Jornal do Brasil

Música em Pauta

Música em Pauta

Mariana Camargo

O Maestro sumiu!

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Pode uma orquestra com cerca de 50 músicos executar sinfonias como as de Beethoven e Mahler sem maestro? Se pode, então quão necessário é o maestro? Uma orquestra, mesmo sem maestro, é uma orquestra. Já um maestro sem orquestra...Orquestras sem maestros existem há séculos, especialmente quando são pequenas. À medida que crescem em número de músicos, surge a necessidade do maestro. Um quarteto, por exemplo, não precisa de regência, os quatro músicos se entendem entre si, mas numa orquestra de câmara com mais de oito instrumentos, o papel do maestro passa a ser relevante como centralizador e organizador da concepção da peça, cabendo a ele, por exemplo, ditar o andamento (o tempo da música, se deve ser mais lenta ou mais rápida).

Na extinta URSS, a ideia de cortar o maestro surgiu como parte da ideologia marxista, a de que todos são iguais e portanto não deveria haver uma liderança. Foi criada então, em 1922, a orquestra ‘Persimfans’ (O Primeiro Conjunto Sinfônico Sem Maestro), que reunia cerca de 150 músicos sem regente. A ‘Persimfans’ existiu por uma década e talvez tenha terminado como reflexo da política na década de 30, quando Stalin estava no poder, no auge do autoritarismo.

Recentemente tem havido um ressurgimento de orquestras sem maestros em que se busca um modelo democrático, em contraste com a visão de que o maestro simboliza a impossibilidade da individualidade de cada músico se expressar. É o caso de orquestras como “Les Dissonances”, em Paris, a volta da “Persimfans’ em Moscou, ‘Kaleidoscope Chamber Orchestra’, em Los Angeles, entre outras.

No link adiante a quarta de Mahler é executada pela orquestra ‘Kaleidoscope’. Há muito o que apreciar nesta brilhante interpretação, como o frescor diferente de cada músico soar como solista, sem com isto perder a ideia do conjunto e permitindo a descoberta de timbres que muitas vezes passam despercebidos em execuções consideradas geniais. 

‘Kaleidoscope’ foi criada pelo clarinetista Benjamin Mitchell em 2014: “Nós não somos antimaestro” explica ele. “A ideia principal é ter um processo especial de criação de música de maneira muito democrática”.

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Orquestra Kaleidoscope em Los Angeles (Foto: Divulgação)

MC: Como vocês se organizam sem maestro? Deve ser muito mais difícil!

Benjamin Mitchell: Sim, é, nós temos de estudar muito mais. Temos muitas discussões sobre qual caminho escolher. Quando uma peça é mais conhecida, como uma de Beethoven, por exemplo, o processo se torna mais fácil. Uma peça contemporânea, no entanto, exige esforço extra para nos ouvirmos e chegarmos a um consenso.

A controvérsia está colocada. De um a lado, os que defendem que o regente é essencial para se alcançar um refinamento nas interpretações. Do outro, os músicos que acham poder moldar coletivamente a interpretação e obter o mesmo padrão de qualidade. O resultado é interessante para o público e a moda de orquestras sem maestro tem tudo para agradar e ficar.