Jornal do Brasil

Música em Pauta

Música em Pauta

Mariana Camargo

Música de Filme

Jornal do Brasil

Em uma cena do filme “Lifeboat”, de Hitchcock, em que nove pessoas estão num barco perdido no meio do oceano, o diretor questiona o compositor da trilha sonora, Hugo Fridhofer, sobre a lógica de se colocar música numa cena em um lugar perdido no meio do nada: de onde estaria vindo o som desta orquestra no meio do mar? Ao que o compositor responde: Vem do mesmo lugar de sua câmera, Mr. Hitchcock.

Tão engenhoso como escolher onde deve haver música numa cena é escolher onde deve estar o silêncio. Muitos diretores cometem o erro de tentar consertar com música falhas de edição, roteiro, atores, etc. O resultado é uma inundação irritante de música que chama mais atenção do que a própria história e os personagens. Pode-se dizer que uma boa trilha sonora é aquela que não se nota, que não rouba a cena. Claro que há exceções nas quais a música deve estar em primeiro plano, mas pouquíssimos diretores têm a competência para tornar a música personagem da imagem. Exemplo gritantemente genial e óbvio de casamento perfeito entre música e cinema é “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Talvez as primeiras músicas que venham à mente quando se pensa nesse lme sejam: “ Assim falou Zaratustra”, poema sinfônico de Richard Strauss (1864-1949), na sequência em que o macaco descobre a possibilidade de usar o pedaço de osso, e a valsa “Danúbio Azul”, de Johann Strauss II (1825-1899), em que a estação orbital “dança” no espaço. No entanto, uma das músicas mais sofisticadas do filme e, sobretudo, completamente desconhecida na época, é “Atmosphères”. Essa música, tão bem encaixada no filme, talvez não seja tão perceptível exatamente pela sua maior originalidade, a falta de melodia.

Macaque in the trees
O monolito surge na primeira cena com música de Ligeti (Foto: Reprodução)

 

“Atmosphères”, composta, em 1961, pelo compositor húngaro György Ligeti (1923-2006), é um dos melhores exemplos de “micropolifonia”, uma técnica de compor em que a textura da música é privilegiada em detrimento da linha melódica de uma única voz. O resultado é uma massa sonora densa em que as muitas linhas melódicas são sobrepostas de maneira a não serem identificadas individualmente, criando um efeito sonoro completamente novo na época. Kubrick deve ter tido mais um de seus momentos epifânicos quando ouviu Ligeti, pois usou trechos de outras três peças suas no filme, como o “Réquiem para soprano e mezzosoprano, coro e orquestra”, que é também um exemplo da densa textura de massas sonoras, sendo a música da primeira cena em que surge o monolito.

Ligeti, que não foi consultado sobre o uso de sua música em “2001: Uma Odisseia no Espaço”, inicialmente ficou muito contrariado. No entanto, tudo ficou resolvido posteriormente, tanto que Kubrick utilizou a música de Ligeti nos filmes “O Iluminado” e “De olhos bem fechados”. O nome de Ligeti tornou-se mais conhecido com o filme, e sem dúvida uma grande parte do sucesso de “2001: Uma Odisseia no Espaço” se deve à música de Ligeti.

Notas e Acordes

LANÇAMENTO DO LIVRO de partituras para dois violões de Francisco Mignone. A edição de luxo, com textos em versão bilíngue, terá noite de autógrafos com a curadora do livro e viúva do compositor, Maria Josephina Mignone, na Livraria da Travessa, em Ipanema, sexta-feira às 19h.



Recomendadas para você