíveis que derrubaram os preços do barril de petróleo do tipo Brent (Mar do Norte) em abril de 2020 abaixo de US$ 30 (na véspera do vencimento dos contratos futuros no mês, havia tantos estoques que os compradores abriram mão do ônus do carregamento do produto, pagando para vendedor ficar com a mercadoria. Nos mercados futuros o barril estaria abaixo de US$ 50 até 2025.

A Petrobras paralisou as operações dos poços em terra e em águas rasas (de alto custo) e os colocou à venda para redobrar a aposta no pré-sal (onde extraía petróleo a menos de US$ 10 o barril, considerando custos do arrendamento de equipamentos, como plataformas). E o pré-sal já responde por mais de 70% do petróleo produzido pela estatal. O balanço do 4º trimestre que será apresentado 4ª feira, 24 de fevereiro, vai mostrar o efeito.

Sai Posto Ipiranga entra Posto Petrobras

Tudo caminhava para que o vencimento de opções na B3 (antiga Bovespa) fosse ótimo para os compradores de opções da estatal. A animação cresceu quando na 5ª feira, 18 de fevereiro, a Petrobras anunciou o 2º reajuste neste mês para a gasolina, e aumentos para o diesel e o GLP nas refinarias. Era o 3º aumento da gasolina no ano (34% no ano) e o 2º do diesel. Olhando para trás Castello Branco, que alegou estar alinhando os preços internos à disparada do barril no mercado internacional (subiu mais de US$ 10 dólares de novembro para dezembro, com o início das vacinações no mundo e a eleição de Joe Biden, que ameaçou restrições à exploração do “shale gas” nos EUA e houve uma nova disparada de US$ 10 em fevereiro quando a atípica nevasca no Texas paralisou a produção de petróleo e em outros estados americanos, deve estar sentindo que talvez tenha pesado na mão. Faltou sensibilidade política.

Quem acompanha as oscilações anuais do mercado de petróleo sabe que os preços do barril e dos derivados sobem muito no inverno do Hemisfério Norte (com a maior demanda por combustíveis para aquecimento das residências e locais de trabalho) e tendem a cair na primavera e verão (de abril até setembro). Com a pandemia da Covid-19, o quadro se alterou um pouco mais, mas o desenho segue sendo esse.

O que deveria fazer uma grande empresa (autossuficiente em petróleo e ainda virtual monopolista do mercado, de cuja abertura e ajuste dos preços à paridade internacional para atrair compradores para suas refinarias) que produz a baixo custo? Nos Estados Unidos e na Europa, empresas e principalmente o governo mantêm estoques estratégicos para enfrentar as oscilações e não transferir imediatamente para o consumidor. Os EUA o Departamento de Defesa tem estoque estratégicos para quase 100 dias.

E aí vem o dilema da Petrobras: ser ou não ser estatal?

Em outras palavras. Continuar estatal e operando visando o abastecimento do mercado em quantidades e preços os mais estáveis possíveis à demanda? Ou operar como um posto Ipiranga (há algum tempo controlado pelo grupo Ultra) que vive do ganho com a compra e venda de seus estoques nas bombas?

As falas recentes de Bolsonaro estão aí para que se veja qual a opção desejada com a anunciada não recondução de Castello Branco a mais um mandato de dois anos. Seu mandato (e da atual diretoria) que iria até 20 de março, seria decidido em reunião do Conselho de Administração amanhã. Nele a União (representada pelo governo) tem maioria de votos. E indicou o general Joaquim Silva e Luna, hoje na Itaipu Binacional, para comandar a estatal).

Bolsonaro se irritara com a alta dos combustíveis em meio à sua popularidade em baixa, pelo fim do Auxílio Emergencial e pela disparada dos contágios e mortes pela Covid-19, na falta de vacinas para garantir boa parte da população. Os caminhoneiros chiaram e Castello Branco disse que “a Petrobras não tem responsabilidade“ sobre isso. O presidente prometeu mudanças na Petrobras.

Isso se deu às vésperas do vencimento do mercado de opções nesta 2ª feira, 22 de fevereiro. Até às 10:30 de 5ª feira, Petrobras PN estava cotado a R$ 30,48 (vindos de R$ 28,38 na 4ª feira, 17, quando a BS funcionou após 13 horas). A partir da fala de Bolsonaro, veio o primeiro abalo sísmico e as ações fecharam no dia 18 a R$ 29,41. Na 6ª feira, o mercado desabou com a live do presidente na 5ª feira à noite, prometendo mais mudanças e anunciando o general Silva e Luna. Os papéis fecharam a R$ 27,39.

Hoje, com ameaças de revisão de reajustes e de mudanças nas tarifas da Petrobras, sublinhadas com a indagação: “O petróleo é nosso ou é de um pequeno grupo no Brasil?” todo o mercado enfrentou um tsunami. Em especial os papéis das estatais: Petrobras caiu para R$ 21,85 às 13 hs, Banco do Brasil (onde Bolsonaro quis remover o presidente André Brandão, há três semanas) caiu mais de 10% e Eletrobrás PNA, onde o presidente disse que o governo “vai meter o dedo”, caiu na abertura para R$ 54, mas se levantou para R$ 59.

(quem quiser ver mais ou menos o que está em gestação nos gabinetes militares do governo Bolsonaro, consulte o final da coluna de 12 de fevereiro, na qual eu cito a ideia de um, “Auxílio Emergencial para a energia elétrica”).

Diesel deve evitar altas no escoamento das safras

Por falha estrutural do país, que tem o transporte de mercadorias e passageiros assentados em caminhões e ônibus movidos a óleo (na Europa, Ásia e mais recentemente nos Estados Unidos avançam os transportes movidos por eletricidade, que já é realidade também nos automóveis de passeio), o diesel, o produto mais vendido no Brasil, virou um preço sensível.

Salvo metrôs eletrificados nas grandes cidades, as ferrovias, que são poucas, também são movidas por locomotivas a diesel. Construída no governo Geisel (1974-79), a Ferrovia do Aço seria eletrificada, mas o minério de ferro vem de Minas para o porto de Mangaratiba movido pelo diesel velho de guerra.

Por azar, as colheitas das safras de soja no Centro-Oeste começam em fevereiro e vão até maio. No 2º semestre é a vez do milho (até setembro-outubro). O Ministério das Minas e Energia deveria criar um grupo de trabalho, junto com o da Economia para encontrar mecanismos para que o diesel não flutuasse tanto neste período de grande escoamento das safras. A responsabilidade não deve ser da Petrobras, nem ela pode estar alheia.

Imagina a situação do caminhoneiro (vindo dos quatro cantos do país para o CO): contratou o frete com o preço da 1ª semana de fevereiro. No meio da viagem, o diesel sobe mais de 10%. Dá para renegociar com o dono da safra? Claro que não. O que tem de entrar em campo são mecanismos de hegde e flutuação de preços para que o Brasil (autossuficiente em petróleo) não tenha de pagar alto pelo GLP, a gasolina e o diesel no auge da alta provocada pelo maior consumo no Hemisfério Norte.

Estoques que não foram preservados nas lavouras (uma vergonha o “celeiro do mundo” ter de importar soja para extrair óleo, que subiu mais de 100% no ano passado porque os produtores venderam todos os estoques). Que me perdoem os liberais do pleno mercado, do tempo do “Laissez faire, laissez aller, laissez passer”. Não dá para ser tão ingênuo assim. Ou seja, ter alimentos e petróleo e não ter preços palatáveis para a população. Lembro sempre uma música do “Ultraje a Rigor”: “A gente somos inútil (sic)”.

Digo que o "mercado" se fiou e embarcou na canoa do "Posto Ipiranga". Mas Jair Messias Bolsonaro gosta é de frequentar padarias para tomar média com pão canoa com o povão.

Emoções na reunião do Conselho

Não se sabe se Bolsonaro instruiu o presidente do Conselho da Petrobras, Almirante Bacellar Ferreira a discutir a majoração dos vencimentos dos diretores (vinculada ao desempenho e aos lucros, também turbinados pela venda de ativos ou reajustes de combustíveis), que teria saltado mais de 150%, com direito a bônus. Mas o tema virá à tona mais cedo ou mais tarde.