Jornal do Brasil

Música em Pauta

Música em Pauta

Mariana Camargo

Piano Quente

Jornal do Brasil

Ela nem precisava ser tão sexy. Só pelo que toca de piano já faz olhos e ouvidos pararem sobre suas mãos e a torna uma das maiores pianistas do mundo. No entanto, além de interpretar os compositores românticos como poucos, os concertos de Yuja Wang oferecem uma atração à parte. A pianista chinesa de 31 anos se veste de maneira a mostrar suas belas curvas. Quem pode, pode!

Em uma das peças que a pianista gosta de executar, “O Voo do Besouro”, de Rimisky-Korsakov, acho que não errarei em dizer que talvez tenha batido um recorde de velocidade no piano. 

E não é somente uma questão de velocidade: há, além da sofisticação e de um perfeito entendimento do que toca, uma vitalidade no corpo todo da pianista que parece fluir para chegar aos dedos. O resultado é que Wang imprime uma força às suas interpretações fora de série, o que tem deixado as plateias do mundo todo de queixo caído.

Macaque in the trees
Yuja Wang amanhã no Theatro Municipal (Foto: Ian Douglas/Divulgação)

Muito já foi dito sobre a sobrevivência dos concertos clássicos nos moldes da plateia ouvir música e olhar diretamente para os intérpretes. Evidentemente que para apreciar música não é preciso ver. No entanto olhar o intérprete faz parte do espetáculo e exerce fascínio na audiência, e é mesmo para muitos parte crucial do concerto. Contudo, valem as perguntas: quão útil e quão perturbador é um intérprete que gesticula demais ou que faz caras e bocas, ou que coloca roupas que nos distraem da música? Stravinsky, entre muitos críticos, foi um dos que se manifestaram sobre o excesso de “exibicionismo” nos gestos de intérpretes. Em um de seus escritos o compositor fala sobre o sucesso dos legítimos intérpretes estar também em preservar a modéstia nos gestos, na sobriedade de movimentos. Fato é que muitos regentes pulam em seus quadrados mais do que a música demanda, criando uma gesticulação que mais serve para ressaltar o intérprete do que a música. Outro ponto a notar na mise en scène dos intérpretes é que num mundo tão competitivo é preciso criar algo além do intérprete perfeito, e aí vem o espetáculo, de modo a se sobressair no mercado.

Yuja Wang é uma intérprete que sobressai de qualquer forma, e eu pessoalmente adoro ouvi-la no CD do meu carro!

MC: Como você se sente por vir ao Brasil?

Yuja Wang: Toquei há uns dez anos em São Paulo. Eu amo o Brasil, e quero muito desta vez ter mais tempo para desfrutar, apreciar a comida e me divertir.

No programa de amanhã, no Theatro Municipal, às 20h, a pianista executará Rachmaninov, Prelúdio nº 5, “Vocalise” e “Étude Tableau” nº 5. Chopin, Sonata nº 3. A última peça da noite é a Sonata nº 6 de Prokofiev. A peça alterna violência com momentos pastorais, criando uma desorientação que faz dela uma obra de emoções complexas e desafios técnicos até para os melhores pianistas. Perfeita para as mãos de Yuja Wang.

Notas e Acordes

LANÇAMENTO DO LIVRO de Jocy de Oliveira, “Leituras de Jocy”, após um bate-papo com a compositora. Hoje, às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon.



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