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Felipe Ribbe

A inteligência artificial, a economia mundial e o Brasil

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Não é novidade que a inteligência artificial irá cada vez mais influenciar o mundo em que vivemos. Governos, grandes empresas e pequenas startups estão interessados no alto potencial que essa tecnologia tem de disrupção em variados setores. Porém, nem todos se beneficiarão com essa revolução. Pelo menos é o que mostra um estudo publicado pela consultoria McKinsey no início deste mês.
O uso de IA tem potencial de adicionar cerca de US$ 13 trilhões à economia global em 2030 em relação aos números atuais, o que corresponderá a um aumento médio no PIB mundial de 1,2% ao ano. Esse impacto econômico não será linear e sim gradativo, conforme a tecnologia evoluir. A contribuição da inteligência artificial para o crescimento econômico deve ser três vezes maior em 2030 do que nos próximos cinco anos, em função dos altos custos de desenvolvimento e implementação, que farão com que o ritmo inicial seja lento.
A adoção da tecnologia, no entanto, vai aumentar ainda mais o gap entre os países. O relatório analisou 41 deles e os dividiu em quatro grupos de acordo com os seguintes critérios: nível de maturidade digital (acesso à internet pela população e velocidade de conexão), capacidade de inovação, capital humano, conectividade com o mundo e flexibilidade e estrutura do mercado de trabalho.
No primeiro grupo estão EUA e China, os líderes na tecnologia. Ambos são os que mais investem em pesquisa na área, seja por políticas públicas ou iniciativa privada. O país asiático, aliás, lançou um plano ousado, no qual pretende ser a maior potência mundial em inteligência artificial em 2030. Para isso, está desenvolvendo a indústria local de chips, investiu em centros educacionais para formar um exército de especialistas, tem atraído profissionais de renome e, por último, criou um ecossistema interno robusto, impulsionado pela enorme quantidade de dados que possui (são 1,4 bilhão de habitantes), fundamental para alimentar os algoritmos. Não à toa, a startup mais valiosa de IA no mundo está lá, a Sensetime.
O segundo grupo é formado por países com as mesmas capacidades dos líderes, mas que estão um pouco atrás, como França, Inglaterra, Alemanha, Japão e Suécia. Eles tendem a investir na área, pois suas populações estão envelhecendo (o que afetará produtividade e PIB) e por conta dos altos custos de sua força de trabalho.
O grupo três é o das economias com capacidades moderadas, ou seja, em alguns critérios são bem avaliadas, em outros nem tanto. A Índia, por exemplo, tem uma infraestrutura digital subdesenvolvida, mas forma todo ano cerca de 1,7 milhão de novos profissionais em matérias STEM (acrônimo em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), mais do que o total de todos os países do G7.
Por último, o grupo dos que precisam melhorar suas capacidades, como Bulgária, Tunísia e Paquistão. São países com infraestrutura digital subdesenvolvida, relativamente isolados do comércio e do fluxo de dados global. Essas economias tendem a priorizar o crescimento de setores existentes e a redução da pobreza, pois essas áreas têm potencial maior de retorno no curto/médio prazos do que uma tecnologia disruptiva como IA. O problema é que, com isso, o gap vai aumentar cada vez mais.
O relatório coloca o Brasil entre o terceiro e o quarto grupos. Por aqui temos profissionais de muita capacidade e empresas de todos os tamanhos apostando em inteligência artificial, mas são iniciativas isoladas. Falta um plano de governo bem elaborado, que foque em infraestrutura, pesquisa, formação de especialistas e que estimule novos empreendimentos na área. O próprio relatório da McKinsey deixa claro que os grupos não são estáticos e que países podem se mover entre eles. A China é um exemplo. Pouco tempo depois de anunciar seu programa, o país tornou-se referência no assunto. Será que, mais uma vez, vamos ficar parados, vendo a oportunidade passar?



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