Copom mantém Selic em 2%; Itaú e Bradesco esperam 3% e 3,5% em 2021

Na opinião da maioria do mercado, foi mantida postura 'dovish'

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O Copom manteve a taxa básica inalterada em 2,0% a.a., como era esperado pelo mercado. Ou seja, na opinião da maioria do mercado, manteve uma postura dovish (pomba, ou pacífica) em relação aos riscos da meta da inflação, ao mencionar a possibilidade de novos ajustes na política monetária. Mas para o Departamento de Estudos Econômicos do Itaú, comandado por Mário Mesquita, que já foi diretor de Política Monetária do Banco Central, com assento no Comitê de Política Monetária, o Copom “ajustou sua comunicação em uma direção hawkish” (falcão, ou agressiva).

Numa análise feita esta manhã o Itaú afirma: “Nossa leitura é que a porta para novos cortes de taxas (ajustes de taxas) está fechada. O Copom menciona, de fato, que pode haver espaço residual para o uso da política monetária, que inclui dois instrumentos [redesconto e compulsório, digo eu], orientação para a frente e a taxa Selic, mas não menciona mais "ajustes", sugerindo este último instrumento. Além disso, a comissão deixa claro que a extensão das políticas de estímulo atuais levaria a uma reavaliação da postura política.

Esperamos que a taxa básica fique inalterada até o final de 2021 em 2,0%, quando seria subida para 3,0%, mas o risco, sem uma solução satisfatória para o dilema fiscal do Brasil, está inclinado para uma alta mais cedo. E diz que a divulgação da Ata, na terça-feira, vai deixar o quadro mais claro.

Bradesco vê dois cenários e Selic em 3,5% em 2021

Já o Departamento Econômico do Bradesco, comandado por Fernando Honorato Barbosa, lembra que a manutenção da taxa Selic (que espera até o fim de 2020) veio “no mesmo dia de anúncio de várias medidas de restrição à mobilidade na Europa”, quando “o Comitê reconheceu haver alguma desaceleração na economia global, por conta da “ressurgência da pandemia em algumas das principais economias”.

“No cenário doméstico, o colegiado continua apontando recuperação econômica, mas com diferenças setoriais, o que também ocorre em outras economias. Ademais, há a visão de que o crescimento futuro permanece com incerteza elevada, principalmente depois que os estímulos emergenciais forem dissipados. No que tange à inflação, há o reconhecimento de pressões “fortes” no curto prazo, resultados acima do esperado e aumento das projeções para o restante do ano”

“Contudo, o BC mantém o diagnóstico de que o choque, muito concentrado em alimentos, é temporário, alertando que “monitora sua evolução com atenção”. As projeções de IPCA consideram o câmbio partindo de R$/US$ 5,60 e evoluindo de acordo com a paridade de poder de compra. Sob o cenário básico, de juros subindo de acordo com o Focus, as projeções subiram em relação ao cenário híbrido utilizado anteriormente como referência, mas continuam abaixo das metas no horizonte até 2022”.

Já sob o cenário com juro constante o IPCA projetado para 2022 é de 3,8%. Cabe destacar que o referido ano tem ganhado relevância nas decisões de política monetária. Mesmo com esses reconhecimentos e atualizações acima mencionados, o comunicado continua fazendo referência a uma possível redução adicional do juro básico que, se ocorrer, será em magnitude pequena.

Por fim, ao apontar que o grau atual de estímulo monetário é adequado, o BC indica que o forward guidance, de manutenção dos juros nas próximas reuniões, continua com condições satisfeitas, mas que o risco fiscal segue “elevado”, criando assimetria altista no balanço de riscos. Por ora, não alteramos a nossa expectativa de Selic encerrando 2020 em 2,0% e mantendo-se nesse nível no começo de 2021, desde que a retomada da atividade continue em curso e que não haja piora fiscal, com ancoragem das expectativas de inflação.

“Para 2021, esperamos elevação da Selic para 3,5%”.

Os dilemas entre o curto e o médio prazo

Na Pesquisa Focus, que o Banco Central faz semanalmente com 125 instituições financeiras (nacionais e estrangeiras), consultorias e institutos de pesquisas, encerrada sexta-feira passada e divulgada na segunda-feira, 26, o mercado esperava alta para 2,75% (2,50% na semana anterior). Já as TOP 5 (as cinco instituições que mais acertam) foram mais radicais, subiram a projeção da Selic de 2,50% para 3%. Há um mês, todos esperavam a Selic estável em 2%.

A escalada da inflação (por ora concentrada nos alimentos, mas com pressão da escalada do dólar ainda sendo contida pelo forte desemprego que segura o consumo) em meio a nova onda da covid-19 na Europa (que também se espraia nos Estados Unidos e nas economias do Hemisfério Norte) pode causar nova freada na recuperação econômica e deixa o Banco Central num dilema.

A curto prazo, a escalada da inflação é passageira (com o temor de um novo ciclo da covid-19 as cotações de commodities agrícolas, minerais e energéticas despencaram esta semana. Em parte, isso anulou a queda do real diante do dólar. Mas a possibilidade da crise econômica causado pela pandemia se estender para 2021 deixa o Banco Central sob um dilema. Já haveria um abismo fiscal em 2021 (quando terminariam as medidas de estímulo à economia que levaram à dispensa do cumprimento do teto dos gastos fiscais).

O Banco Central opera com farol alto, olhando nove a 12 meses à frente. Com a política de forward guidance, passou a usar – como o FED - farol de led com foco até 18 meses, ou seja, já mirando 2022, que será um ano eleitoral no Brasil, possivelmente com o presidente Jair Bolsonaro candidato à reeleição.

Se a crise persiste, vai haver prorrogação da flexibilização fiscal? O ex-ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, já defendeu um período de transição até 2022 na política fiscal. Parece sensato. Falta “combinar com os russos”, como diria Garrincha. Ou seja, como vão reagir os investidores nacionais e estrangeiros (muitos deles brasileiros que mantêm off shores no exterior) vão reagir à remuneração dos juros (a Selic é um dos componentes dos títulos do Tesouro) na rolagem da dívida pública bruta que se aproxima dos 100% do PIB.